Dez anos depois, Dilma está firme e de pé – e os golpistas desmoralizados. Golpeada pelos políticos mais inescrupulosos do País, ela hoje escreve um capítulo importante da construção do mundo multipolar
17 de abril
de 2026, 05:52 hAtualizado em 17 de abril de 2026, 05:54 h
A presidenta
do NDB, Dilma Rousseff, durante a plenária da COP (Foto: Paulo Mumia/COP30)
Dez anos
depois da sessão que marcou o golpe de Estado contra a ex-presidenta Dilma
Rousseff, a história começa já foi reescrita não apenas pelos fatos, mas pela
força incontornável da realidade. O tempo, juiz implacável, tratou de
reposicionar personagens, desmontar farsas e expor as motivações que estavam
por trás de um dos episódios mais sombrios da democracia brasileira.
Dilma
Rousseff, a vítima central daquele processo, não apenas resistiu ao julgamento
distorcido da história imediata, como se reergueu em uma dimensão ainda maior.
Hoje, à frente do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o Banco dos BRICS, em
Xangai, ela ocupa uma posição estratégica no momento mais decisivo da
geopolítica contemporânea: a transição para um mundo multipolar.
Em um
cenário de declínio relativo do poder unipolar dos Estados Unidos e de
fortalecimento de novos polos econômicos e políticos, o NDB surge como
instrumento concreto de financiamento ao desenvolvimento fora das amarras
tradicionais impostas por instituições como o FMI e o Banco Mundial. Dilma,
nesse contexto, tornou-se uma das vozes mais relevantes na defesa de um novo
paradigma global, baseado em soberania, cooperação e desenvolvimento
compartilhado.
Enquanto
isso, os arquitetos do golpe seguem uma trajetória inversa — a da
desmoralização pública e histórica.
O PSDB, que
durante décadas se apresentou como uma alternativa de poder no Brasil, foi
praticamente destruído a partir da aventura política liderada por Aécio Neves.
Incapaz de aceitar o resultado das urnas em 2014, Aécio abriu as portas para
uma escalada de radicalização que culminaria no impeachment sem crime de
responsabilidade. O partido que no passado foi protagonista da política
nacional transformou-se em uma legenda residual, sem identidade e sem
relevância.
Eduardo
Cunha foi o símbolo mais acabado do submundo da política que tomou o centro do
palco naquele período. Foi ele quem conduziu a sessão infame de 17 de abril de
2016, operando o processo com motivações pessoais e interesses nada
republicanos. Sua posterior prisão e condenação por corrupção apenas
confirmaram o que já era evidente: o golpe foi articulado sob a liderança de
personagens comprometidos com o crime.
Michel
Temer, que assumiu a presidência após a queda de Dilma, também não escapou do
desgaste histórico. Seu governo, marcado por medidas impopulares e pela
implementação de uma agenda regressiva, o transformou num dos políticos mais
impopulares da história do País, ainda que apreciado pela Faria Lima. Sua
trajetória agora pode ganhar novos contornos à luz de investigações recentes
envolvendo o banco Master, que começa a revelar conexões perigosas entre o
sistema financeiro e figuras do poder político.
O contraste
não poderia ser mais eloquente. De um lado, uma líder política que foi afastada
sem crime comprovado, mas que retorna ao centro do cenário global como
protagonista de uma nova ordem internacional. De outro, os responsáveis por sua
queda, cada vez mais associados a práticas condenáveis, derrotas políticas e
irrelevância histórica.
A história,
afinal, não absolve arbitrariedades. Ela as expõe.
Dilma
Rousseff está de pé. E mais do que isso: está no lugar certo, na hora certa,
contribuindo para a construção de um mundo mais equilibrado, onde países em
desenvolvimento possam trilhar seus próprios caminhos sem tutelas externas.
Já os
golpistas, dez anos depois, enfrentam o destino que costuma ser reservado
àqueles que conspiram contra a democracia: o da desmoralização e da lata de
lixo da História.
Leonardo
Attuch é jornalista e editor-responsável pelo 247.
534 artigos