O filho de africanos fez o time de Trump cair de quatro
Ontem, em
Seattle, os deuses do futebol impuseram o castigo pelos pés de um filho de
imigrantes congoleses
Autor Ricardo Amaral
Jornalista
10 artigos
publicados
Publicado em
7 de julho de 2026 às 05:06
Lukaku comemora o quarto gol contra
os Estados UnidosCrédito: Reuters
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Desde a
invasão da Suíça pelo FBI em 2015, a Fifa é refém dos EUA, que jamais poderiam
sediar um torneio de congraçamento entre os povos
A justiça
divina não costuma dar plantão no futebol. Mas de vez em quando ela aparece.
Caiu como um
raio ontem em Seattle, na humilhante eliminação dos EUA pela Bélgica.
Nem Trump
teve poder de evitar, na manchete do espanhol “Marca”.
Para alegria
do mundo livre, na expressão do Juca Kfouri.
Livre,
circunscrevo, da vassalagem a Trump. Mas não de seu mandonismo e da ameaça que
ele é para a humanidade.
E agora,
Trump? Vai meter um tarifaço no chocolate belga?
Vai tascar
uma sanção da Magnitsky no “suspeito” árbitro Rafael Claus, que nem fez com o
Alexandre de Moraes?
E pra
contestar o Trump, vale até atestado de idoneidade da CBF e da Conmebol, né
Claus?
Justiça pra
ele não vale nada. Aliás, vale só se for a favor. Só a que cabe em seus cofres.
Como a
Suprema Corte dos EUA, que lhe concedeu imunidade pelos crimes cometidos de
dentro da Casa Branca.
Certamente é
por isso que Trump não admite a condenação do vassalo Jair Bolsonaro pelo STF
do Brasil.
Nos cofres
dele também cabe o tribunal da Fifa, que revogou a suspensão do atacante
Balogun, dos EUA, expulso na partida anterior.
E revogou,
junto, qualquer simulacro de autoridade sobre o esporte que a direção da Fifa
ouse ainda de reivindicar.
A Fifa
deixou de ser autoridade faz tempo. Não passa de um guichê para contratos
bilionários de transmissão e patrocínio.
A Fifa está
nas mãos do Departamento de Justiça dos EUA desde 2015, quando o FBI invadiu a
Suíça para prender o antecessor de Infantino, Joseph Blatter.
Blatter e
outros dirigentes (incluindo os brasileiros José Maria Marin, Ricardo Teixeira
e Del Nero) foram acusados de cobrar propina pelos direitos de transmissão da
Copa e outros torneios.
Coisa de 150
milhões de dólares, num esquema com grandes redes de TV, incluindo a Globo, que
para sair de cena demitiu o diretor que fazia negócios com a Fifa.
Lembram?
Melhor para a Globo que esqueçam.
Infantino
assumiu o lugar do condenado Blatter, numa grande operação-abafa com a
cumplicidade da maior parte das confederações e federações de futebol do
planeta.
Alguém tem a
ilusão de que a batida do FBI na Suíça higienizou os bilionários negócios em
torno do futebol?
Melhor
iludir-se com o futuro da seleção brasileira.
Não foi por
amor a Trump ou desamor pelo futebol que Infantino manchou de vez a Copa de
2026.
Foi por
obrigação, por contrato. Foi por ser parte de uma engrenagem que movimenta
bilhões. E que está sujeita aos desígnios do atual presidente dos EUA.
A mesma
engrenagem que faz a mídia das classes dominantes do Brasil tratar como fato
real o choro farsante do Neymar na eliminação do Brasil.
Como se o
país e o mundo não tivessem presenciado seu ataque de estrelismo individualista
diante do goleiro da Noruega.
Mas voltemos
à divina eliminação dos EUA, só na bola. Com o delicioso arremate do último gol
do Lukaku.
Não me
venham comparar o trumpaço de 2026 com o caso de Mané Garrincha na Copa de
1962.
Garrincha
jogou a final contra a hoje dividida Tchecoslováquia, mesmo tendo sido expulso
no jogo anterior, a vitória do Brasil sobre o anfitrião Chile.
Naquele
tempo não existiam cartão vermelho nem suspensão automática.
A decisão
cabia a um tribunal da Fifa, dirigida na época pelo mitológico sir Stanley
Rous, isento de simpatias pelo Brasil ou por qualquer seleção que não fosse da
Europa.
Mas houve
comoção no mundo da bola. Na ausência de Pelé, contundido gravemente na segunda
partida do torneio, Garrincha era a estrela daquela Copa.
Tancredo
Neves, primeiro-ministro naquele breve período parlamentarista do Brasil,
entrou em campo pela seleção canarinha.
Muitos anos
depois, no Natal de 1984, às vésperas de se tornar o primeiro presidente civil
depois da ditadura, eu e o colega Bob Fernandes ouvimos a história contada pelo
próprio Tancredo.
Ele se
comprazia de ter telefonado para o presidente do Chile, Jorge Alessandri,
pedindo que intercedesse no julgamento de Garrincha. E que Alessandri fez uma
carta pública a favor do pleito brasileiro, em nome do bom futebol.
O fato é que
tribunal decidiu que Garrincha poderia jogar. A expulsão não estava registrada
na súmula e não havia testemunhas contra o craque das pernas tortas.
Mané entrou
com febre e pouco fez em campo, mas já tinha cumprido a missão de levar o
Brasil à final. Amarildo, o “Possesso”, Zito e Vavá marcaram os gols da vitória
por 3 x 1.
Não me
venham comparar Tancredo Neves com Donald Trump. Nem sir Stanley Rous com
Gianni Infantino.
Ingerência
política na Copa, muito antes do caso Balogun, foi a odiosa perseguição contra
a seleção do Irã e seus torcedores.
Foi a
crueldade mesquinha de censurar a bandeira nacional na camisa da seleção do
Haiti.
As
vexatórias e humilhantes revistas à delegação do Senegal.
A deportação
do árbitro somali Omar Artan, o melhor juiz africano, por preconceito político
e racial.
Os
cancelamentos de vistos de torcedores de outros países, apenas de determinados
países.
Definitivamente,
os Estados Unidos de Donald Trump não mereciam sediar um torneio que é o maior
congraçamento entre povos dos mais diferentes países.
Ontem, em
Seattle, os deuses do futebol impuseram o castigo pelos pés de um filho de
imigrantes congoleses.
Obrigado,
Lukaku. Você fez o time do Trump cair de quatro.