FLICA: Onde a literatura encontra a música, a fé e a ancestralidade, em Cachoeira
Entre os
livros, os acordes da música, os cortejos populares e as manifestações
religiosas, a FLICA 2026 transforma a cidade em um grande palco de encontros
culturais, enquanto os festejos de Nossa Senhora d’Ajuda reafirmam a força de
uma tradição que atravessa gerações
06/11/2026
18h51♥Apoie o 247

Crédito: Divulgação
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Cachoeira
tem uma capacidade muito própria de reunir tempos, histórias e sentimentos. Em
suas ruas, a literatura encontra a música, a arte dialoga com a fé e a
ancestralidade permanece viva nas manifestações culturais que atravessam
gerações. É nesse cenário de riqueza histórica e identidade cultural que a
cidade recebe, de 5 a 8 de novembro, a 14ª Festa Literária Internacional de
Cachoeira (FLICA), ao mesmo tempo em que celebra uma de suas mais antigas e
significativas manifestações religiosas e populares: os festejos de Nossa
Senhora d’Ajuda.
Mais do que
uma coincidência de calendários, esse encontro representa uma oportunidade de
compreender Cachoeira em sua essência. Uma cidade onde a cultura não está
apenas nos livros, nos palcos ou nos espaços de exposição, mas também nas ruas,
nos cortejos, nos cânticos, nas cores, nos gestos de fé e nos saberes
transmitidos de geração em geração.
Durante
quatro dias, a FLICA transforma Cachoeira em um grande espaço de circulação de
ideias, manifestações artísticas e experiências culturais. Inspirada pelo tema
“Como ser criativo com tanta IA por aí?”, a edição de 2026 propõe uma reflexão
sobre a criatividade em tempos de inteligência artificial, reunindo escritores,
artistas e personalidades nacionais e internacionais em debates, lançamentos de
livros, sessões de autógrafos, saraus, contações de histórias, apresentações
artísticas e teatrais, exposições e shows.
Mas a FLICA
também ultrapassa as páginas dos livros e faz da cidade um grande palco a céu
aberto. A música toma conta dos espaços culturais e das ruas, aproximando
diferentes gerações e sonoridades, em uma programação que valoriza tanto
artistas consagrados quanto os talentos que nascem e se desenvolvem no
Recôncavo Baiano.
No Palco
Ritmos, nomes como Jau, Sued Nunes, Mãeana e a orquestra afrolatina Skanibais
representam a diversidade musical da programação. Já o Palco Raízes abre espaço
para artistas, grupos e manifestações culturais da região, reafirmando a
importância de reconhecer e valorizar quem constrói cotidianamente a identidade
cultural do território.
Essa
proposta encontra sentido nas palavras do curador artístico Linnoy Nonato, que
destaca a importância de valorizar a criatividade que nasce das raízes
culturais cachoeiranas, em contraponto aos padrões reproduzidos pela
inteligência artificial. A intenção, segundo ele, é estabelecer uma conexão
entre memória, ancestralidade, vanguardismo e poesia, respeitando aqueles que
mantêm vivas expressões como o samba de roda e o samba de terreiro.
A
programação musical começa na quinta-feira (5), às 21h, com a apresentação dos
Skanibais. Na sexta-feira (6), no mesmo horário, o palco recebe Jau. No sábado
(7), a noite será marcada pelo protagonismo feminino, com Sued Nunes, às 20h,
seguida de Mãeana, às 22h. Nas três noites, a abertura fica por conta do
cordelista Jonas Samaúma.
No Palco
Raízes, a diversidade regional também ganha protagonismo. A programação reúne
Projeto Passo a Passo, Fábio Aruga, Simplesmente Luís, Juninho Cachoeira,
Estrelas Vulgares, Magno Mendes, Grupo Ex 13 – Dança de Rua, Samba de Roda
Filhos da Barragem, Paco Duarte e Pagodde do Cleytinho, entre outros
representantes da produção artística e cultural do Recôncavo.
No domingo
(8), a programação se despede com o Bye Bye FLICA, um arrastão cultural que
leva manifestações tradicionais pelas históricas ruas do centro de Cachoeira.
Uma despedida que, simbolicamente, reafirma o espírito de uma festa construída
a partir do encontro entre diferentes expressões culturais.
A fé e a
ancestralidade que caminham pelas ruas
Com mais de
150 anos de história, os festejos de Nossa Senhora d’Ajuda são reconhecidos
como Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia desde 2017. Sua permanência ao
longo do tempo revela a força de uma tradição que resiste, se renova e continua
sendo parte fundamental da identidade do povo cachoeirano.
Nos dias 7 e
8 de novembro, as ruas recebem três manifestações que integram o calendário
cultural da celebração: o Terno das Crianças, o Terno do Silêncio e a
tradicional Lavagem das Baianas.
No sábado
(7), às 15h, o Terno das Crianças sai do Largo da Ajuda. Pequenos foliões,
vestidos com roupas coloridas, levam música, dança e alegria pelas ruas da
cidade. É uma manifestação que simboliza a continuidade de uma tradição na qual
as novas gerações assumem, desde cedo, o papel de guardiãs da memória cultural
de Cachoeira.
À
meia-noite, na passagem do sábado para o domingo, também no Largo da Ajuda,
acontece o Terno do Silêncio, uma das manifestações mais simbólicas dos
festejos. Seu caráter singular faz parte da riqueza de uma celebração que reúne
diferentes formas de expressão da religiosidade e da cultura popular.
No domingo
(8), às 10h, a cidade vive um de seus momentos mais representativos: a Lavagem
das Baianas. O cortejo parte do Largo do Monte, nas proximidades da Igreja de
Nossa Senhora da Conceição, e percorre as ruas históricas de Cachoeira,
reunindo baianas com seus trajes tradicionais, grupos culturais e devotos.
O percurso
passa pela escadaria às margens do Rio Paraguaçu e segue até a Capela de Nossa
Senhora d’Ajuda, onde acontece a tradicional lavagem com água de cheiro. Um
ritual que reúne fé, ancestralidade e celebração das tradições afro-baianas,
reafirmando a importância dessas manifestações na formação cultural do
Recôncavo.
É uma
experiência que vai além da contemplação. Para quem chega a Cachoeira em busca
dos livros, da literatura e dos debates da FLICA, acompanhar esses cortejos
significa conhecer outra dimensão da cidade: aquela que se expressa na memória
de seu povo e na permanência de suas tradições.
Uma
cidade, muitas formas de celebrar a cultura
É importante
destacar que os festejos de Nossa Senhora d’Ajuda são realizados de forma
independente da programação da FLICA. Embora algumas atividades aconteçam nos
mesmos dias, são celebrações com organização e calendários próprios, que se
encontram no espaço comum da cidade e enriquecem a experiência de quem visita
Cachoeira.
A festa
religiosa e popular começa no dia 1º de novembro, com o Bando Anunciador, e
segue até o dia 15. Depois das manifestações que coincidem com a FLICA, a
programação continua com o Terno dos Ciganos (10/11), o Terno das Cozinheiras
(11/11), o Terno do Acarajé e Abará (12/11), o Embalo (13/11) e o Terno da
Alvorada (15/11).
A
programação religiosa acontece entre os dias 11 e 13 de novembro, com o Tríduo
em Louvor a Nossa Senhora d’Ajuda, sempre às 19h. No dia 14, também às 19h,
acontece a procissão e a missa.
Assim,
durante o mês de novembro, Cachoeira reafirma sua vocação para o encontro entre
diferentes expressões culturais. De um lado, a literatura e o pensamento
contemporâneo; de outro, a música, a fé, os ritos e as manifestações populares
que preservam a história e a identidade de seu povo.
Talvez
esteja justamente aí uma das maiores riquezas de Cachoeira: compreender que a
cultura não se constrói apenas olhando para o futuro, mas também reconhecendo,
valorizando e protegendo aquilo que recebemos de nossos antepassados.
Em tempos de
tantas transformações tecnológicas e de novas formas de produzir e compartilhar
conhecimento, a FLICA propõe discutir os caminhos da criatividade. Nas ruas de
Cachoeira, entretanto, as tradições também oferecem uma resposta: a
criatividade de um povo que transforma sua história em celebração, mantém viva
sua ancestralidade e faz da cultura uma expressão permanente de pertencimento.
Entre
livros, acordes, cortejos, fé e tradição, Cachoeira não apenas recebe
visitantes. Compartilha sua história, apresenta sua identidade e reafirma a
força de um patrimônio cultural que pertence ao seu povo e à memória da Bahia.
Porque uma
cidade que preserva suas raízes, valoriza seus artistas e compartilha sua
história não apenas celebra a cultura: mantém viva a própria razão de sua
existência. FLICA 2026.
Autor Fábio Costa Pinto
Jornalista e
Sócio da Associação Brasileira de Imprensa – ABI. Filiado à FENAJ e ao
Sinjorba. 48 artigos publicados



