14.8.26

Bertolt Brecht, 70 anos depois

 Bertolt Brecht, 70 anos depois: os clássicos e as ideias de um gigante do teatro político

Autor de Mãe Coragem, A vida de Galileu e A ópera dos três vinténs morreu em 14 de agosto de 1956 e deixou uma obra marcada pela crítica à guerra, ao fascismo e às desigualdades

Conteúdo postado por:Redação Brasil 247Redação Brasil 247Publicado em 13 de agosto de 2026 às 16:26Apoie o 247

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247 — Há exatamente 70 anos, em 14 de agosto de 1956, morria em Berlim Bertolt Brecht, um dos mais importantes dramaturgos, poetas e pensadores do teatro do século XX. Sete décadas depois, sua obra continua atravessando fronteiras porque parte de uma pergunta que permanece atual: de que maneira a arte pode ajudar o ser humano não apenas a contemplar o mundo, mas a compreendê-lo criticamente e transformá-lo?

Nascido em Augsburg, na Alemanha, em 10 de fevereiro de 1898, Brecht atravessou duas guerras mundiais, a ascensão do nazismo, o exílio e as grandes disputas ideológicas do século XX. Marxista, transformou sua experiência histórica em uma dramaturgia que confrontava o público com questões relacionadas ao poder, à exploração econômica, à guerra, à propaganda e às contradições da sociedade capitalista. O Berliner Ensemble, companhia fundada por Brecht e pela atriz Helene Weigel em 1949, registra que o dramaturgo morreu em sua casa, em Berlim, em 14 de agosto de 1956. (Berliner Ensemble)

O teatro que não queria espectadores passivos

Brecht revolucionou a linguagem teatral ao desenvolver aquilo que se tornou conhecido como teatro épico. Em vez de simplesmente produzir identificação emocional entre público e personagens, procurava criar condições para que o espectador observasse criticamente o que acontecia diante de seus olhos.

O chamado efeito de distanciamento tornou-se uma das marcas dessa concepção. A intenção não era retirar a emoção da arte, mas impedir que a emoção encerrasse a reflexão. O espectador deveria perceber que as relações sociais apresentadas no palco não eram naturais nem eternas — e, portanto, poderiam ser modificadas.

A Deutsche Biographie define Brecht como um poeta político que revolucionou a arte cênica do século XX por meio de seu teatro épico, posteriormente chamado por ele de teatro dialético, combinando política e criação artística a partir da ideia de que o mundo é passível de transformação. (Biografia Alemã)

Essa concepção ajuda a explicar por que Brecht permanece tão influente. Para ele, pobreza, exploração, guerra e autoritarismo não deveriam aparecer como fatalidades inevitáveis. Cabia ao teatro revelar os mecanismos que produziam essas situações.

De A ópera dos três vinténs a Mãe Coragem

Entre os grandes clássicos de Brecht está A ópera dos três vinténs, escrita em colaboração com o compositor Kurt Weill e apresentada pela primeira vez em Berlim em 1928. A montagem tornou-se um grande sucesso de público e atacava, com ironia, a respeitabilidade burguesa, aproximando o universo dos negócios daquele da criminalidade. (Berliner Ensemble)

Outra obra fundamental é Mãe Coragem e seus filhos, escrita no contexto da ascensão da guerra na Europa. A personagem Anna Fierling tenta sobreviver comercializando mercadorias durante a Guerra dos Trinta Anos, enquanto perde seus filhos para o próprio conflito do qual procura retirar seu sustento. A peça tornou-se uma das mais contundentes reflexões de Brecht sobre a relação entre guerra, lucro e destruição humana.

Em A vida de Galileu, Brecht transformou a trajetória de Galileu Galilei em uma discussão sobre ciência, verdade, poder e responsabilidade intelectual. A peça coloca no centro uma questão que permanece contemporânea: qual deve ser a atitude de cientistas e intelectuais quando a verdade entra em choque com estruturas poderosas?

Em A alma boa de Setsuan, o dramaturgo questiona a possibilidade de permanecer moralmente bom em uma sociedade organizada de maneira injusta. Já O círculo de giz caucasiano discute justiça, propriedade e responsabilidade.

E em A resistível ascensão de Arturo Ui, escrita durante o exílio, Brecht utilizou uma parábola sobre gângsteres para abordar a ascensão de Adolf Hitler. O próprio título carrega uma ideia decisiva: o avanço do fascismo não deve ser tratado como um fenômeno inevitável da história. A peça foi escrita durante o período em que Brecht fugia do regime nazista, primeiro para a Dinamarca e posteriormente para outros países europeus e os Estados Unidos. (Berliner Ensemble)

Exílio diante do nazismo

Quando Hitler chegou ao poder, em 1933, Brecht deixou a Alemanha. Passou pela Dinamarca, Suécia, Finlândia e Estados Unidos. Seus trabalhos foram perseguidos pelo regime nazista, e Brecht perdeu a cidadania alemã durante o período de exílio.

Nos Estados Unidos, chegou a ser interrogado em 1947 pelo Comitê de Atividades Antiamericanas do Congresso, durante a perseguição a artistas e intelectuais acusados de vínculos com o comunismo. Logo depois, deixou o país e retornou à Europa. (Biografia Alemã)

Em 1949, estabelecido em Berlim Oriental, fundou com Helene Weigel o Berliner Ensemble. A companhia se tornaria uma das instituições teatrais mais influentes da Europa. Em 1954, passou a ocupar o Theater am Schiffbauerdamm, palco histórico onde A ópera dos três vinténs havia estreado décadas antes. (Biografia Alemã)

Frases que atravessaram gerações

A força de Brecht também está na capacidade de condensar conflitos políticos e morais em formulações memoráveis. Uma das passagens mais famosas de A vida de Galileu nasce do diálogo em que Andrea afirma ser infeliz a terra que não tem heróis. Galileu responde invertendo a questão: infeliz é a terra que precisa de heróis.

Em A ópera dos três vinténs, outra formulação tornou-se célebre ao colocar as necessidades materiais diante das exigências morais: primeiro vem a comida, depois a moral. A frase sintetiza um tema recorrente em Brecht — a impossibilidade de discutir abstratamente virtude e comportamento sem considerar as condições concretas em que vivem os seres humanos.

Sua poesia também tornou universais reflexões sobre tempos de autoritarismo, guerra e perseguição. Brecht insistia em chamar atenção para aquilo que uma sociedade passa a considerar normal. Esse procedimento aparece repetidamente em sua obra: tornar estranho aquilo que parece familiar para que o público volte a enxergá-lo.

Por isso, muitas frases apócrifas passaram a circular ao longo das décadas atribuídas ao dramaturgo. A própria popularidade dessas falsas citações demonstra o tamanho da presença de Brecht no imaginário político e cultural, mas também torna fundamental distinguir sua obra real das formulações que posteriormente receberam seu nome.

Setenta anos depois

Brecht morreu aos 58 anos. Sua influência, porém, continuou crescendo. Suas peças passaram a ser encenadas em diferentes idiomas e contextos políticos, e seus conceitos modificaram a formação de atores, diretores, dramaturgos e estudiosos do teatro.

Sua obra nasceu de circunstâncias específicas — guerras mundiais, fascismo, crise do capitalismo europeu, revoluções e confrontos ideológicos —, mas as perguntas que formulou sobreviveram ao século XX.

Quem paga pela guerra? Quem lucra com ela? O que acontece quando a mentira se transforma em instrumento político? Qual é a responsabilidade do intelectual diante do poder? É possível exigir virtude de quem não dispõe das condições materiais mínimas para viver? E por que sociedades inteiras aceitam como naturais relações que foram historicamente construídas?

Setenta anos após sua morte, são essas perguntas, mais do que qualquer resposta pronta, que mantêm Bertolt Brecht vivo.

 

9.8.26

Zen: a viagem de uma palavra

 De dhyāna ao Zen: a viagem milenar de uma palavra que nasceu na Índia e atravessou a Ásia

Do sânscrito aos mosteiros chineses e japoneses, a trajetória da palavra revela como a prática da meditação atravessou línguas, culturas e diferentes concepções sobre a consciência

Conteúdo postado por:Redação Brasil 247Redação Brasil 247Publicado em 8 de agosto de 2026 às 22:00Apoie o 247

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247 — A palavra “meditação”, em português, tem origem no latim meditatio, derivado de meditari, verbo associado a refletir, contemplar e exercitar o pensamento. Mas uma das palavras mais importantes para compreender a história das práticas meditativas orientais nasceu em outro universo linguístico e filosófico: o sânscrito dhyāna (ध्यान).

Ligado à raiz sânscrita √dhyai, associada ao ato de contemplar, pensar ou meditar, dhyāna tornou-se um conceito fundamental das tradições espirituais da Índia. Ao longo dos séculos, a palavra atravessaria montanhas, desertos, impérios e civilizações. Com a expansão do budismo, viajaria da Índia para a China, onde daria origem ao termo Chán (), e posteriormente chegaria ao Japão, onde o mesmo caractere seria pronunciado Zen.

A conhecida palavra “Zen”, portanto, carrega em sua própria história os vestígios de uma extraordinária circulação de ideias entre Índia, China e Japão. Sua trajetória mostra não apenas como as palavras se transformam quando passam de uma língua para outra, mas também como conceitos filosóficos são reinterpretados pelas culturas que os recebem.

Dhyāna e as raízes indianas da meditação

Nas antigas tradições indianas, meditar não significava simplesmente relaxar ou interromper momentaneamente as preocupações cotidianas. A contemplação estava relacionada às questões fundamentais da existência: o que é a consciência, quem somos e qual é a natureza última da realidade.

Nos Upaniṣads, textos que constituem uma das bases do pensamento filosófico indiano, a contemplação aparece associada à investigação da relação entre Ātman, o princípio mais profundo do ser, e Brahman, a realidade absoluta.

Uma das mais célebres formulações dessa tradição aparece no Chāndogya Upaniṣad: Tat tvam asi, geralmente traduzido como “Tu és Isso”. A expressão tornou-se central para correntes posteriores do Vedānta ao apontar para uma relação profunda entre aquilo que existe no interior do indivíduo e o fundamento da realidade.

Nesse universo, a meditação pode assumir uma dimensão radical: em vez de procurar algo exterior, o praticante dirige sua atenção para a própria natureza da consciência.

A mente inquieta da Bhagavad Gītā

A Bhagavad Gītā acrescentaria outra dimensão decisiva à tradição meditativa indiana. No diálogo entre Arjuna e Krishna, especialmente no sexto capítulo, dedicado ao caminho da meditação, surge um problema reconhecível mesmo milhares de anos depois: a dificuldade de controlar uma mente inquieta.

Arjuna apresenta a mente como turbulenta e difícil de dominar. A resposta de Krishna aponta para dois conceitos fundamentais: abhyāsa, a prática constante, e vairāgya, o desapego.

A combinação dos dois conceitos contém uma concepção sofisticada do treinamento mental. Não se trata simplesmente de combater pensamentos ou eliminar emoções pela força. A mente seria progressivamente educada pela prática, enquanto o desapego reduziria a força com que desejos, medos e pensamentos capturam continuamente a atenção.

A meditação deixa, assim, de ser apenas um exercício intelectual. Torna-se uma disciplina de transformação da relação do indivíduo consigo mesmo e com o mundo.

Patañjali e o caminho da concentração ao samādhi

Nos Yoga Sūtras, atribuídos a Patañjali, a meditação ganha uma formulação técnica que exerceria enorme influência sobre a tradição do Yoga.

Um dos ensinamentos mais conhecidos da obra é expresso pela fórmula sânscrita yogaś citta-vṛtti-nirodhaḥ, frequentemente interpretada como a ideia de que o Yoga consiste na cessação ou contenção das flutuações da mente.

Patañjali distingue diferentes etapas desse processo. Primeiro aparece dhāraṇā, a concentração: a capacidade de manter a atenção dirigida a determinado objeto. Quando essa atenção passa a fluir de maneira contínua, chega-se a dhyāna, a meditação propriamente dita. O aprofundamento desse processo conduz a samādhi, estado de absorção meditativa.

A sequência pode ser sintetizada como:

Dhāraṇā → Dhyāna → Samādhi

Essa distinção é importante porque mostra que, na tradição clássica do Yoga, concentração e meditação não são exatamente a mesma coisa. A concentração prepara o terreno; dhyāna surge quando a atenção adquire continuidade.

Quando dhyāna deixou a Índia

A história da palavra ganhou uma nova dimensão com a expansão do budismo para além da Índia.

Durante séculos, monges, peregrinos, comerciantes e tradutores percorreram as redes que conectavam o subcontinente indiano à Ásia Central e à China. Junto com textos, imagens e ensinamentos religiosos, viajavam também palavras.

Foi nesse gigantesco processo de intercâmbio cultural que dhyāna atravessou fronteiras linguísticas. O conceito indiano foi transmitido para o universo chinês e sua denominação acabou associada ao caractere , pronunciado Chán no mandarim moderno.

A transformação não foi apenas fonética. Ao chegar à China, o budismo entrou em contato com uma civilização que possuía tradições filosóficas próprias. Séculos de interação produziram novas interpretações e métodos de prática.

Desse encontro emergiria aquilo que ficou conhecido como budismo Chán.

Da China ao Japão: Chán se transforma em Zen

A viagem continuaria em direção ao arquipélago japonês.

As tradições budistas chinesas exerceram profunda influência sobre o desenvolvimento religioso e cultural do Japão. Quando as escolas associadas ao Chán foram transmitidas ao ambiente japonês, o mesmo caractere passou a ser pronunciado Zen.

A genealogia linguística pode, de maneira simplificada, ser representada assim:

Dhyāna → Chán → Zen

Por trás dessa pequena sequência encontram-se muitos séculos de história.

Cada palavra pertence a um contexto cultural específico. O dhyāna das tradições indianas, o Chán chinês e o Zen japonês não devem ser tratados como fenômenos perfeitamente idênticos. Cada sociedade reinterpretou práticas, conceitos e ensinamentos recebidos anteriormente.

Ainda assim, a própria sobrevivência dessa linhagem linguística revela a força histórica da ideia original de contemplação meditativa.

Uma palavra que acabou conquistando o Ocidente

Séculos depois, a viagem tomaria uma direção inesperada. O Zen começaria a despertar crescente interesse no Ocidente, sobretudo a partir dos séculos XIX e XX, quando traduções, estudos sobre religiões asiáticas e a atuação de mestres budistas ampliaram o contato de europeus e norte-americanos com essas tradições.

“Zen” acabou se tornando uma palavra internacional. Em seu uso cotidiano contemporâneo, muitas vezes passou a significar simplesmente tranquilidade, simplicidade ou equilíbrio. Esse emprego, porém, está muito distante da complexidade filosófica e religiosa da tradição que deu origem ao termo.

Reconstruir a história da palavra permite percorrer o caminho inverso.

Por trás do Zen encontra-se o Chán. Por trás do Chán encontra-se uma longa história de transmissão do budismo a partir da Índia. E na raiz dessa genealogia encontra-se dhyāna, conceito sânscrito relacionado à contemplação e à meditação.

A viagem de dhyāna ao Zen é, portanto, muito mais do que uma curiosidade etimológica. É o registro linguístico de um dos grandes encontros culturais da história da humanidade.

Uma palavra nasceu no universo espiritual da Índia, atravessou as rotas da Ásia, encontrou a civilização chinesa, chegou ao Japão e, muitos séculos depois, espalhou-se pelo mundo.

Ao longo desse percurso, sua pronúncia mudou, seus contextos filosóficos se transformaram e novas tradições surgiram ao seu redor. Mas permaneceu uma questão que atravessa toda essa história: o que acontece com a consciência quando a mente deixa de ser continuamente arrastada pelo movimento dos próprios pensamentos?

 

7.8.26

Glória eterna a Lejeune Mirhan!

 Professor, sociólogo, escritor, militante comunista e um dos mais respeitados analistas brasileiros de geopolítica, Lejeune Mirhan deixa um legado de conhecimento, internacionalismo e luta pela soberania dos povos

Conteúdo postado por:Redação Brasil 247Redação Brasil 247Publicado em 6 de agosto de 2026 às 19:13Atualizado em 7 de agosto de 2026 às 05:21Apoie o 247

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247 – O Brasil perdeu nesta quinta-feira (6) um de seus mais importantes intelectuais dedicados à compreensão da política internacional e à defesa da soberania dos povos. Morreu, aos 69 anos, o professor, sociólogo, escritor, editor e analista geopolítico Lejeune Mirhan, comentarista do Bom Dia 247, apresentador do programa O Mundo como ele é, na TV 247, ao lado do jornalista José Reinaldo Carvalho, conselheiro do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz), militante histórico do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), editor da Apparte e autor de dezenas de livros e cursos voltados ao estudo do marxismo, das religiões, da geopolítica e de grandes personagens da história mundial.

Lejeune estava internado havia algumas semanas na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Madre Teodora, em Campinas (SP). Seu quadro vinha apresentando sinais de recuperação, mas, na tarde desta quinta-feira, sofreu uma parada cardiorrespiratória e não resistiu.

Sua morte provoca profunda comoção entre familiares, amigos, companheiros de militância, leitores, alunos e telespectadores que, durante anos, acompanharam suas análises sempre marcadas pelo rigor teórico, pela clareza didática e pelo compromisso inabalável com a emancipação dos povos.

Um intelectual a serviço da transformação social

Mais do que um acadêmico, Lejeune Mirhan fez da produção do conhecimento uma forma de militância política. Professor universitário, sociólogo e polímata, dedicou décadas ao estudo do imperialismo, das relações internacionais, do Oriente Médio, do marxismo, da história dos povos árabes e das profundas transformações da ordem mundial.

Foi professor da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep), presidiu por duas vezes o Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo, entidade da qual foi um dos fundadores, e teve sua formação acadêmica profundamente marcada pelo sociólogo Florestan Fernandes, que orientou sua pesquisa de mestrado sobre o movimento estudantil brasileiro após 1968.

Ainda jovem, destacou-se como liderança estudantil na região de Campinas, tornando-se conhecido como “Lejeune Mato Grosso”.

Natural de Corumbá (MS), jamais perdeu os vínculos com sua cidade natal, onde pesquisou a imigração sírio-libanesa e a contribuição de sua própria família para a vida econômica, cultural e intelectual da região.

Um dos maiores analistas brasileiros de geopolítica

Depois da aposentadoria da carreira universitária, Lejeune ampliou sua atuação como analista internacional, tornando-se uma das vozes mais respeitadas do país nos debates sobre geopolítica.

Na TV 247, conquistou milhares de espectadores com suas participações diárias no Bom Dia 247 e no programa semanal O Mundo como ele é, apresentado ao lado de José Reinaldo Carvalho.

Sua interpretação da política internacional partia de uma sólida formação marxista, mas sempre apoiada em vasta pesquisa histórica e documental.

Estudioso da ascensão da China, das transformações na Eurásia e das mudanças nas relações internacionais, Lejeune sustentava que o sistema internacional já havia ingressado em uma etapa efetivamente multipolar.

Segundo José Reinaldo Carvalho, Lejeune “sustentou com firmeza e rigor científico que o mundo se tornou multipolar”, refutando “as falsas teses de que essa realidade ainda estaria distante ou seria resultado de uma longa transição que apenas começou”.

Também defendia o papel desempenhado por China, Rússia, Irã e outros países emergentes na reorganização da ordem internacional, manifestava apoio entusiasmado à Revolução Cubana e ao socialismo em Cuba e via no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva uma importante referência para a afirmação da soberania brasileira e da integração do Sul Global.

A luta anti-imperialista e a solidariedade internacional

Durante décadas, Lejeune participou de missões internacionais de solidariedade à Palestina e à Síria.

Conselheiro do Cebrapaz, foi um dos intelectuais brasileiros mais identificados com a causa palestina e denunciou continuamente a violência sofrida pelo povo palestino.

Sua obra intelectual sempre esteve ligada à defesa da autodeterminação dos povos, da paz, do direito internacional e da resistência ao imperialismo.

Autor de mais de uma dezena de livros — entre eles Atualidade da luta anti-imperialista — também fundou a Editora Apparte, responsável por parte significativa de sua produção editorial.

Além dos livros, produziu centenas de artigos e cursos de formação política sobre marxismo, religiões, geopolítica e grandes personagens da história, como Mao Zedong.

Mais de cinco décadas de militância comunista

Filiado ao Partido Comunista do Brasil durante aproximadamente cinco décadas, Lejeune jamais se afastou da militância política.

José Reinaldo Carvalho, editor internacional da TV 247, parceiro de mais de quarenta anos de luta política e companheiro de apresentação na TV 247, definiu sua morte como uma perda irreparável.

“É com profundo pesar e imensa tristeza que recebo a notícia do falecimento do querido camarada Professor Lejeune Mirhan. Sua partida deixa um vazio irreparável no cenário intelectual, acadêmico e político do Brasil. Os comunistas brasileiros lamentam profundamente o seu desaparecimento.”

Segundo José Reinaldo, Lejeune “não foi apenas um brilhante sociólogo e analista geopolítico; foi, acima de tudo, um defensor incansável da justiça social, dos direitos dos povos soberanos e da emancipação humana”.

Ele recordou que o amigo “desenvolveu argumentos sólidos sobre a luta anti-imperialista e pelo socialismo”, foi militante desde a juventude, líder estudantil e polemista que enfrentava “teses conciliadoras com as classes dominantes e o imperialismo”.

José Reinaldo lembrou ainda os mais de quarenta anos de convivência política nas fileiras do PCdoB e destacou o trabalho realizado nos últimos cinco anos no Brasil 247.

“Nos últimos cinco anos desenvolvemos um imenso trabalho jornalístico no site Brasil 247 e na TV 247, onde fazíamos com Leonardo Attuch o Bom Dia e o nosso programa semanal O Mundo como ele é, trincheira do conhecimento e da luta anti-imperialista.”

Também ressaltou que Lejeune foi “um defensor da causa palestina” e combateu o genocídio contra o povo palestino, deixando uma obra dedicada à libertação nacional e social dos povos.

A comoção no Brasil 247 e na imprensa progressista

O fundador do Brasil 247, Leonardo Attuch, afirmou que a morte de Lejeune representa uma perda pessoal e intelectual.

“Perdemos um amigo, colega e, sobretudo, um grande professor. Aprendi muito com ele todas as manhãs não apenas sobre a geopolítica mas sobre a importância de acreditar que um mundo melhor é possível. Glória eterna a Lejeune Mirhan.”

A diretora da TV 247, Dayane Santos, destacou seu papel como educador.

“Mais do que um estudioso, Lejeune foi um educador que acreditava no conhecimento como instrumento de transformação social. Sua dedicação ao debate público e à construção de um mundo mais justo e um país soberano e democrático deixa uma marca permanente na vida intelectual brasileira.”

Para Florestan Fernandes Jr., editor da TV 247, trata-se de um dia de profundo luto.

“Dia muito triste para nós da Redação do Brasil 247, para a nossa comunidade. Um grande intelectual, teve um papel importante como professor universitário. Era um militante comunista. Gostava muito dele. Tinha uma admiração imensa não só pelas ideias, mas pelo conhecimento. Entendia muito bem a geopolítica mundial.”

O editor da TV 247 Mario Vitor Santos resumiu a perda em poucas palavras:

“Companheiro indispensável, colega generoso, perda imensa.”

O editor do Diário do Centro do Mundo, Kiko Nogueira, destacou a coerência de sua trajetória.

“Lejeune fez da inteligência uma forma de militância e do conhecimento um compromisso com a transformação do mundo. Um dos intelectuais mais corajosos e coerentes do Brasil. Longa vida ao professor Lejeune.”

Já Renato Rovai, editor da revista Fórum, lembrou sua dedicação à causa palestina.

“Lejeune fará muita falta. Ele foi um intelectual orgânico da luta Palestina e das liberdades dos povos. Poucos tinham tanta capacidade para esses debates quanto ele.”

O jornalista e analista político Jeferson Miola ressaltou sua esperança permanente.

“Estou aqui, surpreso. Uma perda chocante. Uma voz dedicada à luta pela emancipação de todos os povos, na organização de um pensamento crítico, para interpretar as dinâmicas internacionais, o papel do imperialismo estadunidense no mundo, e o levante, as resistências nas lutas contra opressões, pela libertação. Era impressionante a alegria que ele tinha mesmo nos momentos mais duros. Sempre estava com a esperança em seu horizonte.”

O jornalista Marco Damiani ressaltou a postura revolucionária de Mirhan. “Minha solidariedade à família, aos amigos do professor Mirhan. A gente sabe o quanto é duro perder um camarada, companheiro, líder de qualidade, dedicado, exemplo de que é preciso ser duro na luta sem perder a ternura, sem perder alegria. O professor Mirhan foi exemplo desta postura, adequada para um revolucionário”.

“Um grande intelectual, tinha uma leitura de geopolítica como ninguém, extremamente qualificado, um grande quadro progressista, atuante. Uma imensa perda. O País fica sem um quadro intelectual muito relevante”, lamentou o jurista Pedro Serrano.

O ativista socioambiental e internacionalista Thiago Ávila ressaltou que “o professor Lejeune foi um grande educador do nosso tempo, porém, foi mais que isso. Escreveu dezenas de livros onde aliava densidade intelectual com uma didática impressionante que ajudava as pessoas a compreender os grandes desafios do nosso tempo. Nosso irmão compreendeu muito bem a tarefa histórica de nossa geração de acabar com o imperialismo e o sionismo e nunca tergiversou em sua trajetória. Deixará muitas saudades em tanta gente todas as manhãs, quando nos acostumamos a escutar Lejeune no Bom Dia 247 e em tantos outros programas. Toda solidariedade à família e às pessoas mais próximas. Lejeune, Presente hoje e sempre!”

Um legado que permanece

Ao longo de mais de cinco décadas de vida pública, Lejeune Mirhan ajudou a formar milhares de estudantes, militantes e leitores. Produziu livros, cursos, artigos, conferências e análises que se tornaram referência para a compreensão das transformações do sistema internacional e da luta dos povos por soberania, justiça social e emancipação.

Seu pensamento continuará presente nas páginas de seus livros, nas gravações de suas aulas, nos programas da TV 247 e na memória de todos aqueles que aprenderam com sua generosidade intelectual, sua disciplina de estudo e sua convicção de que a história é construída pela ação consciente dos povos.

Glória eterna a Lejeune Mirhan.

 

1.8.26

voz antirracista

 O poeta negro Miró da Muribeca, voz antirracista do Recife

Quatro anos após a morte de Miró da Muribeca, a memória do bardo urbano do Recife resiste ao esquecimento oficial através do livre fluxo das lembranças

Publicado em 31 de julho de 2026 às 11:47

Crédito: Reprodução/Facebook

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Quando às vezes nos encontramos cansados, ou com a mais incômoda esterilidade, eis que cai sobre nós um assunto ou pessoa que exige merecidas linhas. Este é o caso do poeta Miró da Muribeca, que faleceu em 31 de julho de 2022. Faz só quatro anos, e parece que ninguém mais o lembra! Os jornais não registram a data, os portais na internet não percebem a sua falta, então é preciso que um escritor conterrâneo e de origem fraterna o lembre.

Em um Recife de tantas vozes negras, entre as quais poucas se veem como afrodescendentes, ponho Miró da Muribeca ao lado de Solano Trindade, o grande poeta comunista, que legou poemas inesquecíveis como “Tem gente com fome”. Miró está ao lado de Solano não bem pela consciência socialista, de marxismo, mas pela consciência de classe vivida, negra, expressa em poesia que é um soco no estômago de toda a gente.

Tantas coisas a falar sobre Miró. Tantas, que nem consulto anotações e textos anteriores, como os que escrevi sobre a sua biografia publicada pela CEPE, e no Dicionário Amoroso do Recife. Seria fácil copiar e colar. Mas não, à sua maneira, vou improvisando no livre fluxo da memória. De repente, estou com ele no Recife, próximo ao Bar Mamulengo, tiramos fotos. Ou na Rua do Bom Jesus, onde lhe digo, “Miró, escrevi sobre você”, e ele, grande, se curva num cumprimento que é uma graça. Ou diante da sua estátua, e recito versos em que o poeta fala que nas farmácias não existe remédio para a dor da saudade. Ou seria algo contra a dor da falta de amor?

De outra oportunidade, me contam que Miró estava numa roda de jovens na Rua da Moeda, no Recife Antigo, e os policiais o escolhem para sofrer um “baculejo” (gíria para a vistoria policial no corpo de uma pessoa). Ele foi o escolhido. Então, de volta à mesa, os jovens se revoltam contra a discriminação da polícia. E Miró os consola:

Nada, véi, tudo bem. Fazia tempo que ninguém pegava no meu saco.

E todos riem. Pois Miró era assim, ele arrancava do trágico, ou do dramático, a maior comicidade. Como numa declamação de poema, na Bienal do Livro, onde foi sucesso absoluto entre os jovens recifenses de todas as cores e classes. No palco, ele declamou, pelo que cito de memória:

Mãe, pai fumava maconha?

E a mãe:

Já tá querendo saber demais!.

Ou quando, em surtos ou contestação, andava de saia, de vestido, pelas ruas do Recife. A qualquer estranheza, ele respondia: “É a roupa da minha mãe que morreu. É assim que me lembro dela”. Ou quando o encontrei, no Pátio de Santa Cruz, no dia em que me dirigia para falar sobre o grande músico de frevo Maestro Nunes, numa missa de sétimo dia, e no bar às 9 da manhã Miró já estava bebendo a sua cerveja. E lhe disse:

Miró, vamos homenagear o Maestro Nunes, aqui perto, na Igreja de Santa Cruz. Você vem?

E ele, com um sorriso:

Depois, eu vou.

E fiquei com a esperança de que ele fosse mesmo, pelo menos como um intervalo na cerveja. Esperança frustrada. Depois, em outra oportunidade, num dos bares do Mercado da Boa Vista, quando ele ficou aos beijos cada vez mais insistentes em cima da minha filha Luanda. Tive que aguentar a mistura de admiração por Miró e o desgosto por aquela manifestação teimosa. Mas assim era a alma do poeta, na alegria e na tristeza. Ele amava, amava e amava demais, mas com maior frequência tinha de volta o desamor, desamor e desamor. O seu coração era um disparador de bumerangues.

Urariano Mota

Autor Urariano Mota

Autor de “Soledad no Recife”, recriação dos últimos dias de Soledad Barrett, mulher do Cabo Anselmo, entregue pelo traidor à ditadura. Escreveu ainda “O filho renegado de Deus”, Prêmio Guavira de Literatura 2014, e “A mais longa duração da juventude”, romance da geração rebelde do Brasil

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Obras modernista do Uzbequistão

 Unesco inclui 10 obras da arquitetura modernista do Uzbequistão na Lista do Patrimônio Mundial

O que torna essa arquitetura tão singular é justamente a fusão entre o modernismo soviético e a herança cultural da Ásia Central

Conteúdo postado por:Leonardo SobreiraLeonardo SobreiraPublicado em 1 de agosto de 2026 às 07:53Apoie o 247

             Bazar Chorsu em Tashkent, UzbequistãoBazar Chorsu em Tashkent, UzbequistãoCrédito: visit.tashkent.uz

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247 – O Comitê do Patrimônio Mundial da Unesco incluiu dez obras da arquitetura modernista de Tashkent na Lista do Patrimônio Mundial durante sua 48ª sessão. A informação foi divulgada pela TV BRICS.

De acordo com a Agência de Patrimônio Cultural do Uzbequistão, a seleção reúne edifícios construídos entre as décadas de 1960 e o início dos anos 1990, localizados na capital uzbeque e na região de Tashkent. Entre os bens reconhecidos estão:

  • edifício residencial “Pérola”;
  • Museu Estatal de História do Uzbequistão;
  • Palácio da Amizade dos Povos;
  • Museu Estatal de Artes do Uzbequistão;
  • edifício do Circo Estatal de Tashkent;
  • Pavilhão Central de Exposições da Academia de Artes do Uzbequistão;
  • Palácio Nacional da Arte Cinematográfica do Uzbequistão;
  • mercado Chorsu;
  • estação de metrô “Cosmonauta”;
  • complexo heliotérmico “Sol”.

Segundo a agência, a candidatura apresentada pelo Uzbequistão à Unesco, intitulada “Arquitetura do Modernismo de Tashkent: Modernismo e Tradições da Ásia Central”, tornou-se a primeira inscrição do país na Lista do Patrimônio Mundial em 25 anos. Com a decisão, o Uzbequistão também passou a ser o primeiro país da Comunidade dos Estados Independentes (CEI) e da Ásia Central a ter um conjunto de arquitetura modernista do século XX reconhecido pela organização.

O primeiro bem cultural do Uzbequistão inscrito na Lista do Patrimônio Mundial da Unesco foi a fortaleza de Ichan Kala, na cidade de Khiva, em 1990.

Vanguarda arquitetônica

A arquitetura modernista do Uzbequistão é o conjunto de edifícios construídos principalmente entre as décadas de 1960 e 1990, durante o período soviético, que combinam os princípios do modernismo internacional com elementos da cultura, do clima e das tradições arquitetônicas da Ásia Central.

Após o devastador terremoto que destruiu grande parte de Tashkent em 1966, a cidade foi praticamente reconstruída. Arquitetos soviéticos e uzbeques transformaram a capital em um grande laboratório de arquitetura modernista, criando edifícios públicos, culturais, esportivos e residenciais que uniam inovação técnica e identidade local.

Entre as principais características desse estilo estão:

  • formas geométricas simples e monumentais, típicas do modernismo;
  • uso extensivo de concreto armado, vidro e estruturas pré-fabricadas;
  • elementos inspirados na arquitetura islâmica e centro-asiática, como brises, painéis vazados e mosaicos ornamentais;
  • soluções adaptadas ao clima quente e seco, com fachadas que reduzem a incidência do sol e favorecem a ventilação;
  • integração de obras de arte, murais e esculturas aos edifícios.

O que torna essa arquitetura tão singular é justamente a fusão entre o modernismo soviético e a herança cultural da Ásia Central. Em vez de reproduzir modelos europeus, muitos arquitetos incorporaram padrões geométricos, técnicas construtivas tradicionais e referências à arquitetura islâmica, criando uma identidade própria para o modernismo uzbeque.

 

29.7.26

Violência em relacionamentos

 Mais de 50% das brasileiras afirmam ter sofrido violência em relacionamentos, aponta pesquisa

Estudo do Instituto Patrícia Galvão e do Instituto Locomotiva revela abismo entre relatos das vítimas e percepção dos agressores, além de expor impunidade e lentidão da Justiça como maiores gargalos

Conteúdo postado por:Guilherme LevoratoGuilherme LevoratoPublicado em 29 de julho de 2026 às 12:49Apoie o 247

Protesto contra o feminicídioCrédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil

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247 – Mais da metade (54%) das brasileiras que já se relacionaram com homens afirmam ter sido vítimas de algum tipo de violência praticada por parceiros ou ex-parceiros. Em contrapartida, apenas 11% dos homens admitem ter cometido qualquer tipo de agressão contra suas companheiras ou antigas parceiras, segundo reportagem do G1 com base na pesquisa inédita “20 anos da Lei Maria da Penha: percepção da sociedade brasileira”, realizada pelo Instituto Patrícia Galvão e pelo Instituto Locomotiva, com o apoio da Uber.

O levantamento traz um balanço abrangente sobre as duas décadas de vigência da legislação e projeta que cerca de 30 milhões de mulheres no Brasil dizem já ter sofrido violência no âmbito de um relacionamento afetivo. Quando o questionamento detalha situações específicas de abuso, o número de vítimas brasileiras salta para quase 48 milhões. O objetivo central do estudo é mensurar o nível de conhecimento da população, avaliar a efetividade dos mecanismos de proteção e identificar os desafios persistentes no combate às desigualdades de gênero.

Formas de agressão e o perfil dos agressores

A violência psicológica lidera os relatos das entrevistadas, sendo citada por 42% das mulheres. Na sequência aparecem a violência física (25%), a violência moral (19%), a violência sexual (10%) e a violência patrimonial (9%). No total, mais da metade das brasileiras declara ter sido vítima de pelo menos uma dessas modalidades previstas na legislação.

O estudo também revela uma assimetria no conhecimento sobre os tipos de abuso: a violência física é reconhecida por 88% das mulheres, a psicológica por 78%, a sexual por 76% e a moral por 61%. A violência patrimonial figura como a menos conhecida, lembrada por 46% das entrevistadas. Além disso, somente 39% das brasileiras sabem que a Lei Maria da Penha abrange e protege contra todos esses cinco tipos de violência.

A percepção de quem pratica as agressões reforça a proximidade dos autores:

  • Parceiros ou ex-parceiros: 88%
  • Familiares ou parentes próximos: 33%
  • Pessoas conhecidas: 29%
  • Desconhecidos: 27%
  • Todos os tipos de homens igualmente: 9%
  • Outras mulheres: 6%

Gargalos no enquadramento e na proteção das vítimas

Apesar dos progressos legislativos, a pesquisa aponta que a sensação de insegurança permanece intrínseca ao cotidiano feminino. Entre os principais obstáculos para o enfrentamento da violência contra a mulher, as entrevistadas destacam:

  • Medo de denunciar por represálias ou falta de proteção: 68%
  • Risco de impunidade dos agressores: 56%
  • Lentidão da Justiça: 39%
  • Cultura que naturaliza ou minimiza a violência: 35%
  • Falta de serviços de apoio às vítimas: 25%
  • Falta de aplicação das leis: 24%
  • Falta de preparo das forças de segurança: 23%
  • Falta de informação sobre direitos e canais de ajuda: 17%
  • Falta de envolvimento dos homens no enfrentamento da violência: 13%

As medidas protetivas de urgência são de amplo conhecimento do público feminino: 83% conhecem as medidas que impedem a aproximação do agressor, 74% sabem sobre o afastamento do agressor do lar, 68% identificam os abrigos para mulheres em situação de risco, 64% mencionam o atendimento psicológico e jurídico gratuito, enquanto 38% conhecem a proteção patrimonial destinada às vítimas.

No tocante aos serviços de apoio, a Delegacia da Mulher é o órgão mais lembrado pelas entrevistadas (75%), seguida pelo Ligue 180 (64%), Polícia Militar/190 (55%), Disque Denúncia (54%), CRAS e CREAS (34%), Juizados de Violência Doméstica e Familiar (34%), SOS Mulher (32%), Casa da Mulher Brasileira (32%), Defensoria Pública (29%) e Ministério Público (23%).

Reações diante de agressões e comportamento masculino

Diante de uma cena de agressão presenciada contra uma mulher, a postura de homens e mulheres apresenta divergências. Enquanto 70% das mulheres afirmam que chamariam a polícia ou outras autoridades, entre os homens esse percentual cai para 56%. Já a intervenção direta usando a força, se necessário, é a opção de 15% dos homens contra 7% das mulheres; 19% dos homens tentariam intervir discretamente sem uso da força (contra 9% das mulheres); 11% das mulheres procurariam ajuda de outras pessoas (contra 4% dos homens); 3% dos homens dizem que não interfeririam (contra 1% das mulheres); e 3% dos homens não souberam responder (contra 1% das mulheres).

A pesquisa aponta ainda um distanciamento cultural sobre o tema: 77% das mulheres acreditam que os homens não entendem determinadas atitudes como violência, e 82% consideram que muitos homens se omitem diante de agressões cometidas por outros homens.

Do lado masculino, a legislação demonstra certo impacto comportamental: 57% dos homens concordam que a existência da Lei Maria da Penha faz com que tratem as mulheres de forma melhor, e 60% afirmam que a lei os deixa mais em alerta sobre os riscos de cometer violência no dia a dia.

Impacto social e desafios para o futuro da lei

Criada para prevenir e coibir a violência doméstica e familiar no Brasil, a Lei nº 11.340/2006 homenageia a farmacêutica Maria da Penha, que ficou paraplégica após sofrer duas tentativas de feminicídio praticadas por seu então marido e lutou por quase duas décadas até obter a punição do agressor.

O levantamento revela a transformação da percepção social em relação ao passado: 81% das entrevistadas lembram que antes da lei predominava a ideia de que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”, 81% afirmam que as mulheres não tinham onde buscar ajuda e 64% pontuam que as punições eram brandas.

Atualmente, 7 em cada 10 mulheres afirmam que a lei produz impacto real na vida da população feminina, 54% declaram se sentir mais protegidas por sua existência e 3 em cada 4 dizem que a legislação as tornou mais conscientes sobre os riscos de violência. A associação principal feita à lei por quem a conhece é a proteção às mulheres e vítimas (73%), a responsabilização criminal dos agressores (15%), a prevenção e enfrentamento (4%), a proteção institucional e acesso à Justiça (3%), direitos e cidadania (3%), críticas ou negação (1%) e outros (1%).

Ainda assim, o descrédito no sistema completo de aplicação persiste:

  • Proteção efetiva: Apenas 25% acreditam que a lei protege totalmente as mulheres; 67% dizem que protege em parte e 8% avaliam que não protege.
  • Funcionamento prático: 80% concordam que a lei ainda não funciona na prática como deveria.
  • Insuficiência isolada: 82% entendem que a legislação, sozinha, é insuficiente para deter a violência.
  • Preparo policial: Apenas 41% consideram que as forças de segurança pública estão preparadas para atender adequadamente as vítimas.

Para avançar, os entrevistados indicam como medidas mais eficazes: ampliar o apoio e a proteção às vítimas (91%); endurecer as leis e aumentar as punições (91%); melhorar a aplicação das leis e o funcionamento da Justiça (90%); promover educação e prevenção nas escolas e campanhas (89%); facilitar o acesso aos canais de denúncia (89%); promover a autonomia financeira das mulheres (88%); fortalecer a atuação das forças de segurança (88%); e criar grupos de reflexão para homens agressores (73%).

A consolidação desse processo exige uma ação articulada entre órgãos estatais, redes de proteção e transformações culturais contínuas para erradicar o machismo e a misoginia. O levantamento foi realizado entre 22 e 30 de abril de 2026, com 1.500 pessoas de 16 anos ou mais em todas as regiões do país, por meio de entrevistas digitais de autopreenchimento, com margem de erro de 2,8 pontos percentuais.

Canais de atendimento e denúncia

A denúncia é o passo fundamental para romper o ciclo da violência doméstica, garantir a integridade da vítima e possibilitar a responsabilização do agressor.

A Central de Atendimento à Mulher atende pelo telefone 180, oferecendo orientação gratuita sobre direitos e serviços em todo o país. Em situações de emergência ou flagrante, a orientação é ligar para a Polícia Militar pelo número 190. Também é possível registrar ocorrências em delegacias comuns, Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (Deams), além de buscar suporte no Ministério Público e na Defensoria Pública.