6.9.26

A vida real do trabalhador

 Agenda eleitoral deve ser a vida real do trabalhador – e não o STF ou o moralismo de ocasião

Em meio à disputa eleitoral, avanços sobre jornada de trabalho, salário mínimo, Previdência, indústria e soberania correm o risco de ser ofuscados por crises institucionais e escândalos

Conteúdo postado por:Redação Brasil 247Redação Brasil 247Publicado em 6 de setembro de 2026 às 05:10Apoie o 247

Presidente Lula com trabalhadores

Presidente Lula com trabalhadoresCrédito: Ricardo Stuckert / PR

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O Brasil se aproxima de um momento eleitoral decisivo. Por isso, é importante perguntar: sobre o que o país deve debater? Sobre a vida concreta da maioria — salários, empregos, jornadas, aposentadorias, serviços públicos e desenvolvimento — ou sobre a inserção, de afogadilho, neste momento, de mais uma sucessão de escândalos e disputas institucionais transformadas em espetáculo?

A resposta deveria ser evidente. Há um movimento claro para sequestrar as prioridades dos temas a serem destacados e debatidos no período eleitoral, obscurecendo os avanços do governo Lula, especialmente na área social. As acusações envolvendo integrantes do Supremo Tribunal Federal, da Procuradoria-Geral da República e senadores ameaçam ocupar o centro da agenda justo quando questões ligadas à vida de milhões exigem atenção.

Não se trata de defender silêncio diante de denúncias. Instituições democráticas devem investigar e responsabilizar quem cometer irregularidades, dentro do devido, cauteloso, rigoroso, processo legal, respeitando prazos e manipulações.

Crises institucionais inseridas com intenções evidentes não podem paralisar o debate sobre o país real para ocultar resultados concretos do terceiro mandato de Lula. Não é esse o objetivo da eleição?

Entre os temas centrais está a discussão sobre a jornada 6×1. O fim desse regime, que já avança no Senado, poderá reduzir em até 20% a frequência semanal de trabalho, de seis para cinco dias, garantindo pelo menos dois dias de descanso por semana. Capitaneada por Lula, será a maior modificação nas relações trabalhistas em décadas. Para milhões, isso significa mais tempo para a família, o lazer, a saúde e a qualificação profissional. As principais beneficiadas serão as mulheres, que frequentemente acumulam o emprego com a maior parte das tarefas domésticas e dos cuidados familiares.

Em condições normais, o fim da jornada 6×1 deveria ocupar lugar central no debate eleitoral e ser reconhecida como parte da agenda social defendida pelo presidente Lula.

O mesmo vale para a política salarial. A projeção anunciada pelo governo para 2027 indica salário mínimo de aproximadamente R$ 1.717, caso se confirme a fórmula de correção pela inflação e pelo crescimento real do PIB. Isso representaria aumento nominal de cerca de 7,4% sobre o valor de 2026 e ganho real estimado em torno de 2,5% acima da inflação.

A valorização real do salário mínimo beneficia trabalhadores, aposentados, pensionistas e famílias que dependem dele para viver. Não há desenvolvimento sólido sem mercado interno, nem mercado forte com trabalhadores empobrecidos.

Também merece destaque o esforço para zerar a fila de pedidos do INSS. Segundo dados oficiais, o estoque de requerimentos pendentes caiu de cerca de 1,8 milhão, em meados de 2023, para aproximadamente 1,3 milhão ao longo de 2024, uma redução próxima de 500 mil pedidos, ou cerca de 28%. O tempo médio de espera também recuou.

Reduzir a fila significa devolver dignidade a milhões e tornar mensurável uma política pública essencial. É uma conquista do governo Lula que não deveria ser apagada por acusações e crises fabricadas.

Em meio à eleição, o Senado aprovou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, com até R$ 7 bilhões em incentivos para processar e transformar no Brasil os minerais essenciais a baterias, semicondutores, energia limpa e equipamentos de defesa.

O país tem uma das maiores reservas de terras-raras do mundo. Até agora, exportava a matéria-prima bruta e importava de volta a tecnologia final, com todo o valor agregado ficando fora das fronteiras nacionais.

O novo marco muda essa lógica. Trata-se de política industrial com peso estratégico direto sobre a soberania nacional, aprovada com apoio até de parte da oposição — prova de que, quando o tema é desenvolvimento real, o Congresso consegue convergir.

Jornada de trabalho, salário, Previdência, serviços públicos, emprego, indústria e soberania. Estes, como a saúde, a educação, a segurança pública, são temas eleitorais substantivos.

Mas há uma movimentação evidente para deslocar essas prioridades. Em lugar da jornada, o escândalo. Em lugar do salário, a suspeita.

O roteiro é conhecido. Este país já viveu, na Lava Jato, o espetáculo de um mar de lama em que as ilegalidades cometidas pela própria operação — vazamentos seletivos, conluio entre juiz e acusação, prisões usadas como instrumento de coação — eram evidentes durante o próprio processo, não apenas reveladas depois. Mesmo assim, o enredo do combate à corrupção funcionou, por anos, como cortina de fumaça diante da distribuição de renda e da recomposição de direitos.

A repetição desse expediente não é coincidência de calendário. Faxina moral, instituições em xeque, tribunais sob suspeita: são clichês eficientes para apequenar o debate público e afastá-lo da única pergunta que deveria organizar a campanha — quem entrega, de fato, melhoria concreta na vida de quem trabalha.

 

31.8.26

10 anos do golpe Dilma

 Fundação Perseu Abramo lança livro nos 10 anos do golpe contra Dilma Rousseff

Obra reúne 16 artigos de pesquisadores e lideranças que analisam as origens, os mecanismos e os impactos da farsa do impeachment no país

Conteúdo postado por:Redação Brasil 247Redação Brasil 247Publicado em 31 de agosto de 2026 às 13:36Apoie o 247

Presidente Dilma Rousseff na tribuna do Senado durante o Golpe de 2016                       Presidente Dilma Rousseff na tribuna do Senado durante o Golpe de 2016Crédito: Marcos Oliveira/Agência Senado

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247 – Para lembrar os dez anos do processo que resultou no golpe contra a ex-presidente Dilma Rousseff, a Fundação Perseu Abramo, centro de formação política e de produção de conhecimento do PT, em parceria com a Editora Hucitec, lançou a coletânea “O golpe de 2016: origens, mecanismos e consequências”.

O livro reúne 16 artigos que analisam, de forma consistente, todo o ciclo político do episódio, compreendendo desde as suas raízes nas jornadas de junho de 2013 até as suas repercussões e resultados na conjuntura atual.

A obra traz textos de um conjunto diversificado de acadêmicos, jornalistas, pesquisadores e ativistas. Entre os colaboradores estão Paulo Vannuchi, ex-ministro de Direitos Humanos e integrante do Comitê das Nações Unidas contra Desaparecimentos Forçados; Dennis de Oliveira, professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e coordenador do Centro de Estudos Latino-Americanos de Cultura e Comunicação (CELACC); Sérgio Amadeu, doutor em Ciência Política pela USP e professor associado da Universidade Federal do ABC (UFABC); e Jessé de Souza, sociólogo, advogado, escritor e professor titular da UFABC.

A organização do volume foi conduzida pela presidente do Conselho Curador da Fundação Perseu Abramo, Eleonora Menicucci — professora titular da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e ex-ministra de Política para as Mulheres —, ao lado dos professores Lincoln Secco, do Departamento de História da USP e coordenador do Grupo de Estudos de História e Economia Política (GMarx-USP), e Ramatis Jacino, do Programas de Pós-Graduação em Economia Política Mundial da UFABC e de História da Unifesp. Os três organizadores também assinam artigos na publicação.

Na contracapa, a deputada federal Gleisi Hoffmann, que atuou como ministra-chefe da Casa Civil no governo Dilma Rousseff e acompanhou o processo no Senado Federal, destaca a dimensão política e de gênero da investida. “Este livro é fruto do compromisso com a verdade e com a memória. Ao reunir diferentes olhares, ajuda a compreender como se construiu a ponte para o futuro, o golpe que afastou Dilma sem base legal consistente. Como senadora da República, acompanhei cada passo daquele processo perverso e truculento. Vi ataques políticos e institucionais e também uma carga misógina evidente na forma de tratar a presidenta e de tentar deslegitimá-la. Não era um combate apenas a uma governante, mas a um projeto que ampliou direitos e o próprio sentido da democracia de 1988 para cá”, avalia a parlamentar.

O prefácio da obra é assinado pelo diretor do Instituto Lula, Paulo Okamotto, que reforça o papel da publicação na disputa pela memória histórica. Okamotto aponta que o afastamento ocorreu sem sustentação jurídica e que a narrativa distorcida prevaleceu sobre a realidade factual: “Há acontecimentos que as classes dominantes insistem em nomear de forma enganosa. O que ocorreu no Brasil em 2016 foi chamado de impeachment, de rito constitucional, de resposta às ruas. Mas quem viveu aqueles dias de perto – quem esteve nos corredores do Palácio do Planalto, quem ouviu o choro contido de trabalhadores e trabalhadoras que, pela primeira vez na vida, haviam se sentido representados por um governo – sabe, no fundo da alma, que aquilo foi um golpe. Este livro existe para que essa verdade não seja engolida pelo tempo”.

Em sua reflexão no prefácio, Okamotto acrescenta ainda: “Dilma Rousseff não cometeu crime de responsabilidade. E isso não era um detalhe técnico: era o centro da questão. Mas, quando a mentira circula mais rápido que a verdade, quando os algoritmos amplificam o ódio e silenciam a razão, os fatos passam a importar menos do que a narrativa. O espetáculo se impõe ao direito. A encenação prevalece sobre a prova”.

Com um total de 432 páginas, o livro reproduz também o discurso proferido por Dilma Rousseff em 31 de agosto de 2016, no plenário do Senado Federal, durante a sessão que consumou a aprovação do impeachment.

A obra “O golpe de 2016: origens, mecanismos e consequências” está disponível para download gratuito no site da Fundação Perseu Abramo, e a versão impressa pode ser adquirida através da loja virtual da Editora Hucitec.

 

26.8.26

Lula apoio de evangélicos

 Lula recebe apoio de grupo evangélico: ‘está alinhado aos valores cristãos’

Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito diz que reeleição de Lula está alinhada a valores cristãos e aponta riscos autoritários em candidatura do PL

Conteúdo postado por:Otávio RossoOtávio RossoPublicado em 26 de agosto de 2026 às 10:50Apoie o 247

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva

Presidente Luiz Inácio Lula da SilvaCrédito: Ricardo Stuckert

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247 – Um grupo de evangélicos progressistas divulgou uma carta aberta em apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em meio à ofensiva do petista para ampliar sua presença junto ao eleitorado religioso e reduzir a vantagem do senador Flávio Bolsonaro (PL) nesse segmento. A informação foi publicada pela CNN Brasil

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O documento é assinado pela Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, movimento formado por pastores e teólogos de diferentes regiões do país. Na carta, o grupo afirma que a continuidade de Lula no governo está em sintonia com valores cristãos e faz críticas diretas à candidatura de Flávio, associada pela entidade a um projeto de “autoritarismo” e de defesa de “benefícios dos mais ricos”.

“Não podemos normalizar forças políticas que atacam as instituições, questionam o resultado das urnas, estimulam a violência e ameaçam os direitos fundamentais. A Bíblia nos ensina que ‘Deus não é Deus de desordem, mas de paz’”, afirma o texto.

A manifestação ocorre em um momento em que a campanha de Lula busca enfrentar um dos principais desafios eleitorais do presidente: a resistência de parte expressiva do público evangélico. Segundo pesquisas citadas pela CNN, Flávio Bolsonaro mantém ampla vantagem sobre Lula entre eleitores religiosos, o que levou o PT a intensificar a aproximação com lideranças do segmento.

Na carta, a Frente também defende a atuação de Lula na preservação da democracia e da soberania nacional, especialmente diante do tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao Brasil. Para o grupo, a conjuntura recente reforçou o papel do presidente na contenção de ameaças à ordem institucional.

“A experiência recente demonstrou a importância da liderança do presidente na articulação da consciência democrática e na resistência às forças que ameaçaram romper definitivamente a ordem constitucional. E isso não apenas no âmbito nacional mas também na esfera global”, diz outro trecho do documento.

Apesar do apoio formal à reeleição, a entidade afirma que a posição política não elimina sua independência. O movimento ressalta que o apoio “não retira da Frente sua autonomia” nem sua “capacidade de diálogo”.

A aproximação de Lula com evangélicos também tem contado com a participação da primeira-dama Rosângela Silva, a Janja. Como parte da estratégia de campanha, ela lançou um comitê voltado ao público evangélico e um jingle de inspiração gospel para reforçar a comunicação com esse eleitorado.

Além disso, Lula pretende realizar um encontro com pastores evangélicos e se reunir com o deputado federal Otoni de Paula (PSD-RJ), que já declarou apoio ao presidente em uma eventual disputa de segundo turno contra Flávio Bolsonaro.

A iniciativa busca ampliar pontes com lideranças religiosas e disputar um campo em que a direita bolsonarista consolidou presença nos últimos anos. Ao obter o apoio de pastores e teólogos progressistas, a campanha petista tenta mostrar que a agenda democrática e social do governo também encontra respaldo em setores evangélicos organizados.

 

24.8.26

Bispos divulgam carta

 Bispos divulgam carta pela soberania e defendem escolha consciente nas eleições

Grupo de religiosos critica conservadorismo autoritário e pede atenção a causas sociais e ambientais

Conteúdo postado por:Guilherme LevoratoGuilherme LevoratoPublicado em 23 de agosto de 2026 às 08:38Apoie o 247

Exemplar da Bíblia SagradaCrédito: Brasil 247/DALL-E

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247 – Um grupo de bispos católicos brasileiros divulgou uma carta pública na qual critica o chamado “conservadorismo autoritário” presente em setores da Igreja e faz um apelo aos eleitores por uma escolha consciente e lúcida no pleito eleitoral, informa a CartaCapital. No documento, os religiosos reforçam que a instituição não possui filiação partidária, mas ressaltam o dever de se posicionar de forma firme na defesa dos segmentos mais pobres, da democracia, da soberania nacional e da preservação ambiental.

Intitulada Não deixemos cair a profecia, a declaração é assinada pelos integrantes do coletivo “Bispos do Diálogo pelo Reino”. O grupo reúne bispos de diversas regiões do país e já havia publicado um posicionamento conjunto durante o processo eleitoral de 2022.

Na nova manifestação, os religiosos alertam que o período de disputas eleitorais costuma acirrar tensões dentro do ambiente religioso. Diante desse cenário, os bispos renovam o compromisso com a vida, a democracia, a soberania e a defesa do meio ambiente. O texto pondera que, embora não haja vínculo com agremiações políticas, a posição da Igreja deve estar ao lado dos trabalhadores e das populações vulneráveis, apoiando aqueles que respeitam o povo e defendem o país.

O documento manifesta oposição a posturas fascistas, à manipulação da fé para fins políticos e à propagação de mentiras e discursos de ódio em plataformas digitais. Os prelados convidam a população a votar em candidaturas comprometidas com as pautas populares, o bem comum e a sustentabilidade ambiental, sem citar nomes de candidatos ou siglas partidárias especificamente.

Críticas ao clero e às mídias religiosas

O texto traz duras críticas a setores do catolicismo que usam as redes sociais e veículos de comunicação de inspiração religiosa para promover ataques contra lideranças empenhadas na defesa dos direitos humanos e do meio ambiente. De acordo com a carta, uma parcela do clero, acompanhada por religiosos e leigos, tem disseminado discursos superficiais e agressivos, além de promover devocionismos que rejeitam as diretrizes oficiais do magistério da Igreja Católica.

Para os bispos, essa conduta gera bolhas alienantes que alimentam um clima de hostilidade contra a atuação social e comunitária dos católicos. O documento denuncia os episódios de violência verbal e perseguição sofridos por padres, bispos, diáconos e leigos, classificando tais atitudes como tentativas diretas de intimidar e silenciar a atuação profética da Igreja.

Em outro ponto, a carta faz referência à encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, que adverte sobre os perigos de desumanização associados ao avanço rápido da inteligência artificial, da robótica e da transformação digital. O texto papal convoca a comunidade cristã a rejeitar a chamada “síndrome de Babel”, caracterizada pela busca desenfreada do lucro e pela imposição de uma uniformidade que anula as diferenças culturais e individuais.

Pauta social, meio ambiente e soberania

A manifestação correlaciona a evangelização à transformação social e política, citando as diretrizes gerais aprovadas pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para o período de 2026 a 2032. O documento aponta que a pregação religiosa deve resultar em ações concretas voltadas à superação da desigualdade social e à proteção de grupos em situação de vulnerabilidade.

Entre os problemas socioambientais destacados estão os impactos negativos do extrativismo mineral predatório e do agronegócio desprovido de critérios socioambientais. A carta também enfatiza a necessidade de combater a violência contra mulheres, populações negras, povos originários e a comunidade LGBTQIAPN+, além de abordar as relações de trabalho na sociedade contemporânea.

Por fim, o documento ressalta a relevância da soberania nacional no contexto de tensões diplomáticas recentes do Brasil com os Estados Unidos. O grupo de bispos conclui que a construção do projeto de país exige o combate contínuo às injustiças sociais e a recusa em aceitar a permanência do fosso da desigualdade.

 

18.8.26

Em livro, ex-comandante da FAB

 Em livro, ex-comandante da FAB detalha bastidores da resistência ao golpe e diz que Forças Armadas “perderam confiabilidade” sob Bolsonaro

Ex-comandante da Aeronáutica, Carlos de Almeida Baptista Junior relata pressões para ruptura institucional, detalha rompimento com Braga Netto e reflete sobre os impactos do bolsonarismo nas instituições militares

Conteúdo postado por:Guilherme LevoratoGuilherme LevoratoPublicado em 18 de agosto de 2026 às 06:25Apoie o 247

                   Tenente-brigadeiro do ar Carlos de Almeida Baptista Junior                      Tenente-brigadeiro do ar Carlos de Almeida Baptista JuniorCrédito: ABR

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247 – Em entrevista na qual detalha os bastidores de sua atuação contra as pressões pela decretação de um golpe de Estado após o pleito presidencial de 2022, o ex-comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, afirmou que as Forças Armadas sofreram expressiva perda de confiabilidade perante a sociedade brasileira durante a gestão de Jair Bolsonaro (PL), informa Bela Megale, do jornal O Globo.

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Testemunha central nos processos no Supremo Tribunal Federal (STF) que apuraram a tentativa de ruptura institucional e que resultaram na condenação de ex-integrantes do primeiro escalão do governo anterior, Baptista Junior está lançando o livro “Eu disse NÃO: uma trincheira antigolpista”, publicado pela Autêntica Editora. Na obra, o militar aborda os momentos de maior tensão vividos no final de 2022, a resistência às investidas ilícitas e o custo pessoal e institucional de sua postura legalista.

A perda de confiabilidade e o papel das Forças Armadas

Ao avaliar os impactos da gestão de Jair Bolsonaro sobre os quadros militares, o ex-comandante enfatizou que o envolvimento político desgastou a imagem das instituições perante a opinião pública.

“As Forças perderam confiabilidade, talvez seja essa palavra. Porque sempre houve uma parte da sociedade, até pelo nosso processo histórico, que não tinha um bom alinhamento, uma boa percepção das Forças Armadas, e agora esse leque ampliou”.

Apesar do cenário adverso, o tenente-brigadeiro manifestou confiança na recuperação da credibilidade das Forças, desde que mantida uma postura estritamente voltada ao Estado. “Confio que as Forças Armadas vão recuperar essa confiabilidade mantendo sua postura de Estado, de que não estão aqui para defender A ou B”, acrescentou.

Cientista da própria responsabilidade e da participação excessiva de fardados na administração pública anterior, Baptista Junior pontuou que “foram militares demais no primeiro escalão”, ainda que considere positiva a atuação em setores específicos de estatais e órgãos previdenciários.

Momentos de tensão e o relatório das urnas

O ex-comandante da FAB classificou as semanas de novembro de 2022 como o período de maior gravidade no contexto das tentativas de subversão da ordem democrática. Segundo ele, a crise se acentuou especialmente nos dias 14, 22 e 24 de novembro, datas em que Bolsonaro alimentou a expectativa de contestar o resultado das urnas com base em auditorias promovidas pelo Instituto Voto Legal.

Baptista Junior ressaltou que a insistência em questionar o sistema eleitoral gerou um ambiente de extrema incerteza. Para evitar especulações sobre rupturas, o militar chegou a propor a antecipação da transmissão do comando das Forças Armadas antes da posse do presidente Lula (PT).

A iniciativa, contudo, acabou gerando interpretações equivocadas de que se tratava de uma recusa em prestar continência ao novo mandatário. Após diálogo com o indicado para o Ministério da Defesa, José Múcio Monteiro, a data da passagem de comando foi ajustada para transcorrer na normalidade do calendário institucional.

“A continência é um ato de saudação à autoridade, não à pessoa. Todos os militares devem continência ao presidente da República, seja quem for”.

Rompimento pessoal e ataques promovidos por aliados

Entre os desdobramentos de sua recusa em apoiar iniciativas ilícitas, o militar relatou o rompimento definitivo com antigos interlocutores, com destaque para o general Walter Braga Netto, ex-ministro da Defesa e candidato a vice-presidente na chapa de Bolsonaro em 2022.

O ponto de ruptura ocorreu quando tomou conhecimento de orientações para que subordinados e militantes atacassem a honra de comandantes legalistas e de suas respectivas famílias.

“Colocar a família nisso passou do limite, e tenho certeza de que Braga Neto se arrependeu […] Ainda me machuca muito ele ter mandado ferrar com a família. Isso é um ponto de ruptura. Em alguns aspectos, acho que ou é zero, ou é um. Eu não sei se, depois que virar zero, tem como voltar a ser um”.

A despeito do desgaste pessoal, do distanciamento de antigos amigos e das pressões cotidianas sofridas durante o processo, o ex-comandante ressaltou que cumpriu rigorosamente com o dever constitucional: “O que eu fiz foi cumprir a lei, e não quero ser herói por causa disso. Ninguém deveria ser herói por cumprir a lei ao não apoiar o golpe”.

Diálogo pós-8 de janeiro e lições para o futuro

Baptista Junior também revelou ter mantido um último contato telefônico com Jair Bolsonaro cerca de dez dias após os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. O contato ocorreu após assistir a uma entrevista na qual dirigentes partidários tentavam atribuir aos militares a responsabilidade pelos erros cometidos no período.

Na ocasião, o ex-comandante cobrou uma posição clara do ex-presidente para desmobilizar os manifestantes e conter a crise jurídica e imagem que recaía sobre as Forças Armadas. Bolsonaro, no entanto, afirmou que não seria capaz de alterar a disposição daqueles grupos.

Questionado sobre a possibilidade de o país enfrentar novos episódios de tentativa de ruptura institucional no futuro, o tenente-brigadeiro concluiu que a recorrência desse tipo de cenário torna-se cada vez mais remota, embora recomende vigilância constante da sociedade em relação às construções do discurso populista.

 

Morre Laura Cardoso

 Morre Laura Cardoso, ícone da dramaturgia brasileira, aos 98 anos

Artista construiu uma carreira de 82 anos no rádio, no teatro, no cinema e na televisão

Conteúdo postado por:José ReinaldoJosé ReinaldoPublicado em 18 de agosto de 2026 às 03:51Apoie o 247

Laura Cardoso

Laura CardosoCrédito: Redes sociais/divulgação

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247 – Uma das trajetórias mais extensas e reconhecidas da dramaturgia brasileira chegou ao fim nesta terça-feira (18): Laura Cardoso morreu aos 98 anos, depois de dedicar 82 anos ao rádio, ao teatro, à televisão e ao cinema. A causa da morte não foi divulgada. As informações são da Folha de S.Paulo.

O anúncio foi feito pelo bisneto da atriz, Fernando Faria, no perfil oficial de Laura no Instagram, durante a madrugada desta terça-feira (18). “Nossa grande estrela se despediu de nós”, informou a publicação. “Laura Cardoso estará para sempre em nossos corações. Obrigada por tudo, nossa amada e eterna Laura Cardoso.”

A atriz deixa uma obra que atravessou diferentes períodos da comunicação e das artes cênicas no Brasil. Sua carreira começou quando o rádio ainda ocupava o centro da vida cultural do país, passou pelos primeiros anos da televisão e alcançou as grandes produções das novelas, do teatro e do cinema nacional.

Da infância no Bexiga ao início no rádio

Registrada como Laurinda de Jesus Cardoso, Laura era filha de antigos camponeses portugueses oriundos da região de Trás-os-Montes. Na infância, viveu em um cortiço no Bexiga, bairro popular da região central de São Paulo.

O interesse pela interpretação surgiu inicialmente por meio da leitura. Laura gostava de ler para os pais e, mais tarde, passou a ser chamada para recitar textos diante das colegas no colégio de freiras onde estudava. Essas experiências contribuíram para despertar sua ligação com as artes cênicas.

Aos 16 anos, iniciou a vida profissional na Rádio Cosmos. Participou de programas de auditório, atrações humorísticas e radionovelas, formatos que ocupavam espaço de destaque na programação da época.

Em 1946, já na Rádio Tupi, conheceu o ator, diretor e roteirista Fernando Balleroni, que viveu entre 1922 e 1980 e se tornaria seu marido. Os dois seguiram posteriormente para a Rádio Bandeirantes.

Nesse período, Laura também integrava um grupo de radioteatro que apresentava pequenos esquetes em circos localizados na periferia. Algumas dessas atuações eram realizadas sem pagamento.

O reconhecimento no rádio cresceu em 1948, quando interpretou a menina Laurinha no programa “Ciranda, Cirandinha”, da Rádio Cultura. Ao retornar à Tupi, trabalhou em radionovelas dirigidas por Otávio Gabus Mendes.

Pioneirismo na televisão brasileira

A estreia de Laura Cardoso na televisão ocorreu em 1952, no programa “Tribunal do Coração”, da TV Tupi. Por aproximadamente 15 anos, ela fez parte do elenco permanente das produções de teleteatro exibidas ao vivo pela emissora.

A atriz participou de atrações como “TV de Vanguarda”, “TV de Comédia” e “Grande Teatro Tupi”. Os programas levavam adaptações de obras clássicas da literatura para a televisão, em uma época marcada pela transmissão ao vivo e pela ausência dos recursos de gravação adotados posteriormente.

Ao longo dessa fase, Laura trabalhou sob a direção de profissionais como Cassiano Gabus Mendes, Vida Alves, Wanda Kosmo e Walter George Durst. Entre 1966 e 1967, cumpriu uma temporada no Rio de Janeiro, com atuações nas emissoras TV Rio e Excelsior.

De volta a São Paulo, passou novamente pelas TVs Bandeirantes e Tupi. Também integrou uma sequência de novelas da Record, entre elas “As Pupilas do Senhor Reitor”.

Nos últimos anos de funcionamento da TV Tupi, atuou em produções como “Os Inocentes” e “Ídolo de Pano”. A experiência acumulada no rádio e nas apresentações ao vivo ajudou a consolidá-la como uma das intérpretes mais experientes da televisão brasileira.

Mais de 20 novelas na TV Globo

Laura Cardoso estreou na TV Globo em 1981, na novela “Brilhante”, escrita por Gilberto Braga. Ao longo das décadas seguintes, participou de mais de 20 telenovelas da emissora.

Entre seus trabalhos estão as novas versões de “Mulheres de Areia”, “A Viagem” e “Irmãos Coragem”, exibidas entre 1993 e 1995. A atriz também integrou o elenco de “Explode Coração”, primeira novela gravada no complexo cenográfico conhecido como Projac.

Em 2009, participou de “Caminho das Índias”. Antes disso, em 2005, retomou simbolicamente a relação com o rádio ao narrar a minissérie “Hoje É Dia de Maria”, dirigida por Luiz Fernando Carvalho.

Sua última novela foi “A Dona do Pedaço”, exibida em 2019. Em 2024, Laura esteve entre os nomes homenageados pelo programa “Tributo”, da Globo.

Uma carreira marcada pelo respeito ao texto

Ao longo de mais de oito décadas de atividade artística, Laura Cardoso defendia a fidelidade à obra criada pelos autores. “Primordial é respeitar o que o autor quer, não se pode desrespeitar o texto que foi escrito”, afirmava.

A atriz também explicava que, depois de compreender a personalidade e o caminho de um papel, o intérprete precisava sustentar aquela construção “para levar a pancada ou o beijo”.

Ao refletir sobre a dimensão menos previsível da atuação, acrescentava: “Sem a bênção dos deuses do teatro é melhor cair fora, porque não dá em nada.”

Essa relação rigorosa com os textos esteve presente em trabalhos realizados para diferentes meios, desde as radionovelas e os teleteatros ao vivo até as produções cinematográficas e televisivas de maior escala.

Reconhecimento no teatro e no cinema

A estreia de Laura Cardoso no teatro adulto ocorreu em 1959, com “Plantão 21”, de Sidney Kingsley, sob a direção de Antunes Filho. Décadas depois, voltou a trabalhar com o diretor em “Vereda da Salvação”, na montagem de 1993.

A atuação em “Vem Buscar-me que Ainda Sou Teu”, encenada em 1991 e dirigida por Gabriel Vilella, rendeu à atriz diferentes premiações. Até 2016, ela permaneceu nos palcos com a peça “A Última Sessão”, de Odilon Wagner, na qual interpretava uma psicanalista.

No cinema, viveu um papel de destaque em “Terra Estrangeira”, filme de Walter Salles e Daniela Thomas lançado em 1996. Em 2000, recebeu um prêmio no Festival de Recife por sua atuação como protagonista de “Através da Janela”, dirigido por Tata Amaral.

Laura também venceu a categoria de melhor atriz coadjuvante do Grande Prêmio Cinema Brasil pelo trabalho em “O Outro Lado da Rua”, produção de 2004 dirigida por Marcos Bernstein.

Seu último lançamento cinematográfico ocorreu em 2025, com o curta-metragem “Dona Rosinha”, de Kk Araújo. No filme, interpretou uma mulher idosa abandonada pela filha em um ponto de ônibus, encerrando sua passagem pelas telas com mais um papel centrado na complexidade da experiência humana.

 

17.8.26

Carlos Drummond de Andrade

Há 39 anos, o Brasil perdia Carlos Drummond de Andrade, poeta que decifrou o país e a condição humana

Autor de Alguma poesia, Sentimento do mundo e A rosa do povo morreu em 17 de agosto de 1987 e deixou uma obra marcada pela reflexão sobre o Brasil, a política, o cotidiano, o amor e as contradições do homem moderno

Conteúdo postado por:Redação Brasil 247Redação Brasil 247Publicado em 17 de agosto de 2026 às 05:24Apoie o 247

Carlos Drummond de Andrade 

Carlos Drummond de Andrade Crédito: Brasil 247 / Dall-E

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247 – Há 39 anos, em 17 de agosto de 1987, morria no Rio de Janeiro Carlos Drummond de Andrade, um dos maiores escritores da língua portuguesa e figura central da poesia brasileira do século XX. Mineiro de Itabira, cronista do cotidiano, observador das transformações políticas de seu tempo e poeta das inquietações humanas, Drummond construiu uma obra que atravessou o modernismo e se incorporou definitivamente à cultura brasileira.

Drummond tinha 84 anos e morreu apenas 12 dias depois de sua filha, Maria Julieta Drummond de Andrade, vítima de câncer. A proximidade das duas mortes marcou dramaticamente os últimos dias do escritor, cuja relação com a família, a memória e a perda atravessou diferentes momentos de sua produção literária.

Nascido em 31 de outubro de 1902, em Itabira, Minas Gerais, Drummond transformou uma cidade do interior, suas montanhas, famílias, ruas e lembranças em matéria universal. Ao mesmo tempo, fez de sua poesia um espaço para observar um Brasil que se urbanizava, se industrializava e atravessava autoritarismos, guerras, conflitos sociais e profundas mudanças culturais.

Sua literatura conseguiu realizar um movimento raro: partir das pequenas coisas para alcançar algumas das maiores questões da existência.

De Itabira para a literatura brasileira

Carlos Drummond de Andrade nasceu em uma família de proprietários rurais em uma Minas Gerais ainda profundamente marcada pelas estruturas sociais do século XIX.

Itabira permaneceria presente em sua obra mesmo depois que o escritor deixou a cidade.

A paisagem mineral, as montanhas e a memória da família tornaram-se símbolos de um mundo em transformação. A mineração, que modificaria radicalmente a região, também apareceria em sua reflexão sobre a relação entre memória, território e desenvolvimento econômico.

Drummond estudou em Belo Horizonte e posteriormente em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. Formou-se em Farmácia, embora jamais tenha exercido a profissão de maneira regular.

Seu destino seria a literatura.

Na década de 1920, aproximou-se do movimento modernista e estabeleceu contato com nomes fundamentais da renovação cultural brasileira, entre eles Mário de Andrade.

O modernismo buscava romper com convenções acadêmicas e construir uma expressão artística capaz de dialogar diretamente com a experiência brasileira. Drummond absorveu esse impulso, mas desenvolveu uma voz inteiramente própria.

Uma pedra mudou a poesia brasileira

Em 1928, a publicação de “No meio do caminho” na Revista de Antropofagia provocou uma das maiores controvérsias da história da poesia brasileira.

A repetição, a linguagem aparentemente simples e a presença insistente da pedra contrariavam expectativas tradicionais sobre o que deveria ser um poema.

O texto seria atacado, parodiado e discutido durante anos.

Mas justamente aquilo que parecia estranho aos críticos tornou-se uma demonstração da força da nova linguagem modernista.

A pedra entrou para o imaginário cultural brasileiro.

Dois anos depois, em 1930, Drummond publicou seu primeiro livro, Alguma poesia. Ali já apareciam elementos que atravessariam sua obra: ironia, deslocamento, observação cotidiana, memória familiar e uma sensação de inadequação diante do mundo.

O poeta assumia a figura do “gauche”, aquele que parece estar ligeiramente fora do lugar.

Essa condição se tornaria uma das chaves para compreender sua literatura.

Drummond observava o mundo de dentro e de fora simultaneamente. Participava da sociedade, mas conservava a distância necessária para enxergar suas contradições.

O poeta diante de um mundo em crise

A obra de Drummond mudou à medida que o próprio mundo se transformava.

Nas décadas de 1930 e 1940, o Brasil vivia as tensões do governo Getúlio Vargas, a industrialização acelerava a mudança das cidades e o planeta caminhava para a Segunda Guerra Mundial.

A poesia drummondiana tornou-se mais diretamente social e política.

Em Sentimento do mundo, publicado em 1940, a experiência individual se encontra com uma percepção crescente das injustiças e dos conflitos coletivos.

O poeta que antes parecia concentrado em suas próprias inquietações passa a olhar de maneira cada vez mais intensa para a história.

Esse movimento alcançaria um de seus momentos mais importantes em A rosa do povo, de 1945.

Publicado no fim da Segunda Guerra Mundial e da ditadura do Estado Novo, o livro é considerado uma das grandes realizações da poesia social brasileira.

Drummond escreve sobre guerra, medo, desigualdade, trabalho, política e esperança sem transformar a poesia em simples palavra de ordem.

A força de sua literatura está justamente na tensão.

Existe desejo de transformação, mas também dúvida. Existe solidariedade, mas não ingenuidade. Existe esperança, mas ela convive permanentemente com a consciência das dificuldades humanas.

Drummond e a experiência do Brasil

Poucos escritores conseguiram observar o Brasil com uma combinação tão particular de intimidade e distanciamento.

Drummond escreveu sobre Minas Gerais, mas sua Minas nunca foi apenas geográfica.

Era também memória, família, poder, tradição e perda.

Escreveu sobre o Rio de Janeiro, onde viveu grande parte da vida, transformando ruas, praias, repartições públicas e personagens anônimos em matéria literária.

Escreveu sobre trabalhadores, funcionários, políticos, guerras, cidades e transformações econômicas.

Também acompanhou um país que deixava progressivamente de ser predominantemente rural e se tornava urbano e industrial.

Sua experiência pessoal atravessava essa transformação.

Drummond trabalhou durante décadas como funcionário público e conhecia por dentro a burocracia estatal. Entre 1934 e 1945, atuou como chefe de gabinete de Gustavo Capanema no Ministério da Educação e Saúde.

Ao mesmo tempo, mantinha sua atividade literária e jornalística.

Essa convivência entre o homem comum da repartição e o poeta extraordinário também alimentou sua percepção do cotidiano.

A poesia das pequenas coisas

Uma das características mais duradouras de Drummond é sua capacidade de encontrar profundidade nas situações aparentemente banais.

Uma rua, uma fotografia, uma família, uma pedra, uma lembrança da infância ou um encontro casual podiam abrir caminho para reflexões sobre tempo, morte, amor e solidão.

Essa característica explica em parte por que sua poesia permaneceu tão acessível a diferentes gerações.

Drummond podia ser sofisticado sem perder a clareza.

Podia ser filosófico sem abandonar o cotidiano.

E podia ser profundamente brasileiro sem depender de uma visão folclórica do país.

Sua linguagem aproximou a poesia da conversa e incorporou humor, ironia e coloquialidade sem abrir mão do rigor literário.

O resultado foi uma obra capaz de circular simultaneamente entre estudiosos, escolas e leitores que simplesmente encontraram em seus versos uma forma de reconhecer experiências pessoais.

Amor, memória e passagem do tempo

A dimensão política de Drummond é apenas uma parte de sua obra.

O amor ocupa espaço igualmente fundamental.

Ao longo de décadas, o escritor explorou desejo, paixão, envelhecimento, casamento, perda e impossibilidade amorosa.

A memória também se tornou progressivamente mais importante.

Quanto mais envelhecia, mais Drummond retornava à infância, à família e à Itabira desaparecida.

Esse retorno não era simples nostalgia.

A memória, em sua literatura, frequentemente revelava o caráter irreversível do tempo. O passado podia ser recuperado pela palavra, mas jamais reconstruído integralmente.

Essa tensão entre presença e ausência atravessa alguns de seus trabalhos mais marcantes.

O poeta parecia compreender que escrever era também uma maneira de lutar contra o desaparecimento.

O cronista que conversava com milhões de brasileiros

Drummond não viveu apenas nos livros de poesia.

Durante décadas, foi também um dos grandes cronistas da imprensa brasileira.

Escrevendo para jornais, desenvolveu uma relação cotidiana com leitores de diferentes partes do país.

Suas crônicas abordavam acontecimentos aparentemente pequenos, comportamentos urbanos, política, futebol, relações familiares e episódios da vida comum.

Era uma extensão natural de sua poesia.

O olhar permanecia atento àquilo que normalmente passava despercebido.

A crônica permitiu ainda que Drummond participasse diretamente da vida pública brasileira sem abandonar sua identidade literária.

Essa presença constante nos jornais ajudou a transformá-lo em algo maior do que um escritor celebrado pelos círculos intelectuais.

Drummond tornou-se uma figura reconhecida nacionalmente.

A mineração e a memória de Itabira

A relação de Drummond com sua cidade natal ganhou, com o passar do tempo, uma dimensão que permanece particularmente contemporânea.

Itabira foi profundamente transformada pela mineração de ferro.

As montanhas que compunham a paisagem da infância do poeta passaram a ser exploradas em escala industrial, modificando o território e a própria identidade local.

Drummond registrou essa transformação literariamente.

A tensão entre riqueza mineral e perda da paisagem antecipou discussões que se tornariam cada vez mais importantes no Brasil: quem controla os recursos naturais, quais benefícios permanecem nas regiões produtoras e qual é o preço ambiental e cultural do desenvolvimento.

Em Drummond, a montanha não é apenas minério.

É memória.

E a destruição de uma paisagem pode representar também o desaparecimento de uma parte da experiência humana ligada àquele lugar.

A perda de Maria Julieta

Os últimos dias de Drummond foram marcados por uma tragédia pessoal.

Sua única filha, Maria Julieta Drummond de Andrade, morreu em 5 de agosto de 1987.

Escritora e tradutora, Maria Julieta mantinha uma relação muito próxima com o pai.

Doze dias depois, em 17 de agosto, Drummond morreu no Rio de Janeiro.

A proximidade entre as duas mortes adquiriu uma dimensão especialmente dolorosa para leitores familiarizados com uma obra em que família, memória, ausência e morte sempre estiveram presentes.

Encerrava-se uma trajetória literária iniciada muitas décadas antes em Minas Gerais e que havia acompanhado quase todo o século XX brasileiro.

Um poeta que continua contemporâneo

Trinta e nove anos depois de sua morte, Drummond permanece presente na cultura brasileira.

Seus poemas continuam nas escolas, universidades, jornais, redes sociais e conversas cotidianas.

Parte dessa permanência deriva da extraordinária capacidade do escritor de falar simultaneamente de seu próprio tempo e de questões que não envelhecem.

O indivíduo diante de uma sociedade que parece incompreensível. O medo diante da violência política. A solidão nas grandes cidades. A dificuldade de amar. O peso das lembranças. A passagem inexorável do tempo. A esperança que resiste mesmo quando a realidade parece negá-la.

Também permanece atual seu olhar sobre o Brasil.

Drummond conheceu um país marcado pela desigualdade, pela concentração de poder e riqueza e pela tensão permanente entre modernização e exclusão social.

Assistiu à expansão industrial, ao crescimento das cidades, ao surgimento de novas formas de comunicação e às grandes disputas ideológicas do século XX.

Não ofereceu respostas simples.

Sua grande contribuição talvez tenha sido justamente recusar a simplificação.

O legado de Drummond

Carlos Drummond de Andrade atravessou diferentes fases da literatura brasileira sem se deixar aprisionar por nenhuma delas.

Foi modernista, poeta social, cronista, memorialista e poeta do amor e da existência.

Transformou Minas Gerais em matéria universal e o cotidiano brasileiro em literatura.

Sua obra mostrou que a poesia podia estar em uma pedra, numa fotografia antiga, numa repartição pública, numa cidade modificada pela mineração ou na perplexidade de um indivíduo diante dos acontecimentos do mundo.

Quando morreu, em 17 de agosto de 1987, o Brasil perdeu um de seus maiores intérpretes.

Trinta e nove anos depois, sua permanência demonstra que grandes escritores não pertencem apenas à época em que viveram.

Drummond continua sendo lido porque as perguntas que formulou permanecem diante de nós: como viver em um mundo atravessado por injustiças, como preservar a humanidade em tempos difíceis, como enfrentar a passagem do tempo e como transformar memória, perplexidade e esperança em alguma forma de compreensão da vida.