“A
democracia representativa está morrendo no mundo todo”, alerta Miguel Nicolelis.
Neurocientista afirma que a crise de representação abre espaço para o avanço
dos gigantes da inteligência artificial e alerta para riscos à soberania
12 de junho
de 2026, 13:47 h
Miguel Nicolelis (Foto: Evilyn Guedes)
Conteúdo
postado por: Dayane
Santos
247 - O médico, neurocientista e
professor Miguel Nicolelis, considerado um dos mais importantes cientistas
brasileiros da atualidade e uma das principais referências mundiais em
neurociência, fez uma análise sobre os riscos que a expansão do poder das gigantes
da tecnologia representa para a democracia. Em entrevista ao programa Giro das
Onze, da TV 247, ele afirmou que a democracia representativa atravessa uma
crise global e que esse cenário vem sendo explorado pelos principais líderes da
indústria da inteligência artificial.
Ao analisar
as transformações políticas em curso no mundo, Nicolelis chamou atenção para o
afastamento entre representantes políticos e a população, especialmente entre
os mais jovens. Segundo ele, a perda de confiança nas instituições democráticas
tem se tornado um fenômeno global.
“A
democracia representativa está morrendo no mundo todo porque as camadas de
jovens estão perdendo a esperança que eles podem ser ouvidos pela classe
política. Isso é universal no mundo todo”, frisou.
Para o
neurocientista, esse vácuo de representação está criando uma oportunidade para
que empresários e grupos ligados ao setor da inteligência artificial ocupem
espaços cada vez maiores no debate público e na definição dos rumos da
sociedade.
“E os
overlords da inteligência artificial estão aproveitando desse vazio, desse
vácuo criado pela distância entre os representantes e os representados para
entrar no meio e tentar dizer que nós temos que viver sem isso, que é para
acabar com a democracia”, argumentou.
Nicolelis
afirmou que existe um projeto político por trás do discurso de parte da elite
tecnológica mundial. Segundo ele, a proposta seria substituir estruturas
democráticas e nacionais por um sistema concentrado de poder.
“Esse é o
projeto global desses caras, instituir uma monarquia tecnocrática global, onde
não existem nações, não existem governantes locais, não existem culturas
locais, porque tudo vai ser homogeneizado segundo o plano deles”, disse.
O cientista
também rejeitou a ideia de que a humanidade deva aceitar passivamente um futuro
definido pelos grandes conglomerados tecnológicos. Durante a entrevista, ele
criticou a narrativa segundo a qual a obsolescência humana diante da
inteligência artificial seria inevitável.
“Querem
vender que a nossa obsolescência é inevitável que o negócio é basicamente
aceitar o destino certo? E nos conformar, não, nada é inevitável, o destino não
está definido, não está traçado”, rebateu.
Na avaliação
de Nicolelis, a sociedade não delegou aos líderes da tecnologia a
responsabilidade de decidir os rumos da humanidade. Por isso, ele defende que
as decisões sobre o futuro devam permanecer submetidas ao debate democrático.
“Porque
ninguém elegeu esses caras para decidir qual é o nosso futuro, ninguém deu para
eles, ninguém deu na mão deles um mandato... eleitoral aí, um cargo para
decidir pela humanidade qual é o nosso futuro e quem são eles para decidir o
que vai ser que nós vamos fazer ou não vamos fazer”, enfatiza.
Ao comentar
uma entrevista concedida por Bill Gates nos Estados Unidos, Nicolelis voltou a
questionar a legitimidade das lideranças do setor para falar em nome da
população mundial.
“O cara
perguntou para o Gates: 'e aí, vai sobrar seres humanos? Os seres humanos vão
fazer alguma coisa?. Aí o Gates, do alto da arrogância diz: 'não muita coisa,
mas nós vamos decidir'. Nós quem? Não, mas nós quem? Nós quem, cara pálida?,
questionou.
Em seguida,
reforçou a crítica à concentração de poder nas mãos de um grupo restrito de
empresários e investidores: “Quem deu para ele o direito de falar em nome de
oito bilhões de pessoas e seus descendentes?”
Além das
preocupações políticas, Nicolelis demonstrou preocupação com a concentração de
recursos financeiros em projetos ligados à inteligência artificial. Segundo
ele, a disputa tecnológica global está impulsionando uma mobilização sem
precedentes de capital.
“Essa
operação, esse IPO, eu estou definindo como o maior aspirador financeiro da
história da humanidade”, afirmou. Para o neurocientista, a captação de dezenas
ou centenas de bilhões de dólares por empresas do setor pode gerar impactos
significativos sobre a economia mundial.
“Você faz um
IPO que você pede dois trilhões de valor da sua empresa para levantar setenta,
cem bilhões no mercado. Você está sugando toda a liquidez do mercado”, disse.
Nicolelis
defendeu que o futuro não está determinado e que a sociedade ainda pode
influenciar os rumos das transformações tecnológicas. Para ele, a principal
tarefa dos governos democráticos é reconstruir os canais de diálogo com a
população e impedir que decisões estratégicas para a humanidade fiquem
concentradas nas mãos de um pequeno grupo de atores econômicos.