14.7.26

Mbappé desafia o tempo

Entenda como Mbappé desafia o tempo e mantém velocidade de 37,6 km/h oito anos depois da Copa da Rússia

Sono, recuperação e treinamento específico ajudam o atacante francês a preservar uma explosão física considerada fora do comum no futebol mundial

Conteúdo postado por:Redação Brasil 247Publicado em 14 de julho de 2026 às 07:42Apoie o 247

                  Mbappé                                                                                                                                              MbappéCrédito: Brasil247 / Dall-E

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247 — Oito anos depois de protagonizar uma das arrancadas mais impressionantes da história recente das Copas do Mundo, Kylian Mbappé continua sendo praticamente inalcançável quando encontra espaço para acelerar. Aos 27 anos, o atacante francês chegou a 37,6 km/h no Mundial de 2026 e demonstrou que sua principal arma física permanece tão devastadora quanto na histórica campanha da França na Rússia, em 2018.

As informações foram publicadas pelo jornal peruano El Comercio, que detalhou como a combinação de características naturais, treinamento específico, controle dos movimentos, alimentação e uma dedicação quase obsessiva ao sono permite ao jogador conservar um nível extraordinário de explosão física.

A imagem que apresentou Mbappé definitivamente ao mundo aconteceu nas oitavas de final da Copa da Rússia, contra a Argentina. Ainda com 19 anos, ele percorreu cerca de 70 metros conduzindo a bola, atingiu uma velocidade próxima de 37 km/h, deixou a defesa argentina para trás e sofreu o pênalti que abriu caminho para a vitória francesa por 4 a 3.

O lance foi tão impactante que Mbappé passou a ser chamado de “37” dentro do vestiário da seleção francesa. Fora dele, ganhou uma comparação ainda mais curiosa.

O ex-campeão mundial do salto triplo Teddy Tamgho afirmou que os apoios do atacante lembravam os de “um pequeno canguru”, devido à elasticidade com que Mbappé toca o solo, projeta o corpo e volta a se impulsionar.

O mais surpreendente é que, oito anos depois, quando muitos jogadores começam a perder parte da explosão característica da juventude, Mbappé segue chegando antes dos adversários.

Velocidade de Mbappé não depende apenas do talento natural

A manutenção desse desempenho não é fruto do acaso. Mbappé construiu uma preparação voltada especificamente à preservação da velocidade, levando em consideração suas características musculares, sua forma de correr e a exigência de repetir sprints durante os jogos.

“A velocidade não é apenas inata; exige muito trabalho específico”, explicou o próprio jogador em entrevista ao jornal francês L’Équipe.

Segundo Mbappé, até mesmo a recuperação de uma lesão muscular foi planejada de acordo com seu perfil de fibras musculares, em vez de seguir um protocolo convencional aplicado indistintamente a outros jogadores de futebol.

Esse cuidado personalizado ajuda a explicar por que o francês não apenas preservou sua velocidade máxima, mas também conseguiu aperfeiçoar a maneira de utilizá-la.

No Mundial de 2026, Mbappé alcançou 37,6 km/h, segundo dados atribuídos à Fifa. A marca o colocou acima de outros jogadores conhecidos pela força e pela explosão, como Achraf Hakimi e Erling Haaland, ambos registrados a 35,6 km/h, e Lamine Yamal, que chegou a 35,5 km/h.

A biomecânica de uma arrancada fora do comum

Especialistas em atletismo acompanham há anos a técnica de corrida de Mbappé. Stéphane Caristan, ex-campeão europeu dos 110 metros com barreiras, destacou a posição natural da pelvis do atacante durante o sprint, a frequência elevada dos apoios e a forma como ele “raspa” o solo a cada passada.

Essa técnica, comum entre velocistas do atletismo, permite que Mbappé transfira força para o chão sem perder estabilidade. Cada contato com o gramado funciona como o ponto de partida para uma nova aceleração.

Ele não corre apenas em alta velocidade. Seu diferencial está em continuar produzindo impulso a cada passada.

A principal vantagem do francês, porém, não está necessariamente na velocidade máxima. Ela aparece sobretudo nos primeiros metros.

Teddy Tamgho considera extraordinária a capacidade do jogador de gerar velocidade quase imediatamente, graças à coordenação entre pés, tronco e quadril. No futebol de alto nível, essa característica pode ser ainda mais importante do que alcançar a maior marca possível em linha reta.

A maioria das arrancadas decisivas em uma partida não ultrapassa 30 metros. Dessa forma, o atleta que acelera primeiro conquista uma vantagem que dificilmente será recuperada pelo marcador.

Quando Mbappé inicia o sprint, muitas jogadas já estão praticamente definidas antes que o defensor alcance sua própria velocidade máxima.

Mbappé aprendeu a desacelerar para finalizar melhor

O atacante de 2026, no entanto, não joga exatamente como o jovem que encantou o mundo em 2018. Durante sua passagem pelo Paris Saint-Germain, ele compreendeu que a velocidade também precisa ser controlada.

Sob o comando do técnico Mauricio Pochettino, Mbappé trabalhou a desaceleração nos momentos anteriores à finalização. O objetivo era permitir que o corpo recuperasse equilíbrio e precisão antes do chute.

O próprio atacante relatou que aprendeu a reduzir ligeiramente o ritmo ao entrar na área. Chegar para finalizar a 37 km/h ou 38 km/h dificultava a execução do último movimento técnico.

Hoje, Mbappé seleciona melhor os momentos de acelerar, frear ou mudar de direção. Essa administração do esforço transformou sua velocidade em uma ferramenta mais eficiente e menos previsível.

A evolução mostra que o jogador não está apenas tentando correr cada vez mais rápido. Ele busca correr melhor, no instante correto e com domínio suficiente para decidir a jogada.

Treinamento prioriza explosão e repetição de sprints

A preparação física do francês também se transformou ao longo dos anos. As sessões específicas incluem acelerações curtas, mudanças bruscas de direção, exercícios de reação e aperfeiçoamento da técnica de corrida.

O objetivo já não é simplesmente aumentar a velocidade máxima. O foco está na capacidade de repetir ações explosivas durante toda a partida, mantendo eficiência e precisão mesmo sob desgaste.

“Tudo se decide na arrancada”, afirmou Mbappé ao resumir a filosofia que orienta boa parte de seu trabalho físico.

Essa ideia está ligada à realidade do futebol moderno, no qual pequenos espaços e frações de segundo podem definir um gol. A explosão inicial permite atacar as costas dos defensores, alcançar lançamentos aparentemente longos e criar vantagem antes que a marcação consiga reagir.

Ao mesmo tempo, a repetição de sprints exige um sistema muscular bem preparado e um processo de recuperação rigoroso.

Sono virou parte fundamental do treinamento de Mbappé

Fora de campo, um hábito ocupa lugar central na longevidade física de Mbappé: o sono.

Profissionais que trabalharam com o atacante relatam que ele protege seus períodos de descanso com o mesmo rigor dedicado à alimentação e aos treinamentos. O jogador já destacou publicamente a importância de dormir bem e se recuperar adequadamente.

Para Mbappé, a velocidade depende diretamente de um sistema neuromuscular descansado. Quando o corpo não se recupera, os reflexos ficam mais lentos, a coordenação pode ser prejudicada e a capacidade de produzir força diminui.

No futebol de elite, em que diferenças mínimas podem separar um gol de um desarme, uma noite de sono de qualidade pode ter impacto comparável ao de uma sessão de academia.

O descanso, portanto, não representa uma pausa no treinamento. Ele integra o próprio processo de preparação.

A disciplina se torna ainda mais importante em competições como a Copa do Mundo, nas quais partidas decisivas se acumulam em intervalos curtos e o desgaste físico e mental aumenta a cada rodada.

Alimentação e hidratação sustentam desempenho físico

A dieta do atacante acompanha essa lógica de preservação do corpo. Sua alimentação é baseada em proteínas magras, carboidratos complexos, frutas, verduras e hidratação constante.

Mbappé também limita o consumo de bebidas alcoólicas e alimentos ultraprocessados. A meta é oferecer ao organismo os nutrientes necessários para recuperar músculos, repor energia e manter baixo o nível de inflamação.

A nutrição, contudo, não funciona isoladamente. Em seu entorno, a avaliação é de que nenhuma sessão de musculação consegue compensar uma recuperação deficiente.

Por essa razão, o sono passou a ocupar um espaço quase sagrado dentro de sua rotina. Alimentação, hidratação, descanso e treinamento são tratados como partes inseparáveis de um mesmo projeto esportivo.

A preparação é planejada para que o corpo consiga responder tanto no início da temporada quanto nos momentos mais importantes do calendário, especialmente quando uma Copa do Mundo chega à sua reta decisiva.

O desafio de continuar sendo o mais rápido

Na Rússia, em 2018, Mbappé impressionou porque parecia correr mais rápido do que todos os outros jogadores. Em 2026, o assombro ocorre por uma razão diferente: depois de oito anos, ele continua fazendo praticamente a mesma coisa.

Entre uma Copa e outra, houve milhares de horas de treinamento, recuperação, análise biomecânica, alimentação controlada e noites de sono protegidas.

A velocidade que inicialmente parecia apenas um presente natural tornou-se um projeto permanente de carreira.

Mbappé entendeu que correr mais rápido do que os adversários não depende somente do que acontece quando o estádio está cheio e a bola começa a rolar. Sua vantagem também é construída longe das câmeras, durante as sessões específicas de treinamento e, principalmente, quando as luzes se apagam e começa o processo de recuperação.

 


12.7.26

Deives Picáz do Bolsa Família

 A trajetória de Deives Picáz: do Bolsa Família ao empreendedorismo de impacto 

Influenciador e especialista em diversidade afirma que empresas ainda enfrentam mais barreiras de conhecimento do que de infraestrutura para promover ambientes realmente inclusivos

Conteúdo postado por:Redação Brasil 247Publicado em 12 de julho de 2026 às 10:32Atualizado em 12 de julho de 2026 às 10:47Apoie o 247

Bolsa Família

Bolsa FamíliaCrédito: Lyon Santos/MDS

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Beatriz Bevilaqua, 247 – A deficiência nunca foi o principal obstáculo na vida de Deives Picáz. O maior desafio sempre foi enfrentar o preconceito e a falta de informação. Nascido sem parte do antebraço direito, ele cresceu em escola pública, foi beneficiário do Bolsa Família, ingressou na universidade por meio das políticas de cotas e, anos depois, representou o Brasil na sede da ONU, em Genebra. Hoje, transformou essa trajetória na base da “Inclusão do Zero”, empresa que capacita organizações para construir ambientes mais diversos e inclusivos.

Graduado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e especialista em diversidade, equidade e inclusão, Picáz atua como comunicador, palestrante e consultor. Durante entrevista ao Empreender Brasil, na TV 247, ele explicou como experiências pessoais, políticas públicas e empreendedorismo se cruzaram para dar origem ao seu negócio.

Da exclusão à representatividade

Segundo Picáz, a conexão com a pauta da diversidade nasceu da própria vivência.

“Na verdade, o que me conecta à pauta da diversidade é realmente viver ela. Minha mãe, sem saber que estava grávida, precisou fazer um exame de raio-X e, por conta da radiação, eu nasci sem parte do antebraço direito. Em muitos momentos tive que cobrar pelos meus direitos e afirmar quem eu era.” Essa realidade moldou sua visão sobre inclusão e também sobre o papel da educação na transformação social. 

Antes de empreender, Picáz enfrentou uma realidade comum a milhões de brasileiros. Filho de trabalhadores autônomos, cresceu em uma família de baixa renda, onde o acesso ao ensino superior parecia distante.

Ele conta que o Bolsa Família foi decisivo justamente no momento mais importante da sua formação.

“Foi essencial ter o Bolsa Família acompanhando a minha jornada. Meus pais não tinham nem o ensino fundamental completo. Meu pai fazia pequenos reparos em carros e minha mãe vendia roupas para complementar a renda. Eles não participavam do mercado formal de trabalho e as dificuldades eram constantes.”

O programa permitiu que ele fizesse uma escolha que mudaria seu futuro.

“Com o Bolsa Família, pude dedicar meu tempo aos estudos, me preparar para o Enem e ingressar na universidade. Saí do ensino médio direto para a Universidade Federal do Rio Grande do Sul.”

Além do programa de transferência de renda, Picáz destaca a importância das políticas de cotas.

“Percebo que políticas públicas fizeram muita diferença na minha vida. Além do Bolsa Família, fui aluno cotista na universidade. Entrei pela vaga destinada à pessoa com deficiência e tive apoio para não apenas ingressar, mas concluir o curso.”

Um negócio criado para reduzir a distância entre empresas e inclusão

A ideia da Inclusão do Zero surgiu após uma experiência internacional. Em 2023, enquanto participava do Conselho Jovem do Pacto Global da ONU, Picáz representou o Brasil em um fórum de direitos humanos realizado em Genebra.

Foi durante as conversas com empresas e organizações que ele percebeu uma lacuna recorrente.

“Vi que o que as empresas mais tinham era dificuldade não para estruturar a parte arquitetônica, mas de conhecimento. Faltava reconhecer a pessoa com deficiência como uma trabalhadora capaz de contribuir para o crescimento da empresa. Faltavam direcionamento, clareza e conhecimento.”

Ao retornar ao Brasil, decidiu transformar essa percepção em um empreendimento.

“Eu sentia que precisava criar alguma coisa. Pensei no que faria sentido oferecer para as empresas. Não queria apenas fazer uma palestra e ir embora. Então desenvolvi uma capacitação que introduz diversidade e inclusão desde o começo. Por isso o nome Inclusão do Zero.”

A metodologia foi estruturada em três etapas: introdução aos conceitos de diversidade e inclusão, letramento sobre o preconceito e aplicação prática do conhecimento dentro das empresas. Segundo ele, o diferencial está justamente na combinação entre embasamento técnico e experiência pessoal.

“É conhecimento e vivência para criar algo novo.”

O preconceito começa muito antes do ambiente corporativo

Para Picáz, muitas práticas discriminatórias são reproduzidas sem que as pessoas percebam. Ele afirma que a ausência de educação sobre diversidade desde a infância ajuda a perpetuar comportamentos excludentes.

“As pessoas geralmente falam e nem se dão conta porque não tiveram esse letramento. Não aprendemos sobre diversidade. Aprendemos a fazer bullying, a excluir colegas e a formar grupos que deixam outras pessoas de fora.”

Ao explicar o conceito de capacitismo, ele ressalta que a deficiência costuma ser tratada como um problema, quando deveria ser compreendida como uma característica humana.

“A crença que permanece é de que a deficiência é um problema, quando, na verdade, ela é uma característica humana. Se a sociedade adapta os ambientes em que convivemos, as pessoas com deficiência conseguem acessá-los plenamente.”

A trajetória de Deives Picáz mostra que empreendedorismo também pode nascer da necessidade de transformar estruturas sociais. Mais do que cumprir exigências legais, sua proposta é estimular uma mudança cultural, capaz de ampliar oportunidades, combater preconceitos e tornar os ambientes corporativos mais preparados para reconhecer talentos em toda a sua diversidade.

 

Os ingleses cantam Wonderwall

 Entenda por que os ingleses cantam o clássico Wonderwall, do Oasis, após as vitórias na Copa

Harry Kane puxou o coro depois da classificação sobre a Noruega, e a música voltou a simbolizar a união da torcida inglesa no Mundial

Conteúdo postado por:Redação Brasil 247Publicado em 11 de julho de 2026 às 20:58Atualizado em 11 de julho de 2026 às 21:09

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247 – A classificação dramática da Inglaterra para as semifinais da Copa do Mundo, com a vitória por 2 a 1 sobre a Noruega na prorrogação neste sábado (11), foi celebrada de uma maneira que já se tornou tradição entre jogadores e torcedores ingleses. Logo após o apito final, o capitão Harry Kane puxou o coro de “Wonderwall”, clássico do Oasis lançado em 1995, transformando o estádio em um grande karaokê.

A cena se repete desde a Eurocopa de 2024 e consolidou a canção como um dos hinos não oficiais da seleção inglesa. Embora “Three Lions” continue sendo a música mais tradicional do futebol inglês, “Wonderwall” ganhou espaço por seu caráter emocional e pela identificação geracional com a banda formada pelos irmãos Noel e Liam Gallagher, dois dos maiores ícones da cultura britânica.

O costume de cantar a música após as vitórias começou de forma espontânea. Torcedores passaram a entoar o refrão nas arquibancadas durante grandes conquistas, e os próprios jogadores adotaram o ritual nas comemorações dentro do gramado e nos vestiários. Com o tempo, Harry Kane assumiu o papel de líder do coro, incentivando companheiros e torcida a cantar juntos sempre que a Inglaterra alcança um resultado importante.

Apesar de ser frequentemente interpretada como uma declaração romântica, “Wonderwall” tem um significado mais amplo. Noel Gallagher explicou anos depois que a composição fala sobre alguém que representa um apoio emocional, uma pessoa capaz de ajudar outra a superar seus conflitos internos. A palavra “wonderwall”, sem tradução literal para o português, passou a simbolizar justamente essa figura de amparo, inspiração e esperança.

O caráter contemplativo da música contrasta com o ambiente explosivo do futebol, mas essa diferença ajuda a explicar seu sucesso entre os ingleses. Em vez de um canto de guerra, “Wonderwall” funciona como um momento de comunhão entre jogadores e torcedores, celebrando não apenas a vitória, mas também a identidade cultural compartilhada.

A escolha do Oasis também ganhou uma dimensão simbólica neste Mundial. Após anos de afastamento, Noel e Liam Gallagher retomaram a parceria e voltaram aos palcos em 2026, reacendendo a paixão nacional pela banda. Assim, cada vitória da Inglaterra acaba sendo celebrada com um dos maiores clássicos do britpop, unindo futebol, música e orgulho nacional em uma mesma festa.

Agora, com a Inglaterra classificada para as semifinais após eliminar a Noruega, o coro de “Wonderwall” voltou a ecoar com força. Liderados por Harry Kane, jogadores e torcida transformaram mais uma vez a música em um símbolo da campanha inglesa rumo ao sonho do bicampeonato mundial.

 

Educação à prepotência

 Educação à prepotência. A cultura da arrogância

Quando a arrogância é confundida com força, até a linguagem se transforma em um modelo educativo. Um líder político narcisista e sem consciência de limites pode contribuir para estimular atitudes igualmente prepotentes entre parte da população

Publicado em 11 de julho de 2026 às 11:30

O presidente dos EUA, Donald Trump                                                                            O presidente dos EUA, Donald TrumpCrédito: REUTERS/Kylie Cooper

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Em artigo recente no jornal italiano La Repubblica, o psicoterapeuta e professor universitário Giuseppe Lavenia diz que “Donald Trump deveria ser observado também para além da política. Não apenas pelo que diz, mas pela maneira como diz. Porque a linguagem de uma figura tão exposta jamais permanece confinada ao noticiário: ela penetra no imaginário coletivo, torna-se tom, postura, modelo. Transforma-se em uma maneira possível de viver o conflito, de responder às críticas, de tratar quem pensa de forma diferente.”

Lavenia tem razão. O estilo do presidente norte-americano já é facilmente reconhecível, e serve de ponto de partida a um número infinito de caricaturas e piadas na mídia mundial. Trump se expressa por meio de ataques, simplificações, apelidos ofensivos, frases categóricas e, muitas vezes, brutais. Fica evidente que ele não procura realmente um interlocutor; procura um alvo. Quem discorda não é tratado como alguém com quem se possa dialogar, mas como alguém que precisa ser enfraquecido, ridicularizado, atingido. A palavra não serve para esclarecer, mas para prevalecer. Não constrói o debate; encerra-o. Não aproxima; separa.

Parece evidente que quem se expressa desse modo agressivo e mal educado em geral não desperta muito interesse, simpatia ou admiração – a não ser em pessoas de mente mais tacanha e/ou psiquicamente exaltada. Mas quando esse tipo de comportamento é manifestado por um líder de ressonância mundial, há sim motivo para preocupação e cuidado. Pelo simples fato de que um líder político arrogante e sem consciência de limites pode contribuir para estimular atitudes igualmente prepotentes entre parte da população, embora isso não ocorra de forma automática nem uniforme. O efeito depende de diversos fatores, como a força das instituições, o papel da imprensa, da educação, da cultura política e das convicções prévias dos cidadãos.

A psicologia social oferece algumas explicações para esse fenômeno. Primeiro, existe o mecanismo da modelagem comportamental. As pessoas aprendem não apenas por instrução, mas também por observação e imitação. Quando um líder alcança sucesso político exibindo arrogância, desprezo pelos adversários, insultos ou demonstrações de superioridade, parte de seus apoiadores pode interpretar esse comportamento como legítimo ou até desejável.

Além disso, líderes exercem um importante papel na definição das normas sociais. O que antes era considerado inadequado pode passar a ser visto como aceitável quando é praticado repetidamente pela principal autoridade do país sem consequências políticas relevantes. Psicólogos chamam isso de mudança nas normas descritivas e permissivas: as pessoas ajustam seu comportamento ao que percebem ser socialmente tolerado.

Também existe em psicologia política um fenômeno conhecido como licenciamento moral. Alguns seguidores passam a acreditar que, por estarem defendendo uma causa considerada justa ou necessária, têm autorização para agir com agressividade, intolerância ou desprezo em relação aos que pensam diferente.

Isso não significa que todos os apoiadores de um líder adotem tais comportamentos. Muitos mantêm espírito crítico independente e não reproduzem seus traços pessoais. Tampouco a arrogância coletiva depende apenas da liderança política. Fatores econômicos, culturais, históricos e tecnológicos – como as redes sociais, que frequentemente recompensam discursos agressivos e polarizadores – também desempenham um papel importante.

A história oferece exemplos variados. Líderes de diferentes orientações ideológicas, em diferentes épocas, estimularam culturas políticas marcadas pela intolerância, pelo culto à personalidade e pela desqualificação sistemática dos adversários. Exemplos relativamente recentes? Napoleão Bonaparte, Adolf Hitler, Benito Mussolini, Josef Stalin, Nicolau Ceausescu. Contemporâneos? Donald Trump, Recep Tayyip Erdogan, Vladimir Putin. Entre nós? Jair Bolsonaro.

Do ponto de vista da psicologia, especialmente em diálogo com as ideias de Carl Gustav Jung, pode-se acrescentar uma reflexão: quando um líder encarna impulsos coletivos de grandiosidade, ressentimento ou desejo de poder, ele pode funcionar como um catalisador daquilo que Jung chamou de “sombra coletiva”. Nessa perspectiva, o líder não cria esses impulsos do nada; ele lhes dá voz, legitimidade e direção.

Em suma, é plausível afirmar que um líder arrogante e sem consciência dos próprios limites pode favorecer a disseminação da prepotência em parte da sociedade, principalmente quando sua conduta é percebida como um modelo de sucesso e encontra poucas barreiras institucionais ou culturais.

A arrogância dos líderes costuma ser analisada em conjunto com conceitos como hubris (desmedida, descomedimento), narcisismo, personalismo, culto à personalidade e ilusão de invulnerabilidade. Claro, nem todo líder carismático ou confiante é arrogante; a característica preocupante surge quando ele passa a acreditar que está acima das leis, das instituições, das críticas ou da própria realidade.

Essa é uma questão recorrente desde a Antiguidade. Os gregos chamavam de hubris a desmedida (quase um sinônimo de arrogância) de quem perde a consciência dos próprios limites. Na tragédia grega, a hubris quase sempre antecede a queda, justamente porque o excesso de poder vinha acompanhado da ilusão de invencibilidade. Essa ideia continua sendo uma referência importante para compreender os riscos da concentração de poder em qualquer sistema político, independentemente da orientação ideológica do governante.

Para o psicólogo Giuseppe Lavenia, o risco não é que um jovem escute Trump ou qualquer outro líder político do gênero e se torne arrogante ou agressivo. Essa seria uma leitura simplista. O risco é mais sutil: que ele aprenda um código de comportamento. Que passe a acreditar que, para ser respeitado, é preciso dominar os outros; que admitir um erro significa perder; que quem o contradiz não deve ser ouvido, mas demolido. É nesse momento que a comunicação deixa de ser apenas comunicação e passa a ser educação.

Como diz Lavenia, toda sociedade educa seus filhos não apenas com palavras, mas também por meio daquilo que recompensa. Se recompensamos quem humilha, ensinamos que humilhar funciona. Se tornamos viral quem despreza os outros, ensinamos que o desprezo gera poder. Se confundimos autoridade com opressão, depois não podemos nos surpreender quando os jovens levam essa mesma gramática para os grupos de mensagens, para as salas de aula, para o esporte e para os relacionamentos afetivos.

A questão não é exigir que a política se torne gentil, educada ou domesticada. A política também é conflito, confronto, divergência e dureza. Mas existe uma enorme diferença entre ser firme e desumanizar. Entre dizer algo incômodo e transformar o outro numa caricatura. Entre defender uma posição e precisar, todos os dias, de um inimigo para atacar. 

É justamente isso que deveríamos observar com mais atenção, explica Giuseppe Lavenia. Não Trump como exceção, mas Trump como sintoma. O sintoma de uma cultura que confunde força com dureza, sinceridade com brutalidade, coragem com incapacidade de parar.

A verdadeira força adulta é outra. É saber permanecer no conflito sem transformá-lo em guerra. É dizer verdades incômodas sem destruir a dignidade do outro. É pedir desculpas sem sentir que isso significa ser aniquilado. É defender uma posição sem precisar, permanentemente, de um alvo para atacar.

Hoje, os jovens não precisam de adultos que lhes ensinem a prevalecer sobre os demais. Disso eles já veem exemplos em excesso. Precisam de adultos capazes de mostrar que é possível ser firme sem ser violento, claro sem ser arrogante, forte sem precisar esmagar alguém.

Porque a maneira como falamos jamais é apenas uma questão de estilo. Ela já expressa uma determinada ideia de mundo.

Luis Pellegrini

Autor

Luis Pellegrini

Luís Pellegrini é jornalista e editor da revista Oásis

88 artigos publicados

 

Educação à prepotência. A cultura da arrogância

Quando a arrogância é confundida com força, até a linguagem se transforma em um modelo educativo. Um líder político narcisista e sem consciência de limites pode contribuir para estimular atitudes igualmente prepotentes entre parte da população

Publicado em 11 de julho de 2026 às 11:30

O presidente dos EUA, Donald Trump                                                                            O presidente dos EUA, Donald TrumpCrédito: REUTERS/Kylie Cooper

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Em artigo recente no jornal italiano La Repubblica, o psicoterapeuta e professor universitário Giuseppe Lavenia diz que “Donald Trump deveria ser observado também para além da política. Não apenas pelo que diz, mas pela maneira como diz. Porque a linguagem de uma figura tão exposta jamais permanece confinada ao noticiário: ela penetra no imaginário coletivo, torna-se tom, postura, modelo. Transforma-se em uma maneira possível de viver o conflito, de responder às críticas, de tratar quem pensa de forma diferente.”

Lavenia tem razão. O estilo do presidente norte-americano já é facilmente reconhecível, e serve de ponto de partida a um número infinito de caricaturas e piadas na mídia mundial. Trump se expressa por meio de ataques, simplificações, apelidos ofensivos, frases categóricas e, muitas vezes, brutais. Fica evidente que ele não procura realmente um interlocutor; procura um alvo. Quem discorda não é tratado como alguém com quem se possa dialogar, mas como alguém que precisa ser enfraquecido, ridicularizado, atingido. A palavra não serve para esclarecer, mas para prevalecer. Não constrói o debate; encerra-o. Não aproxima; separa.

Parece evidente que quem se expressa desse modo agressivo e mal educado em geral não desperta muito interesse, simpatia ou admiração – a não ser em pessoas de mente mais tacanha e/ou psiquicamente exaltada. Mas quando esse tipo de comportamento é manifestado por um líder de ressonância mundial, há sim motivo para preocupação e cuidado. Pelo simples fato de que um líder político arrogante e sem consciência de limites pode contribuir para estimular atitudes igualmente prepotentes entre parte da população, embora isso não ocorra de forma automática nem uniforme. O efeito depende de diversos fatores, como a força das instituições, o papel da imprensa, da educação, da cultura política e das convicções prévias dos cidadãos.

A psicologia social oferece algumas explicações para esse fenômeno. Primeiro, existe o mecanismo da modelagem comportamental. As pessoas aprendem não apenas por instrução, mas também por observação e imitação. Quando um líder alcança sucesso político exibindo arrogância, desprezo pelos adversários, insultos ou demonstrações de superioridade, parte de seus apoiadores pode interpretar esse comportamento como legítimo ou até desejável.

Além disso, líderes exercem um importante papel na definição das normas sociais. O que antes era considerado inadequado pode passar a ser visto como aceitável quando é praticado repetidamente pela principal autoridade do país sem consequências políticas relevantes. Psicólogos chamam isso de mudança nas normas descritivas e permissivas: as pessoas ajustam seu comportamento ao que percebem ser socialmente tolerado.

Também existe em psicologia política um fenômeno conhecido como licenciamento moral. Alguns seguidores passam a acreditar que, por estarem defendendo uma causa considerada justa ou necessária, têm autorização para agir com agressividade, intolerância ou desprezo em relação aos que pensam diferente.

Isso não significa que todos os apoiadores de um líder adotem tais comportamentos. Muitos mantêm espírito crítico independente e não reproduzem seus traços pessoais. Tampouco a arrogância coletiva depende apenas da liderança política. Fatores econômicos, culturais, históricos e tecnológicos – como as redes sociais, que frequentemente recompensam discursos agressivos e polarizadores – também desempenham um papel importante.

A história oferece exemplos variados. Líderes de diferentes orientações ideológicas, em diferentes épocas, estimularam culturas políticas marcadas pela intolerância, pelo culto à personalidade e pela desqualificação sistemática dos adversários. Exemplos relativamente recentes? Napoleão Bonaparte, Adolf Hitler, Benito Mussolini, Josef Stalin, Nicolau Ceausescu. Contemporâneos? Donald Trump, Recep Tayyip Erdogan, Vladimir Putin. Entre nós? Jair Bolsonaro.

Do ponto de vista da psicologia, especialmente em diálogo com as ideias de Carl Gustav Jung, pode-se acrescentar uma reflexão: quando um líder encarna impulsos coletivos de grandiosidade, ressentimento ou desejo de poder, ele pode funcionar como um catalisador daquilo que Jung chamou de “sombra coletiva”. Nessa perspectiva, o líder não cria esses impulsos do nada; ele lhes dá voz, legitimidade e direção.

Em suma, é plausível afirmar que um líder arrogante e sem consciência dos próprios limites pode favorecer a disseminação da prepotência em parte da sociedade, principalmente quando sua conduta é percebida como um modelo de sucesso e encontra poucas barreiras institucionais ou culturais.

A arrogância dos líderes costuma ser analisada em conjunto com conceitos como hubris (desmedida, descomedimento), narcisismo, personalismo, culto à personalidade e ilusão de invulnerabilidade. Claro, nem todo líder carismático ou confiante é arrogante; a característica preocupante surge quando ele passa a acreditar que está acima das leis, das instituições, das críticas ou da própria realidade.

Essa é uma questão recorrente desde a Antiguidade. Os gregos chamavam de hubris a desmedida (quase um sinônimo de arrogância) de quem perde a consciência dos próprios limites. Na tragédia grega, a hubris quase sempre antecede a queda, justamente porque o excesso de poder vinha acompanhado da ilusão de invencibilidade. Essa ideia continua sendo uma referência importante para compreender os riscos da concentração de poder em qualquer sistema político, independentemente da orientação ideológica do governante.

Para o psicólogo Giuseppe Lavenia, o risco não é que um jovem escute Trump ou qualquer outro líder político do gênero e se torne arrogante ou agressivo. Essa seria uma leitura simplista. O risco é mais sutil: que ele aprenda um código de comportamento. Que passe a acreditar que, para ser respeitado, é preciso dominar os outros; que admitir um erro significa perder; que quem o contradiz não deve ser ouvido, mas demolido. É nesse momento que a comunicação deixa de ser apenas comunicação e passa a ser educação.

Como diz Lavenia, toda sociedade educa seus filhos não apenas com palavras, mas também por meio daquilo que recompensa. Se recompensamos quem humilha, ensinamos que humilhar funciona. Se tornamos viral quem despreza os outros, ensinamos que o desprezo gera poder. Se confundimos autoridade com opressão, depois não podemos nos surpreender quando os jovens levam essa mesma gramática para os grupos de mensagens, para as salas de aula, para o esporte e para os relacionamentos afetivos.

A questão não é exigir que a política se torne gentil, educada ou domesticada. A política também é conflito, confronto, divergência e dureza. Mas existe uma enorme diferença entre ser firme e desumanizar. Entre dizer algo incômodo e transformar o outro numa caricatura. Entre defender uma posição e precisar, todos os dias, de um inimigo para atacar. 

É justamente isso que deveríamos observar com mais atenção, explica Giuseppe Lavenia. Não Trump como exceção, mas Trump como sintoma. O sintoma de uma cultura que confunde força com dureza, sinceridade com brutalidade, coragem com incapacidade de parar.

A verdadeira força adulta é outra. É saber permanecer no conflito sem transformá-lo em guerra. É dizer verdades incômodas sem destruir a dignidade do outro. É pedir desculpas sem sentir que isso significa ser aniquilado. É defender uma posição sem precisar, permanentemente, de um alvo para atacar.

Hoje, os jovens não precisam de adultos que lhes ensinem a prevalecer sobre os demais. Disso eles já veem exemplos em excesso. Precisam de adultos capazes de mostrar que é possível ser firme sem ser violento, claro sem ser arrogante, forte sem precisar esmagar alguém.

Porque a maneira como falamos jamais é apenas uma questão de estilo. Ela já expressa uma determinada ideia de mundo.

Luis Pellegrini

Autor

Luis Pellegrini

Luís Pellegrini é jornalista e editor da revista Oásis

88 artigos publicados

 

10.7.26

Haaland uma revolução no futebol

 Modelo norueguês desafia lógica do esporte de alto rendimento e transforma Haaland em símbolo de uma revolução no futebol.

Sistema que prioriza inclusão, diversão e desenvolvimento de longo prazo coloca a Noruega entre as surpresas da Copa do Mundo e reacende debate sobre a formação de atletas

Conteúdo postado por:Redação Brasil 247Publicado em 10 de julho de 2026 às 07:55Apoie o 247

Haaland celebra a vitória da Noruega

Haaland celebra a vitória da NoruegaCrédito: Reuters

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247 – O desempenho da Noruega na Copa do Mundo de 2026 está levando especialistas a reavaliar um dos temas mais debatidos no esporte moderno: como formar grandes atletas. Reportagem da Bloomberg mostra que o sucesso da seleção liderada por Erling Haaland não é fruto de um sistema voltado para a competição precoce, mas de um modelo que faz exatamente o oposto: privilegia a participação de todas as crianças, a prática de múltiplos esportes e o desenvolvimento gradual dos talentos.

Enquanto diversos países transformam o esporte infantil em um ambiente altamente competitivo desde os primeiros anos de vida, a Noruega consolidou uma filosofia baseada em outro princípio: “o maior número possível, pelo maior tempo possível e no melhor nível possível”. O objetivo é manter as crianças praticando esportes por prazer, sem a pressão por resultados imediatos. Nesse sistema, a seleção precoce de talentos é desencorajada, e vitórias nas categorias infantis são consideradas secundárias diante do desenvolvimento físico, técnico e emocional dos jovens atletas.

Erling Haaland tornou-se o maior exemplo desse modelo. Criado na pequena cidade de Bryne, o atacante cresceu em um clube comunitário aberto a todas as crianças. Os treinadores eram voluntários e a preocupação principal não era vencer campeonatos, mas garantir que todos jogassem. Dos cerca de 40 meninos daquela geração, 35 permaneceram praticando futebol até a idade adulta. Seis se profissionalizaram e cinco chegaram às seleções de base da Noruega, um índice extraordinariamente elevado para um município de apenas cerca de 14 mil habitantes.

Outro elemento central é a infraestrutura. Mesmo em uma região marcada por longos invernos e poucas horas de luz durante boa parte do ano, Bryne construiu um campo coberto que permitia às crianças jogar durante todo o ano. Isso favorecia o chamado “jogo espontâneo”, considerado por pesquisadores um componente essencial para o desenvolvimento da criatividade e da inteligência esportiva.

A filosofia norueguesa também desencoraja a especialização precoce. Crianças são estimuladas a praticar diferentes modalidades antes de escolher uma carreira esportiva. O próprio Haaland praticou atletismo, handebol e outras atividades durante a infância. Essa diversidade ajuda a desenvolver coordenação motora, capacidade cognitiva e diferentes habilidades físicas, reduzindo também o risco de lesões e do abandono precoce do esporte.

O contraste com o modelo predominante nos Estados Unidos é frequentemente apontado pelos analistas. Lá, o sistema conhecido como pay to play exige elevados investimentos das famílias em clubes, viagens e competições, tornando o acesso ao esporte de alto nível cada vez mais caro. O ex-jogador Landon Donovan chegou a afirmar que, se fosse criança hoje, provavelmente não teria condições financeiras de iniciar sua carreira, criticando um modelo que restringe oportunidades para jovens talentosos de baixa renda.

A ascensão da Noruega ganha ainda mais relevância porque ocorre em um país de pouco mais de 5 milhões de habitantes. Após décadas distante das grandes competições internacionais, a seleção voltou ao cenário mundial impulsionada por uma geração formada dentro desse sistema educacional esportivo. A campanha na Copa do Mundo, marcada por vitórias expressivas e pelo protagonismo de Haaland, passou a ser vista como uma demonstração prática de que políticas públicas voltadas para inclusão, participação e desenvolvimento de longo prazo podem produzir resultados competitivos no mais alto nível.

Mais do que revelar um dos principais atacantes do futebol mundial, o modelo norueguês coloca em discussão uma questão que interessa a dirigentes, treinadores e formuladores de políticas esportivas em diversos países: se o melhor caminho para formar campeões passa menos pela pressão por vitórias na infância e mais pela criação de ambientes em que crianças permaneçam praticando esporte durante muitos anos, por prazer, autonomia e desenvolvimento integral.

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7.7.26

Time de Trump

 O filho de africanos fez o time de Trump cair de quatro

Ontem, em Seattle, os deuses do futebol impuseram o castigo pelos pés de um filho de imigrantes congoleses

Autor Ricardo Amaral

Jornalista

10 artigos publicados

Publicado em 7 de julho de 2026 às 05:06

Lukaku comemora o quarto gol contra os Estados UnidosLukaku comemora o quarto gol contra os Estados UnidosCrédito: Reuters

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Desde a invasão da Suíça pelo FBI em 2015, a Fifa é refém dos EUA, que jamais poderiam sediar um torneio de congraçamento entre os povos

A justiça divina não costuma dar plantão no futebol. Mas de vez em quando ela aparece.

Caiu como um raio ontem em Seattle, na humilhante eliminação dos EUA pela Bélgica.

Nem Trump teve poder de evitar, na manchete do espanhol “Marca”.

Para alegria do mundo livre, na expressão do Juca Kfouri.

Livre, circunscrevo, da vassalagem a Trump. Mas não de seu mandonismo e da ameaça que ele é para a humanidade.

E agora, Trump? Vai meter um tarifaço no chocolate belga?

Vai tascar uma sanção da Magnitsky no “suspeito” árbitro Rafael Claus, que nem fez com o Alexandre de Moraes?

E pra contestar o Trump, vale até atestado de idoneidade da CBF e da Conmebol, né Claus?

Justiça pra ele não vale nada. Aliás, vale só se for a favor. Só a que cabe em seus cofres.

Como a Suprema Corte dos EUA, que lhe concedeu imunidade pelos crimes cometidos de dentro da Casa Branca.

Certamente é por isso que Trump não admite a condenação do vassalo Jair Bolsonaro pelo STF do Brasil.

Nos cofres dele também cabe o tribunal da Fifa, que revogou a suspensão do atacante Balogun, dos EUA, expulso na partida anterior.

E revogou, junto, qualquer simulacro de autoridade sobre o esporte que a direção da Fifa ouse ainda de reivindicar.

A Fifa deixou de ser autoridade faz tempo. Não passa de um guichê para contratos bilionários de transmissão e patrocínio.

A Fifa está nas mãos do Departamento de Justiça dos EUA desde 2015, quando o FBI invadiu a Suíça para prender o antecessor de Infantino, Joseph Blatter.

Blatter e outros dirigentes (incluindo os brasileiros José Maria Marin, Ricardo Teixeira e Del Nero) foram acusados de cobrar propina pelos direitos de transmissão da Copa e outros torneios.

Coisa de 150 milhões de dólares, num esquema com grandes redes de TV, incluindo a Globo, que para sair de cena demitiu o diretor que fazia negócios com a Fifa. 

Lembram? Melhor para a Globo que esqueçam.

Infantino assumiu o lugar do condenado Blatter, numa grande operação-abafa com a cumplicidade da maior parte das confederações e federações de futebol do planeta.

Alguém tem a ilusão de que a batida do FBI na Suíça higienizou os bilionários negócios em torno do futebol?

Melhor iludir-se com o futuro da seleção brasileira.

Não foi por amor a Trump ou desamor pelo futebol que Infantino manchou de vez a Copa de 2026. 

Foi por obrigação, por contrato. Foi por ser parte de uma engrenagem que movimenta bilhões. E que está sujeita aos desígnios do atual presidente dos EUA.

A mesma engrenagem que faz a mídia das classes dominantes do Brasil tratar como fato real o choro farsante do Neymar na eliminação do Brasil.

Como se o país e o mundo não tivessem presenciado seu ataque de estrelismo individualista diante do goleiro da Noruega. 

Mas voltemos à divina eliminação dos EUA, só na bola. Com o delicioso arremate do último gol do Lukaku. 

Não me venham comparar o trumpaço de 2026 com o caso de Mané Garrincha na Copa de 1962.

Garrincha jogou a final contra a hoje dividida Tchecoslováquia, mesmo tendo sido expulso no jogo anterior, a vitória do Brasil sobre o anfitrião Chile.

Naquele tempo não existiam cartão vermelho nem suspensão automática.

A decisão cabia a um tribunal da Fifa, dirigida na época pelo mitológico sir Stanley Rous, isento de simpatias pelo Brasil ou por qualquer seleção que não fosse da Europa.

Mas houve comoção no mundo da bola. Na ausência de Pelé, contundido gravemente na segunda partida do torneio, Garrincha era a estrela daquela Copa.

Tancredo Neves, primeiro-ministro naquele breve período parlamentarista do Brasil, entrou em campo pela seleção canarinha.

Muitos anos depois, no Natal de 1984, às vésperas de se tornar o primeiro presidente civil depois da ditadura, eu e o colega Bob Fernandes ouvimos a história contada pelo próprio Tancredo.

Ele se comprazia de ter telefonado para o presidente do Chile, Jorge Alessandri, pedindo que intercedesse no julgamento de Garrincha. E que Alessandri fez uma carta pública a favor do pleito brasileiro, em nome do bom futebol.

O fato é que tribunal decidiu que Garrincha poderia jogar. A expulsão não estava registrada na súmula e não havia testemunhas contra o craque das pernas tortas.

Mané entrou com febre e pouco fez em campo, mas já tinha cumprido a missão de levar o Brasil à final. Amarildo, o “Possesso”, Zito e Vavá marcaram os gols da vitória por 3 x 1.

Não me venham comparar Tancredo Neves com Donald Trump. Nem sir Stanley Rous com Gianni Infantino. 

Ingerência política na Copa, muito antes do caso Balogun, foi a odiosa perseguição contra a seleção do Irã e seus torcedores.

Foi a crueldade mesquinha de censurar a bandeira nacional na camisa da seleção do Haiti.

As vexatórias e humilhantes revistas à delegação do Senegal.

A deportação do árbitro somali Omar Artan, o melhor juiz africano, por preconceito político e racial.

Os cancelamentos de vistos de torcedores de outros países, apenas de determinados países.

Definitivamente, os Estados Unidos de Donald Trump não mereciam sediar um torneio que é o maior congraçamento entre povos dos mais diferentes países.

Ontem, em Seattle, os deuses do futebol impuseram o castigo pelos pés de um filho de imigrantes congoleses.

Obrigado, Lukaku. Você fez o time do Trump cair de quatro.