18.8.26

Em livro, ex-comandante da FAB

 Em livro, ex-comandante da FAB detalha bastidores da resistência ao golpe e diz que Forças Armadas “perderam confiabilidade” sob Bolsonaro

Ex-comandante da Aeronáutica, Carlos de Almeida Baptista Junior relata pressões para ruptura institucional, detalha rompimento com Braga Netto e reflete sobre os impactos do bolsonarismo nas instituições militares

Conteúdo postado por:Guilherme LevoratoGuilherme LevoratoPublicado em 18 de agosto de 2026 às 06:25Apoie o 247

                   Tenente-brigadeiro do ar Carlos de Almeida Baptista Junior                      Tenente-brigadeiro do ar Carlos de Almeida Baptista JuniorCrédito: ABR

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247 – Em entrevista na qual detalha os bastidores de sua atuação contra as pressões pela decretação de um golpe de Estado após o pleito presidencial de 2022, o ex-comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, afirmou que as Forças Armadas sofreram expressiva perda de confiabilidade perante a sociedade brasileira durante a gestão de Jair Bolsonaro (PL), informa Bela Megale, do jornal O Globo.

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Testemunha central nos processos no Supremo Tribunal Federal (STF) que apuraram a tentativa de ruptura institucional e que resultaram na condenação de ex-integrantes do primeiro escalão do governo anterior, Baptista Junior está lançando o livro “Eu disse NÃO: uma trincheira antigolpista”, publicado pela Autêntica Editora. Na obra, o militar aborda os momentos de maior tensão vividos no final de 2022, a resistência às investidas ilícitas e o custo pessoal e institucional de sua postura legalista.

A perda de confiabilidade e o papel das Forças Armadas

Ao avaliar os impactos da gestão de Jair Bolsonaro sobre os quadros militares, o ex-comandante enfatizou que o envolvimento político desgastou a imagem das instituições perante a opinião pública.

“As Forças perderam confiabilidade, talvez seja essa palavra. Porque sempre houve uma parte da sociedade, até pelo nosso processo histórico, que não tinha um bom alinhamento, uma boa percepção das Forças Armadas, e agora esse leque ampliou”.

Apesar do cenário adverso, o tenente-brigadeiro manifestou confiança na recuperação da credibilidade das Forças, desde que mantida uma postura estritamente voltada ao Estado. “Confio que as Forças Armadas vão recuperar essa confiabilidade mantendo sua postura de Estado, de que não estão aqui para defender A ou B”, acrescentou.

Cientista da própria responsabilidade e da participação excessiva de fardados na administração pública anterior, Baptista Junior pontuou que “foram militares demais no primeiro escalão”, ainda que considere positiva a atuação em setores específicos de estatais e órgãos previdenciários.

Momentos de tensão e o relatório das urnas

O ex-comandante da FAB classificou as semanas de novembro de 2022 como o período de maior gravidade no contexto das tentativas de subversão da ordem democrática. Segundo ele, a crise se acentuou especialmente nos dias 14, 22 e 24 de novembro, datas em que Bolsonaro alimentou a expectativa de contestar o resultado das urnas com base em auditorias promovidas pelo Instituto Voto Legal.

Baptista Junior ressaltou que a insistência em questionar o sistema eleitoral gerou um ambiente de extrema incerteza. Para evitar especulações sobre rupturas, o militar chegou a propor a antecipação da transmissão do comando das Forças Armadas antes da posse do presidente Lula (PT).

A iniciativa, contudo, acabou gerando interpretações equivocadas de que se tratava de uma recusa em prestar continência ao novo mandatário. Após diálogo com o indicado para o Ministério da Defesa, José Múcio Monteiro, a data da passagem de comando foi ajustada para transcorrer na normalidade do calendário institucional.

“A continência é um ato de saudação à autoridade, não à pessoa. Todos os militares devem continência ao presidente da República, seja quem for”.

Rompimento pessoal e ataques promovidos por aliados

Entre os desdobramentos de sua recusa em apoiar iniciativas ilícitas, o militar relatou o rompimento definitivo com antigos interlocutores, com destaque para o general Walter Braga Netto, ex-ministro da Defesa e candidato a vice-presidente na chapa de Bolsonaro em 2022.

O ponto de ruptura ocorreu quando tomou conhecimento de orientações para que subordinados e militantes atacassem a honra de comandantes legalistas e de suas respectivas famílias.

“Colocar a família nisso passou do limite, e tenho certeza de que Braga Neto se arrependeu […] Ainda me machuca muito ele ter mandado ferrar com a família. Isso é um ponto de ruptura. Em alguns aspectos, acho que ou é zero, ou é um. Eu não sei se, depois que virar zero, tem como voltar a ser um”.

A despeito do desgaste pessoal, do distanciamento de antigos amigos e das pressões cotidianas sofridas durante o processo, o ex-comandante ressaltou que cumpriu rigorosamente com o dever constitucional: “O que eu fiz foi cumprir a lei, e não quero ser herói por causa disso. Ninguém deveria ser herói por cumprir a lei ao não apoiar o golpe”.

Diálogo pós-8 de janeiro e lições para o futuro

Baptista Junior também revelou ter mantido um último contato telefônico com Jair Bolsonaro cerca de dez dias após os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. O contato ocorreu após assistir a uma entrevista na qual dirigentes partidários tentavam atribuir aos militares a responsabilidade pelos erros cometidos no período.

Na ocasião, o ex-comandante cobrou uma posição clara do ex-presidente para desmobilizar os manifestantes e conter a crise jurídica e imagem que recaía sobre as Forças Armadas. Bolsonaro, no entanto, afirmou que não seria capaz de alterar a disposição daqueles grupos.

Questionado sobre a possibilidade de o país enfrentar novos episódios de tentativa de ruptura institucional no futuro, o tenente-brigadeiro concluiu que a recorrência desse tipo de cenário torna-se cada vez mais remota, embora recomende vigilância constante da sociedade em relação às construções do discurso populista.

 

Morre Laura Cardoso

 Morre Laura Cardoso, ícone da dramaturgia brasileira, aos 98 anos

Artista construiu uma carreira de 82 anos no rádio, no teatro, no cinema e na televisão

Conteúdo postado por:José ReinaldoJosé ReinaldoPublicado em 18 de agosto de 2026 às 03:51Apoie o 247

Laura Cardoso

Laura CardosoCrédito: Redes sociais/divulgação

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247 – Uma das trajetórias mais extensas e reconhecidas da dramaturgia brasileira chegou ao fim nesta terça-feira (18): Laura Cardoso morreu aos 98 anos, depois de dedicar 82 anos ao rádio, ao teatro, à televisão e ao cinema. A causa da morte não foi divulgada. As informações são da Folha de S.Paulo.

O anúncio foi feito pelo bisneto da atriz, Fernando Faria, no perfil oficial de Laura no Instagram, durante a madrugada desta terça-feira (18). “Nossa grande estrela se despediu de nós”, informou a publicação. “Laura Cardoso estará para sempre em nossos corações. Obrigada por tudo, nossa amada e eterna Laura Cardoso.”

A atriz deixa uma obra que atravessou diferentes períodos da comunicação e das artes cênicas no Brasil. Sua carreira começou quando o rádio ainda ocupava o centro da vida cultural do país, passou pelos primeiros anos da televisão e alcançou as grandes produções das novelas, do teatro e do cinema nacional.

Da infância no Bexiga ao início no rádio

Registrada como Laurinda de Jesus Cardoso, Laura era filha de antigos camponeses portugueses oriundos da região de Trás-os-Montes. Na infância, viveu em um cortiço no Bexiga, bairro popular da região central de São Paulo.

O interesse pela interpretação surgiu inicialmente por meio da leitura. Laura gostava de ler para os pais e, mais tarde, passou a ser chamada para recitar textos diante das colegas no colégio de freiras onde estudava. Essas experiências contribuíram para despertar sua ligação com as artes cênicas.

Aos 16 anos, iniciou a vida profissional na Rádio Cosmos. Participou de programas de auditório, atrações humorísticas e radionovelas, formatos que ocupavam espaço de destaque na programação da época.

Em 1946, já na Rádio Tupi, conheceu o ator, diretor e roteirista Fernando Balleroni, que viveu entre 1922 e 1980 e se tornaria seu marido. Os dois seguiram posteriormente para a Rádio Bandeirantes.

Nesse período, Laura também integrava um grupo de radioteatro que apresentava pequenos esquetes em circos localizados na periferia. Algumas dessas atuações eram realizadas sem pagamento.

O reconhecimento no rádio cresceu em 1948, quando interpretou a menina Laurinha no programa “Ciranda, Cirandinha”, da Rádio Cultura. Ao retornar à Tupi, trabalhou em radionovelas dirigidas por Otávio Gabus Mendes.

Pioneirismo na televisão brasileira

A estreia de Laura Cardoso na televisão ocorreu em 1952, no programa “Tribunal do Coração”, da TV Tupi. Por aproximadamente 15 anos, ela fez parte do elenco permanente das produções de teleteatro exibidas ao vivo pela emissora.

A atriz participou de atrações como “TV de Vanguarda”, “TV de Comédia” e “Grande Teatro Tupi”. Os programas levavam adaptações de obras clássicas da literatura para a televisão, em uma época marcada pela transmissão ao vivo e pela ausência dos recursos de gravação adotados posteriormente.

Ao longo dessa fase, Laura trabalhou sob a direção de profissionais como Cassiano Gabus Mendes, Vida Alves, Wanda Kosmo e Walter George Durst. Entre 1966 e 1967, cumpriu uma temporada no Rio de Janeiro, com atuações nas emissoras TV Rio e Excelsior.

De volta a São Paulo, passou novamente pelas TVs Bandeirantes e Tupi. Também integrou uma sequência de novelas da Record, entre elas “As Pupilas do Senhor Reitor”.

Nos últimos anos de funcionamento da TV Tupi, atuou em produções como “Os Inocentes” e “Ídolo de Pano”. A experiência acumulada no rádio e nas apresentações ao vivo ajudou a consolidá-la como uma das intérpretes mais experientes da televisão brasileira.

Mais de 20 novelas na TV Globo

Laura Cardoso estreou na TV Globo em 1981, na novela “Brilhante”, escrita por Gilberto Braga. Ao longo das décadas seguintes, participou de mais de 20 telenovelas da emissora.

Entre seus trabalhos estão as novas versões de “Mulheres de Areia”, “A Viagem” e “Irmãos Coragem”, exibidas entre 1993 e 1995. A atriz também integrou o elenco de “Explode Coração”, primeira novela gravada no complexo cenográfico conhecido como Projac.

Em 2009, participou de “Caminho das Índias”. Antes disso, em 2005, retomou simbolicamente a relação com o rádio ao narrar a minissérie “Hoje É Dia de Maria”, dirigida por Luiz Fernando Carvalho.

Sua última novela foi “A Dona do Pedaço”, exibida em 2019. Em 2024, Laura esteve entre os nomes homenageados pelo programa “Tributo”, da Globo.

Uma carreira marcada pelo respeito ao texto

Ao longo de mais de oito décadas de atividade artística, Laura Cardoso defendia a fidelidade à obra criada pelos autores. “Primordial é respeitar o que o autor quer, não se pode desrespeitar o texto que foi escrito”, afirmava.

A atriz também explicava que, depois de compreender a personalidade e o caminho de um papel, o intérprete precisava sustentar aquela construção “para levar a pancada ou o beijo”.

Ao refletir sobre a dimensão menos previsível da atuação, acrescentava: “Sem a bênção dos deuses do teatro é melhor cair fora, porque não dá em nada.”

Essa relação rigorosa com os textos esteve presente em trabalhos realizados para diferentes meios, desde as radionovelas e os teleteatros ao vivo até as produções cinematográficas e televisivas de maior escala.

Reconhecimento no teatro e no cinema

A estreia de Laura Cardoso no teatro adulto ocorreu em 1959, com “Plantão 21”, de Sidney Kingsley, sob a direção de Antunes Filho. Décadas depois, voltou a trabalhar com o diretor em “Vereda da Salvação”, na montagem de 1993.

A atuação em “Vem Buscar-me que Ainda Sou Teu”, encenada em 1991 e dirigida por Gabriel Vilella, rendeu à atriz diferentes premiações. Até 2016, ela permaneceu nos palcos com a peça “A Última Sessão”, de Odilon Wagner, na qual interpretava uma psicanalista.

No cinema, viveu um papel de destaque em “Terra Estrangeira”, filme de Walter Salles e Daniela Thomas lançado em 1996. Em 2000, recebeu um prêmio no Festival de Recife por sua atuação como protagonista de “Através da Janela”, dirigido por Tata Amaral.

Laura também venceu a categoria de melhor atriz coadjuvante do Grande Prêmio Cinema Brasil pelo trabalho em “O Outro Lado da Rua”, produção de 2004 dirigida por Marcos Bernstein.

Seu último lançamento cinematográfico ocorreu em 2025, com o curta-metragem “Dona Rosinha”, de Kk Araújo. No filme, interpretou uma mulher idosa abandonada pela filha em um ponto de ônibus, encerrando sua passagem pelas telas com mais um papel centrado na complexidade da experiência humana.

 

17.8.26

Carlos Drummond de Andrade

Há 39 anos, o Brasil perdia Carlos Drummond de Andrade, poeta que decifrou o país e a condição humana

Autor de Alguma poesia, Sentimento do mundo e A rosa do povo morreu em 17 de agosto de 1987 e deixou uma obra marcada pela reflexão sobre o Brasil, a política, o cotidiano, o amor e as contradições do homem moderno

Conteúdo postado por:Redação Brasil 247Redação Brasil 247Publicado em 17 de agosto de 2026 às 05:24Apoie o 247

Carlos Drummond de Andrade 

Carlos Drummond de Andrade Crédito: Brasil 247 / Dall-E

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247 – Há 39 anos, em 17 de agosto de 1987, morria no Rio de Janeiro Carlos Drummond de Andrade, um dos maiores escritores da língua portuguesa e figura central da poesia brasileira do século XX. Mineiro de Itabira, cronista do cotidiano, observador das transformações políticas de seu tempo e poeta das inquietações humanas, Drummond construiu uma obra que atravessou o modernismo e se incorporou definitivamente à cultura brasileira.

Drummond tinha 84 anos e morreu apenas 12 dias depois de sua filha, Maria Julieta Drummond de Andrade, vítima de câncer. A proximidade das duas mortes marcou dramaticamente os últimos dias do escritor, cuja relação com a família, a memória e a perda atravessou diferentes momentos de sua produção literária.

Nascido em 31 de outubro de 1902, em Itabira, Minas Gerais, Drummond transformou uma cidade do interior, suas montanhas, famílias, ruas e lembranças em matéria universal. Ao mesmo tempo, fez de sua poesia um espaço para observar um Brasil que se urbanizava, se industrializava e atravessava autoritarismos, guerras, conflitos sociais e profundas mudanças culturais.

Sua literatura conseguiu realizar um movimento raro: partir das pequenas coisas para alcançar algumas das maiores questões da existência.

De Itabira para a literatura brasileira

Carlos Drummond de Andrade nasceu em uma família de proprietários rurais em uma Minas Gerais ainda profundamente marcada pelas estruturas sociais do século XIX.

Itabira permaneceria presente em sua obra mesmo depois que o escritor deixou a cidade.

A paisagem mineral, as montanhas e a memória da família tornaram-se símbolos de um mundo em transformação. A mineração, que modificaria radicalmente a região, também apareceria em sua reflexão sobre a relação entre memória, território e desenvolvimento econômico.

Drummond estudou em Belo Horizonte e posteriormente em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. Formou-se em Farmácia, embora jamais tenha exercido a profissão de maneira regular.

Seu destino seria a literatura.

Na década de 1920, aproximou-se do movimento modernista e estabeleceu contato com nomes fundamentais da renovação cultural brasileira, entre eles Mário de Andrade.

O modernismo buscava romper com convenções acadêmicas e construir uma expressão artística capaz de dialogar diretamente com a experiência brasileira. Drummond absorveu esse impulso, mas desenvolveu uma voz inteiramente própria.

Uma pedra mudou a poesia brasileira

Em 1928, a publicação de “No meio do caminho” na Revista de Antropofagia provocou uma das maiores controvérsias da história da poesia brasileira.

A repetição, a linguagem aparentemente simples e a presença insistente da pedra contrariavam expectativas tradicionais sobre o que deveria ser um poema.

O texto seria atacado, parodiado e discutido durante anos.

Mas justamente aquilo que parecia estranho aos críticos tornou-se uma demonstração da força da nova linguagem modernista.

A pedra entrou para o imaginário cultural brasileiro.

Dois anos depois, em 1930, Drummond publicou seu primeiro livro, Alguma poesia. Ali já apareciam elementos que atravessariam sua obra: ironia, deslocamento, observação cotidiana, memória familiar e uma sensação de inadequação diante do mundo.

O poeta assumia a figura do “gauche”, aquele que parece estar ligeiramente fora do lugar.

Essa condição se tornaria uma das chaves para compreender sua literatura.

Drummond observava o mundo de dentro e de fora simultaneamente. Participava da sociedade, mas conservava a distância necessária para enxergar suas contradições.

O poeta diante de um mundo em crise

A obra de Drummond mudou à medida que o próprio mundo se transformava.

Nas décadas de 1930 e 1940, o Brasil vivia as tensões do governo Getúlio Vargas, a industrialização acelerava a mudança das cidades e o planeta caminhava para a Segunda Guerra Mundial.

A poesia drummondiana tornou-se mais diretamente social e política.

Em Sentimento do mundo, publicado em 1940, a experiência individual se encontra com uma percepção crescente das injustiças e dos conflitos coletivos.

O poeta que antes parecia concentrado em suas próprias inquietações passa a olhar de maneira cada vez mais intensa para a história.

Esse movimento alcançaria um de seus momentos mais importantes em A rosa do povo, de 1945.

Publicado no fim da Segunda Guerra Mundial e da ditadura do Estado Novo, o livro é considerado uma das grandes realizações da poesia social brasileira.

Drummond escreve sobre guerra, medo, desigualdade, trabalho, política e esperança sem transformar a poesia em simples palavra de ordem.

A força de sua literatura está justamente na tensão.

Existe desejo de transformação, mas também dúvida. Existe solidariedade, mas não ingenuidade. Existe esperança, mas ela convive permanentemente com a consciência das dificuldades humanas.

Drummond e a experiência do Brasil

Poucos escritores conseguiram observar o Brasil com uma combinação tão particular de intimidade e distanciamento.

Drummond escreveu sobre Minas Gerais, mas sua Minas nunca foi apenas geográfica.

Era também memória, família, poder, tradição e perda.

Escreveu sobre o Rio de Janeiro, onde viveu grande parte da vida, transformando ruas, praias, repartições públicas e personagens anônimos em matéria literária.

Escreveu sobre trabalhadores, funcionários, políticos, guerras, cidades e transformações econômicas.

Também acompanhou um país que deixava progressivamente de ser predominantemente rural e se tornava urbano e industrial.

Sua experiência pessoal atravessava essa transformação.

Drummond trabalhou durante décadas como funcionário público e conhecia por dentro a burocracia estatal. Entre 1934 e 1945, atuou como chefe de gabinete de Gustavo Capanema no Ministério da Educação e Saúde.

Ao mesmo tempo, mantinha sua atividade literária e jornalística.

Essa convivência entre o homem comum da repartição e o poeta extraordinário também alimentou sua percepção do cotidiano.

A poesia das pequenas coisas

Uma das características mais duradouras de Drummond é sua capacidade de encontrar profundidade nas situações aparentemente banais.

Uma rua, uma fotografia, uma família, uma pedra, uma lembrança da infância ou um encontro casual podiam abrir caminho para reflexões sobre tempo, morte, amor e solidão.

Essa característica explica em parte por que sua poesia permaneceu tão acessível a diferentes gerações.

Drummond podia ser sofisticado sem perder a clareza.

Podia ser filosófico sem abandonar o cotidiano.

E podia ser profundamente brasileiro sem depender de uma visão folclórica do país.

Sua linguagem aproximou a poesia da conversa e incorporou humor, ironia e coloquialidade sem abrir mão do rigor literário.

O resultado foi uma obra capaz de circular simultaneamente entre estudiosos, escolas e leitores que simplesmente encontraram em seus versos uma forma de reconhecer experiências pessoais.

Amor, memória e passagem do tempo

A dimensão política de Drummond é apenas uma parte de sua obra.

O amor ocupa espaço igualmente fundamental.

Ao longo de décadas, o escritor explorou desejo, paixão, envelhecimento, casamento, perda e impossibilidade amorosa.

A memória também se tornou progressivamente mais importante.

Quanto mais envelhecia, mais Drummond retornava à infância, à família e à Itabira desaparecida.

Esse retorno não era simples nostalgia.

A memória, em sua literatura, frequentemente revelava o caráter irreversível do tempo. O passado podia ser recuperado pela palavra, mas jamais reconstruído integralmente.

Essa tensão entre presença e ausência atravessa alguns de seus trabalhos mais marcantes.

O poeta parecia compreender que escrever era também uma maneira de lutar contra o desaparecimento.

O cronista que conversava com milhões de brasileiros

Drummond não viveu apenas nos livros de poesia.

Durante décadas, foi também um dos grandes cronistas da imprensa brasileira.

Escrevendo para jornais, desenvolveu uma relação cotidiana com leitores de diferentes partes do país.

Suas crônicas abordavam acontecimentos aparentemente pequenos, comportamentos urbanos, política, futebol, relações familiares e episódios da vida comum.

Era uma extensão natural de sua poesia.

O olhar permanecia atento àquilo que normalmente passava despercebido.

A crônica permitiu ainda que Drummond participasse diretamente da vida pública brasileira sem abandonar sua identidade literária.

Essa presença constante nos jornais ajudou a transformá-lo em algo maior do que um escritor celebrado pelos círculos intelectuais.

Drummond tornou-se uma figura reconhecida nacionalmente.

A mineração e a memória de Itabira

A relação de Drummond com sua cidade natal ganhou, com o passar do tempo, uma dimensão que permanece particularmente contemporânea.

Itabira foi profundamente transformada pela mineração de ferro.

As montanhas que compunham a paisagem da infância do poeta passaram a ser exploradas em escala industrial, modificando o território e a própria identidade local.

Drummond registrou essa transformação literariamente.

A tensão entre riqueza mineral e perda da paisagem antecipou discussões que se tornariam cada vez mais importantes no Brasil: quem controla os recursos naturais, quais benefícios permanecem nas regiões produtoras e qual é o preço ambiental e cultural do desenvolvimento.

Em Drummond, a montanha não é apenas minério.

É memória.

E a destruição de uma paisagem pode representar também o desaparecimento de uma parte da experiência humana ligada àquele lugar.

A perda de Maria Julieta

Os últimos dias de Drummond foram marcados por uma tragédia pessoal.

Sua única filha, Maria Julieta Drummond de Andrade, morreu em 5 de agosto de 1987.

Escritora e tradutora, Maria Julieta mantinha uma relação muito próxima com o pai.

Doze dias depois, em 17 de agosto, Drummond morreu no Rio de Janeiro.

A proximidade entre as duas mortes adquiriu uma dimensão especialmente dolorosa para leitores familiarizados com uma obra em que família, memória, ausência e morte sempre estiveram presentes.

Encerrava-se uma trajetória literária iniciada muitas décadas antes em Minas Gerais e que havia acompanhado quase todo o século XX brasileiro.

Um poeta que continua contemporâneo

Trinta e nove anos depois de sua morte, Drummond permanece presente na cultura brasileira.

Seus poemas continuam nas escolas, universidades, jornais, redes sociais e conversas cotidianas.

Parte dessa permanência deriva da extraordinária capacidade do escritor de falar simultaneamente de seu próprio tempo e de questões que não envelhecem.

O indivíduo diante de uma sociedade que parece incompreensível. O medo diante da violência política. A solidão nas grandes cidades. A dificuldade de amar. O peso das lembranças. A passagem inexorável do tempo. A esperança que resiste mesmo quando a realidade parece negá-la.

Também permanece atual seu olhar sobre o Brasil.

Drummond conheceu um país marcado pela desigualdade, pela concentração de poder e riqueza e pela tensão permanente entre modernização e exclusão social.

Assistiu à expansão industrial, ao crescimento das cidades, ao surgimento de novas formas de comunicação e às grandes disputas ideológicas do século XX.

Não ofereceu respostas simples.

Sua grande contribuição talvez tenha sido justamente recusar a simplificação.

O legado de Drummond

Carlos Drummond de Andrade atravessou diferentes fases da literatura brasileira sem se deixar aprisionar por nenhuma delas.

Foi modernista, poeta social, cronista, memorialista e poeta do amor e da existência.

Transformou Minas Gerais em matéria universal e o cotidiano brasileiro em literatura.

Sua obra mostrou que a poesia podia estar em uma pedra, numa fotografia antiga, numa repartição pública, numa cidade modificada pela mineração ou na perplexidade de um indivíduo diante dos acontecimentos do mundo.

Quando morreu, em 17 de agosto de 1987, o Brasil perdeu um de seus maiores intérpretes.

Trinta e nove anos depois, sua permanência demonstra que grandes escritores não pertencem apenas à época em que viveram.

Drummond continua sendo lido porque as perguntas que formulou permanecem diante de nós: como viver em um mundo atravessado por injustiças, como preservar a humanidade em tempos difíceis, como enfrentar a passagem do tempo e como transformar memória, perplexidade e esperança em alguma forma de compreensão da vida.

  

15.8.26

Petróleo no Amapá

 Descoberta de petróleo no Amapá só foi possível graças à liderança do presidente Lula, diz Alexandre Silveira

Ministro de Minas e Energia afirma que avanço na Margem Equatorial resulta de mais de três anos de trabalho do governo e pode atrair centenas de bilhões em investimentos

Conteúdo postado por:Redação Brasil 247Redação Brasil 247Publicado em 15 de agosto de 2026 às 04:06Apoie o 247

O Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva; a Presidenta da Petrobras, Magda Chambriard; o Ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho; o Ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira; e a Ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck, participaram da cerimônia de anúncio dos investimentos da Petrobras em refino e petroquímica, realizada na Refinaria Duque de Caxias (REDUC), em Duque de CaxiasO Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva; a Presidenta da Petrobras, Magda Chambriard; o Ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho; o Ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira; e a Ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck, participaram da cerimônia de anúncio dos investimentos da Petrobras em refino e petroquímica, realizada na Refinaria Duque de Caxias (REDUC), em Duque de CaxiasCrédito: Ricardo Stuckert / PR

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247 – O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, atribuiu à liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva o avanço que culminou no anúncio da descoberta de petróleo na Margem Equatorial, no Amapá. Segundo ele, o resultado é fruto de mais de três anos de atuação do governo federal em defesa da economia, da soberania energética e de uma estratégia de desenvolvimento capaz de combinar exploração de novas reservas, geração de empregos e transição energética.

Em postagem nas redes sociais, Silveira afirmou que a descoberta pode alterar as perspectivas econômicas do Brasil e ampliar o peso do país no cenário internacional. “Foram mais de três anos intensos em defesa da nossa economia e soberania energética. O anúncio da descoberta de petróleo na Margem Equatorial pode ressignificar o nosso futuro e reposicionar o Brasil na geopolítica global”, escreveu o ministro.

A descoberta anunciada pela Petrobras amplia as perspectivas de exploração de petróleo na Margem Equatorial, região considerada uma das novas fronteiras petrolíferas brasileiras. A ocorrência em águas profundas também reforça a importância da experiência tecnológica acumulada pela estatal brasileira na exploração offshore de alta complexidade.

Silveira destaca papel de Lula

Na avaliação de Alexandre Silveira, o avanço na exploração da região não deve ser interpretado como resultado do acaso. O ministro afirmou que a condução política do presidente Lula foi determinante para mediar o processo e viabilizar uma estratégia que conciliasse desenvolvimento econômico, interesses nacionais, segurança operacional e sustentabilidade.

“Isso só foi possível graças à liderança do presidente Lula, que, com sua visão desenvolvimentista, conseguiu mediar todo este processo. Não foi sorte achar petróleo na Margem Equatorial, foi o resultado do árduo trabalho do nosso governo e da implementação responsável de suas políticas públicas”, afirmou.

A exploração da Margem Equatorial tornou-se um dos principais temas da política energética brasileira nos últimos anos. Para o governo, a abertura de uma nova fronteira petrolífera é considerada estratégica para que o Brasil consiga renovar suas reservas e preservar sua capacidade de produção de petróleo nas próximas décadas, ao mesmo tempo em que amplia os investimentos em fontes renováveis e na transição energética.

O potencial da região ganhou ainda mais relevância diante das descobertas realizadas em áreas geologicamente relacionadas no litoral das Guianas, que transformaram aquela parcela da América do Sul em uma das fronteiras mais observadas pela indústria mundial de petróleo.

Petrobras e AGU recebem reconhecimento

Silveira também destacou a atuação da Advocacia-Geral da União (AGU) e da Petrobras ao longo do processo. Segundo ele, diferentes instituições do Estado brasileiro contribuíram para que os interesses nacionais fossem defendidos durante as discussões relacionadas à exploração da Margem Equatorial.

“Cabe o reconhecimento também à AGU, que defendeu os interesses nacionais, e à toda a diretoria, trabalhadoras e trabalhadores da nossa Petrobras”, declarou o ministro.

A Petrobras possui décadas de experiência na exploração e produção em águas profundas e ultraprofundas, conhecimento tecnológico que transformou a companhia em uma referência internacional nesse segmento. A descoberta no Amapá reforça essa capacidade técnica e abre caminho para novas etapas de avaliação do potencial petrolífero da região.

A confirmação de uma descoberta, contudo, integra um processo mais amplo de exploração. Estudos adicionais são necessários para determinar as dimensões, a qualidade e a viabilidade econômica das reservas antes de uma eventual decisão de desenvolvimento comercial e produção em larga escala.

Investimentos, empregos e desenvolvimento regional

Para Silveira, a exploração responsável da Margem Equatorial poderá ter efeitos econômicos muito além do setor de petróleo e gás. O ministro mencionou a possibilidade de centenas de bilhões em novos investimentos, além da geração de empregos, renda e divisas para o Brasil.

“Com segurança e sustentabilidade, podemos criar novas divisas e garantir que toda essa nossa potencialidade traga centenas de bilhões em investimentos, empregos e renda para brasileiras e brasileiros, combatendo as desigualdades e levando desenvolvimento, principalmente, nas regiões Norte e Nordeste do país”, afirmou.

Uma eventual expansão da atividade petrolífera na região também poderá aumentar a arrecadação de royalties e participações governamentais, além de estimular investimentos em infraestrutura, serviços especializados, logística, indústria naval e cadeias de fornecedores vinculadas à exploração offshore.

O governo Lula tem defendido que parte importante dos benefícios econômicos decorrentes dos recursos naturais brasileiros seja utilizada para financiar políticas públicas e o desenvolvimento econômico e social, especialmente nas regiões historicamente marcadas por menores níveis de renda e investimento.

Petróleo e transição energética

Silveira também relacionou diretamente o desenvolvimento da Margem Equatorial à estratégia brasileira de transição energética. Para o ministro, a exploração dos recursos petrolíferos pode ocorrer de maneira compatível com a expansão das fontes renováveis e com os compromissos ambientais assumidos pelo país.

O ministro afirmou que os investimentos e a geração de renda proporcionados pela nova fronteira petrolífera podem ocorrer “em absoluta harmonia com a transição energética nacional”.

Essa posição está no centro da estratégia defendida pelo Ministério de Minas e Energia: utilizar as receitas e a capacidade econômica do setor de petróleo e gás enquanto o Brasil acelera investimentos em energia solar, eólica, biocombustíveis, hidrogênio de baixa emissão de carbono e outras tecnologias associadas à descarbonização.

A descoberta no Amapá, portanto, amplia a discussão sobre o papel da Margem Equatorial no futuro energético brasileiro. Caso os estudos posteriores confirmem reservas comercialmente relevantes, a região poderá contribuir para a manutenção da produção nacional, ampliar a segurança energética e abrir uma nova frente de investimentos em uma área estratégica do território brasileiro.

Para o governo, o desafio será transformar o potencial petrolífero em desenvolvimento econômico e social, preservando simultaneamente os requisitos de segurança operacional e proteção ambiental. Na avaliação apresentada por Alexandre Silveira, a descoberta representa justamente a possibilidade de combinar soberania energética, geração de riqueza, redução das desigualdades e financiamento da transição para uma economia de menor intensidade de carbono.

 

14.8.26

Bertolt Brecht, 70 anos depois

 Bertolt Brecht, 70 anos depois: os clássicos e as ideias de um gigante do teatro político

Autor de Mãe Coragem, A vida de Galileu e A ópera dos três vinténs morreu em 14 de agosto de 1956 e deixou uma obra marcada pela crítica à guerra, ao fascismo e às desigualdades

Conteúdo postado por:Redação Brasil 247Redação Brasil 247Publicado em 13 de agosto de 2026 às 16:26Apoie o 247

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247 — Há exatamente 70 anos, em 14 de agosto de 1956, morria em Berlim Bertolt Brecht, um dos mais importantes dramaturgos, poetas e pensadores do teatro do século XX. Sete décadas depois, sua obra continua atravessando fronteiras porque parte de uma pergunta que permanece atual: de que maneira a arte pode ajudar o ser humano não apenas a contemplar o mundo, mas a compreendê-lo criticamente e transformá-lo?

Nascido em Augsburg, na Alemanha, em 10 de fevereiro de 1898, Brecht atravessou duas guerras mundiais, a ascensão do nazismo, o exílio e as grandes disputas ideológicas do século XX. Marxista, transformou sua experiência histórica em uma dramaturgia que confrontava o público com questões relacionadas ao poder, à exploração econômica, à guerra, à propaganda e às contradições da sociedade capitalista. O Berliner Ensemble, companhia fundada por Brecht e pela atriz Helene Weigel em 1949, registra que o dramaturgo morreu em sua casa, em Berlim, em 14 de agosto de 1956. (Berliner Ensemble)

O teatro que não queria espectadores passivos

Brecht revolucionou a linguagem teatral ao desenvolver aquilo que se tornou conhecido como teatro épico. Em vez de simplesmente produzir identificação emocional entre público e personagens, procurava criar condições para que o espectador observasse criticamente o que acontecia diante de seus olhos.

O chamado efeito de distanciamento tornou-se uma das marcas dessa concepção. A intenção não era retirar a emoção da arte, mas impedir que a emoção encerrasse a reflexão. O espectador deveria perceber que as relações sociais apresentadas no palco não eram naturais nem eternas — e, portanto, poderiam ser modificadas.

A Deutsche Biographie define Brecht como um poeta político que revolucionou a arte cênica do século XX por meio de seu teatro épico, posteriormente chamado por ele de teatro dialético, combinando política e criação artística a partir da ideia de que o mundo é passível de transformação. (Biografia Alemã)

Essa concepção ajuda a explicar por que Brecht permanece tão influente. Para ele, pobreza, exploração, guerra e autoritarismo não deveriam aparecer como fatalidades inevitáveis. Cabia ao teatro revelar os mecanismos que produziam essas situações.

De A ópera dos três vinténs a Mãe Coragem

Entre os grandes clássicos de Brecht está A ópera dos três vinténs, escrita em colaboração com o compositor Kurt Weill e apresentada pela primeira vez em Berlim em 1928. A montagem tornou-se um grande sucesso de público e atacava, com ironia, a respeitabilidade burguesa, aproximando o universo dos negócios daquele da criminalidade. (Berliner Ensemble)

Outra obra fundamental é Mãe Coragem e seus filhos, escrita no contexto da ascensão da guerra na Europa. A personagem Anna Fierling tenta sobreviver comercializando mercadorias durante a Guerra dos Trinta Anos, enquanto perde seus filhos para o próprio conflito do qual procura retirar seu sustento. A peça tornou-se uma das mais contundentes reflexões de Brecht sobre a relação entre guerra, lucro e destruição humana.

Em A vida de Galileu, Brecht transformou a trajetória de Galileu Galilei em uma discussão sobre ciência, verdade, poder e responsabilidade intelectual. A peça coloca no centro uma questão que permanece contemporânea: qual deve ser a atitude de cientistas e intelectuais quando a verdade entra em choque com estruturas poderosas?

Em A alma boa de Setsuan, o dramaturgo questiona a possibilidade de permanecer moralmente bom em uma sociedade organizada de maneira injusta. Já O círculo de giz caucasiano discute justiça, propriedade e responsabilidade.

E em A resistível ascensão de Arturo Ui, escrita durante o exílio, Brecht utilizou uma parábola sobre gângsteres para abordar a ascensão de Adolf Hitler. O próprio título carrega uma ideia decisiva: o avanço do fascismo não deve ser tratado como um fenômeno inevitável da história. A peça foi escrita durante o período em que Brecht fugia do regime nazista, primeiro para a Dinamarca e posteriormente para outros países europeus e os Estados Unidos. (Berliner Ensemble)

Exílio diante do nazismo

Quando Hitler chegou ao poder, em 1933, Brecht deixou a Alemanha. Passou pela Dinamarca, Suécia, Finlândia e Estados Unidos. Seus trabalhos foram perseguidos pelo regime nazista, e Brecht perdeu a cidadania alemã durante o período de exílio.

Nos Estados Unidos, chegou a ser interrogado em 1947 pelo Comitê de Atividades Antiamericanas do Congresso, durante a perseguição a artistas e intelectuais acusados de vínculos com o comunismo. Logo depois, deixou o país e retornou à Europa. (Biografia Alemã)

Em 1949, estabelecido em Berlim Oriental, fundou com Helene Weigel o Berliner Ensemble. A companhia se tornaria uma das instituições teatrais mais influentes da Europa. Em 1954, passou a ocupar o Theater am Schiffbauerdamm, palco histórico onde A ópera dos três vinténs havia estreado décadas antes. (Biografia Alemã)

Frases que atravessaram gerações

A força de Brecht também está na capacidade de condensar conflitos políticos e morais em formulações memoráveis. Uma das passagens mais famosas de A vida de Galileu nasce do diálogo em que Andrea afirma ser infeliz a terra que não tem heróis. Galileu responde invertendo a questão: infeliz é a terra que precisa de heróis.

Em A ópera dos três vinténs, outra formulação tornou-se célebre ao colocar as necessidades materiais diante das exigências morais: primeiro vem a comida, depois a moral. A frase sintetiza um tema recorrente em Brecht — a impossibilidade de discutir abstratamente virtude e comportamento sem considerar as condições concretas em que vivem os seres humanos.

Sua poesia também tornou universais reflexões sobre tempos de autoritarismo, guerra e perseguição. Brecht insistia em chamar atenção para aquilo que uma sociedade passa a considerar normal. Esse procedimento aparece repetidamente em sua obra: tornar estranho aquilo que parece familiar para que o público volte a enxergá-lo.

Por isso, muitas frases apócrifas passaram a circular ao longo das décadas atribuídas ao dramaturgo. A própria popularidade dessas falsas citações demonstra o tamanho da presença de Brecht no imaginário político e cultural, mas também torna fundamental distinguir sua obra real das formulações que posteriormente receberam seu nome.

Setenta anos depois

Brecht morreu aos 58 anos. Sua influência, porém, continuou crescendo. Suas peças passaram a ser encenadas em diferentes idiomas e contextos políticos, e seus conceitos modificaram a formação de atores, diretores, dramaturgos e estudiosos do teatro.

Sua obra nasceu de circunstâncias específicas — guerras mundiais, fascismo, crise do capitalismo europeu, revoluções e confrontos ideológicos —, mas as perguntas que formulou sobreviveram ao século XX.

Quem paga pela guerra? Quem lucra com ela? O que acontece quando a mentira se transforma em instrumento político? Qual é a responsabilidade do intelectual diante do poder? É possível exigir virtude de quem não dispõe das condições materiais mínimas para viver? E por que sociedades inteiras aceitam como naturais relações que foram historicamente construídas?

Setenta anos após sua morte, são essas perguntas, mais do que qualquer resposta pronta, que mantêm Bertolt Brecht vivo.

 

9.8.26

Zen: a viagem de uma palavra

 De dhyāna ao Zen: a viagem milenar de uma palavra que nasceu na Índia e atravessou a Ásia

Do sânscrito aos mosteiros chineses e japoneses, a trajetória da palavra revela como a prática da meditação atravessou línguas, culturas e diferentes concepções sobre a consciência

Conteúdo postado por:Redação Brasil 247Redação Brasil 247Publicado em 8 de agosto de 2026 às 22:00Apoie o 247

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247 — A palavra “meditação”, em português, tem origem no latim meditatio, derivado de meditari, verbo associado a refletir, contemplar e exercitar o pensamento. Mas uma das palavras mais importantes para compreender a história das práticas meditativas orientais nasceu em outro universo linguístico e filosófico: o sânscrito dhyāna (ध्यान).

Ligado à raiz sânscrita √dhyai, associada ao ato de contemplar, pensar ou meditar, dhyāna tornou-se um conceito fundamental das tradições espirituais da Índia. Ao longo dos séculos, a palavra atravessaria montanhas, desertos, impérios e civilizações. Com a expansão do budismo, viajaria da Índia para a China, onde daria origem ao termo Chán (), e posteriormente chegaria ao Japão, onde o mesmo caractere seria pronunciado Zen.

A conhecida palavra “Zen”, portanto, carrega em sua própria história os vestígios de uma extraordinária circulação de ideias entre Índia, China e Japão. Sua trajetória mostra não apenas como as palavras se transformam quando passam de uma língua para outra, mas também como conceitos filosóficos são reinterpretados pelas culturas que os recebem.

Dhyāna e as raízes indianas da meditação

Nas antigas tradições indianas, meditar não significava simplesmente relaxar ou interromper momentaneamente as preocupações cotidianas. A contemplação estava relacionada às questões fundamentais da existência: o que é a consciência, quem somos e qual é a natureza última da realidade.

Nos Upaniṣads, textos que constituem uma das bases do pensamento filosófico indiano, a contemplação aparece associada à investigação da relação entre Ātman, o princípio mais profundo do ser, e Brahman, a realidade absoluta.

Uma das mais célebres formulações dessa tradição aparece no Chāndogya Upaniṣad: Tat tvam asi, geralmente traduzido como “Tu és Isso”. A expressão tornou-se central para correntes posteriores do Vedānta ao apontar para uma relação profunda entre aquilo que existe no interior do indivíduo e o fundamento da realidade.

Nesse universo, a meditação pode assumir uma dimensão radical: em vez de procurar algo exterior, o praticante dirige sua atenção para a própria natureza da consciência.

A mente inquieta da Bhagavad Gītā

A Bhagavad Gītā acrescentaria outra dimensão decisiva à tradição meditativa indiana. No diálogo entre Arjuna e Krishna, especialmente no sexto capítulo, dedicado ao caminho da meditação, surge um problema reconhecível mesmo milhares de anos depois: a dificuldade de controlar uma mente inquieta.

Arjuna apresenta a mente como turbulenta e difícil de dominar. A resposta de Krishna aponta para dois conceitos fundamentais: abhyāsa, a prática constante, e vairāgya, o desapego.

A combinação dos dois conceitos contém uma concepção sofisticada do treinamento mental. Não se trata simplesmente de combater pensamentos ou eliminar emoções pela força. A mente seria progressivamente educada pela prática, enquanto o desapego reduziria a força com que desejos, medos e pensamentos capturam continuamente a atenção.

A meditação deixa, assim, de ser apenas um exercício intelectual. Torna-se uma disciplina de transformação da relação do indivíduo consigo mesmo e com o mundo.

Patañjali e o caminho da concentração ao samādhi

Nos Yoga Sūtras, atribuídos a Patañjali, a meditação ganha uma formulação técnica que exerceria enorme influência sobre a tradição do Yoga.

Um dos ensinamentos mais conhecidos da obra é expresso pela fórmula sânscrita yogaś citta-vṛtti-nirodhaḥ, frequentemente interpretada como a ideia de que o Yoga consiste na cessação ou contenção das flutuações da mente.

Patañjali distingue diferentes etapas desse processo. Primeiro aparece dhāraṇā, a concentração: a capacidade de manter a atenção dirigida a determinado objeto. Quando essa atenção passa a fluir de maneira contínua, chega-se a dhyāna, a meditação propriamente dita. O aprofundamento desse processo conduz a samādhi, estado de absorção meditativa.

A sequência pode ser sintetizada como:

Dhāraṇā → Dhyāna → Samādhi

Essa distinção é importante porque mostra que, na tradição clássica do Yoga, concentração e meditação não são exatamente a mesma coisa. A concentração prepara o terreno; dhyāna surge quando a atenção adquire continuidade.

Quando dhyāna deixou a Índia

A história da palavra ganhou uma nova dimensão com a expansão do budismo para além da Índia.

Durante séculos, monges, peregrinos, comerciantes e tradutores percorreram as redes que conectavam o subcontinente indiano à Ásia Central e à China. Junto com textos, imagens e ensinamentos religiosos, viajavam também palavras.

Foi nesse gigantesco processo de intercâmbio cultural que dhyāna atravessou fronteiras linguísticas. O conceito indiano foi transmitido para o universo chinês e sua denominação acabou associada ao caractere , pronunciado Chán no mandarim moderno.

A transformação não foi apenas fonética. Ao chegar à China, o budismo entrou em contato com uma civilização que possuía tradições filosóficas próprias. Séculos de interação produziram novas interpretações e métodos de prática.

Desse encontro emergiria aquilo que ficou conhecido como budismo Chán.

Da China ao Japão: Chán se transforma em Zen

A viagem continuaria em direção ao arquipélago japonês.

As tradições budistas chinesas exerceram profunda influência sobre o desenvolvimento religioso e cultural do Japão. Quando as escolas associadas ao Chán foram transmitidas ao ambiente japonês, o mesmo caractere passou a ser pronunciado Zen.

A genealogia linguística pode, de maneira simplificada, ser representada assim:

Dhyāna → Chán → Zen

Por trás dessa pequena sequência encontram-se muitos séculos de história.

Cada palavra pertence a um contexto cultural específico. O dhyāna das tradições indianas, o Chán chinês e o Zen japonês não devem ser tratados como fenômenos perfeitamente idênticos. Cada sociedade reinterpretou práticas, conceitos e ensinamentos recebidos anteriormente.

Ainda assim, a própria sobrevivência dessa linhagem linguística revela a força histórica da ideia original de contemplação meditativa.

Uma palavra que acabou conquistando o Ocidente

Séculos depois, a viagem tomaria uma direção inesperada. O Zen começaria a despertar crescente interesse no Ocidente, sobretudo a partir dos séculos XIX e XX, quando traduções, estudos sobre religiões asiáticas e a atuação de mestres budistas ampliaram o contato de europeus e norte-americanos com essas tradições.

“Zen” acabou se tornando uma palavra internacional. Em seu uso cotidiano contemporâneo, muitas vezes passou a significar simplesmente tranquilidade, simplicidade ou equilíbrio. Esse emprego, porém, está muito distante da complexidade filosófica e religiosa da tradição que deu origem ao termo.

Reconstruir a história da palavra permite percorrer o caminho inverso.

Por trás do Zen encontra-se o Chán. Por trás do Chán encontra-se uma longa história de transmissão do budismo a partir da Índia. E na raiz dessa genealogia encontra-se dhyāna, conceito sânscrito relacionado à contemplação e à meditação.

A viagem de dhyāna ao Zen é, portanto, muito mais do que uma curiosidade etimológica. É o registro linguístico de um dos grandes encontros culturais da história da humanidade.

Uma palavra nasceu no universo espiritual da Índia, atravessou as rotas da Ásia, encontrou a civilização chinesa, chegou ao Japão e, muitos séculos depois, espalhou-se pelo mundo.

Ao longo desse percurso, sua pronúncia mudou, seus contextos filosóficos se transformaram e novas tradições surgiram ao seu redor. Mas permaneceu uma questão que atravessa toda essa história: o que acontece com a consciência quando a mente deixa de ser continuamente arrastada pelo movimento dos próprios pensamentos?