22.7.26

Florestan Fernandes 106 anos

 Florestan Fernandes, 106 anos: o intelectual que reinventou a sociologia brasileira e fez da educação um projeto de emancipação nacional

Maior nome da sociologia brasileira, Florestan Fernandes revolucionou as ciências sociais, desmontou o mito da democracia racial, formou gerações de pesquisadores e levou seu compromisso com a justiça social à vida política

Conteúdo postado por:Redação Brasil 247Publicado em 22 de julho de 2026 às 07:13

Apoie o 247

Florestan Fernandes

Florestan FernandesCrédito: Brasil 247 / Dall-E

Seguir no Google Notícias Apoie o 247

247 – Em 22 de julho de 1920 nascia, em São Paulo, Florestan Fernandes, considerado o fundador da moderna sociologia brasileira e um dos maiores intelectuais da história da América Latina. Mais de três décadas após sua morte, sua obra permanece indispensável para compreender as desigualdades sociais, o racismo estrutural, a formação do capitalismo brasileiro, os desafios da democracia e o papel da educação na construção de um país mais justo.

Poucos pensadores exerceram influência tão profunda sobre a universidade brasileira. Florestan praticamente refundou as ciências sociais no país, introduzindo padrões rigorosos de pesquisa, formando dezenas de intelectuais que se tornariam referência nacional e internacional e demonstrando que o conhecimento científico deveria estar comprometido com a transformação da realidade.

Sua trajetória, contudo, talvez seja ainda mais extraordinária do que sua produção intelectual.

Filho de uma empregada doméstica portuguesa, criado em condições de extrema pobreza, trabalhou desde criança como engraxate, entregador, garçom e balconista. Frequentava a escola quando podia, interrompendo repetidamente os estudos para ajudar no sustento da família.

Décadas depois, tornar-se-ia professor catedrático da Universidade de São Paulo e um dos mais respeitados sociólogos do mundo.

Da periferia à Universidade de São Paulo

A história de Florestan Fernandes tornou-se um dos maiores exemplos de ascensão pela educação pública.

Ingressou na Universidade de São Paulo em 1941, quando a instituição ainda dava seus primeiros passos. Rapidamente destacou-se pela impressionante capacidade de estudo, pela disciplina intelectual e pela originalidade de suas pesquisas.

Na USP construiu uma carreira brilhante, transformando o Departamento de Sociologia em um dos principais centros de produção científica da América Latina.

Sob sua orientação formaram-se intelectuais como Fernando Henrique Cardoso, Octavio Ianni, Fernando Novais, Paul Singer, José de Souza Martins, Gabriel Cohn e inúmeros outros pesquisadores que marcariam profundamente as ciências humanas brasileiras.

Seu método combinava rigor empírico, investigação histórica e diálogo permanente com os grandes clássicos da sociologia, especialmente Karl Marx, Max Weber e Émile Durkheim.

A crítica ao mito da democracia racial

Entre suas maiores contribuições está a desconstrução da ideia de que o Brasil seria uma sociedade naturalmente harmoniosa do ponto de vista racial.

Em parceria com o sociólogo francês Roger Bastide e posteriormente em obras próprias, Florestan demonstrou que a abolição da escravidão não significou integração social dos negros.

Ao contrário, a exclusão econômica, política e educacional foi preservada sob novas formas.

Sua obra “A Integração do Negro na Sociedade de Classes”, publicada em dois volumes na década de 1960, permanece um dos estudos mais importantes já realizados sobre o racismo brasileiro.

Florestan mostrou que o preconceito não desapareceu com a República nem com a industrialização. Apenas assumiu mecanismos mais sofisticados de reprodução das desigualdades.

Décadas depois, muitos de seus diagnósticos seriam retomados pelos debates sobre racismo estrutural, ações afirmativas e desigualdade racial.

O capitalismo dependente brasileiro

Outro eixo fundamental de sua obra foi a interpretação da formação econômica e política do Brasil.

Para Florestan, o capitalismo brasileiro desenvolveu-se de maneira dependente, subordinado às potências centrais e incapaz de promover uma verdadeira democratização da riqueza e das oportunidades.

Em livros como “A Revolução Burguesa no Brasil”, ele argumentou que as elites nacionais realizaram uma modernização conservadora: incorporaram avanços econômicos sem romper com estruturas profundamente autoritárias herdadas do período colonial e escravista.

Essa interpretação tornou-se uma das bases da sociologia crítica latino-americana e segue influenciando economistas, cientistas políticos e historiadores.

A resistência à ditadura

O golpe militar de 1964 interrompeu brutalmente sua carreira universitária.

Perseguido pelo regime, Florestan foi aposentado compulsoriamente pela ditadura após a edição do AI-5, em 1969.

Passou vários anos lecionando no exterior, especialmente na Universidade de Toronto, no Canadá, onde continuou produzindo intensamente.

Mesmo distante do Brasil, manteve permanente crítica ao autoritarismo e à repressão política.

Seu retorno ao país coincidiu com o processo de redemocratização.

Educação como instrumento de libertação

Poucos intelectuais defenderam com tanta convicção a escola pública quanto Florestan Fernandes.

Para ele, a educação não era apenas um mecanismo de ascensão individual, mas a principal ferramenta de democratização da sociedade.

Criticava duramente os privilégios educacionais das elites e defendia investimentos maciços na escola pública, gratuita, universal e de qualidade.

Sua própria biografia era frequentemente utilizada como demonstração concreta do potencial transformador da educação.

Sem oportunidades oferecidas pela escola pública, dizia, dificilmente teria conseguido romper o ciclo de pobreza em que nasceu.

O parlamentar da democracia

Nos anos 1980, Florestan decidiu levar suas ideias para a política institucional.

Filiou-se ao Partido dos Trabalhadores e foi eleito deputado federal para a Assembleia Nacional Constituinte de 1988.

Posteriormente, conquistou novo mandato na Câmara dos Deputados.

No Congresso, tornou-se uma das principais vozes em defesa da educação pública, dos direitos sociais, da reforma agrária, da democratização do Estado e da ampliação dos direitos dos trabalhadores.

Sua atuação parlamentar manteve a mesma coerência que caracterizara sua trajetória acadêmica: a produção intelectual jamais esteve dissociada do compromisso político com os setores populares.

Um legado que atravessa gerações

Florestan Fernandes morreu em 10 de agosto de 1995, aos 75 anos.

Seu pensamento, entretanto, permanece extraordinariamente atual.

Os debates sobre desigualdade social, concentração de renda, racismo estrutural, democracia, universidade pública, papel do Estado, desenvolvimento nacional e inclusão social continuam dialogando diretamente com sua obra.

Seu nome batiza escolas, bibliotecas, centros de pesquisa e movimentos populares em todo o Brasil.

Mais do que um grande cientista social, Florestan tornou-se símbolo da possibilidade de unir excelência acadêmica, compromisso democrático e responsabilidade pública.

Num país ainda marcado por profundas desigualdades, sua principal lição permanece viva: a ciência deve servir à emancipação humana, e a educação constitui o caminho mais sólido para construir uma sociedade verdadeiramente democrática.

 

21.7.26

IA chinesa Kimi K3 devastador

 O impacto geopolítico devastador da nova IA chinesa Kimi K3

Há datas que mudam a história da tecnologia, e 16 de julho de 2026 é uma delas

Publicado em 20 de julho de 2026 às 12:26

Seguir no Google Notícias Apoie o 247

Há datas que mudam a história da tecnologia, e 16 de julho de 2026 é uma delas. Nesse dia, a startup chinesa Moonshot AI lançou o Kimi K3, um modelo de inteligência artificial de 2,8 trilhões de parâmetros que rivaliza com os sistemas mais avançados dos Estados Unidos.

H

A verdadeira bomba, porém, não está no tamanho nem nos rankings. Está na promessa da Moonshot de liberar, até 27 de julho, os pesos completos do modelo, o código e um relatório técnico detalhando arquitetura e treinamento, tudo em regime aberto, para toda a humanidade.

Para entender a dimensão do terremoto, é preciso recuar alguns anos. Desde 2019, com o cerco à Huawei, e sobretudo a partir de outubro de 2022, Washington ergueu a mais ambiciosa muralha de sanções tecnológicas do nosso tempo, proibindo a venda à China dos chips de ponta da Nvidia e das máquinas de litografia da holandesa ASML.

O objetivo declarado era simples e brutal: barrar o avanço chinês rumo à fronteira da inteligência artificial. A aposta era que, sem acesso ao melhor silício do planeta, os laboratórios de Pequim ficariam permanentemente uma geração atrás.

A paranoia atingiu o ápice em junho deste ano, num episódio digno de romance de espionagem. Em 9 de junho, a Anthropic lançou o Fable 5 e o Mythos 5, o topo de linha mais caro já oferecido pela empresa, sendo o segundo tão sensível em cibersegurança que só foi entregue a um punhado de parceiros selecionados.

Três dias depois, o governo americano, invocando poderes de segurança nacional, ordenou a suspensão de todo o acesso aos dois modelos por qualquer estrangeiro, dentro ou fora dos Estados Unidos. A ordem alcançava até os funcionários não americanos da própria Anthropic, que se viu obrigada a tirá-los do ar para todos os seus clientes.

Foi o uso mais agressivo de controles de exportação já aplicado a uma inteligência artificial comercial. O recado era inequívoco: o topo da IA é um arsenal americano, e o resto do mundo só o acessará sob licença, vigilância e condições ditadas pela Casa Branca.

A União Europeia, sempre servil, entendeu e correu para obedecer. Em junho, os embaixadores do bloco aprovaram a adesão à Pax Silica, a aliança de chips liderada pelos Estados Unidos criada explicitamente para isolar a China, iniciativa que a própria França denunciou como uma tentativa de colonizar a Europa.

Duas semanas depois de os americanos esconderem sua joia da coroa, a China respondeu abrindo a sua para o mundo inteiro.

O Kimi K3 é o maior modelo aberto já criado, o primeiro da classe de 3 trilhões de parâmetros, com janela de contexto de 1 milhão de tokens e capacidade multimodal nativa. Nos benchmarks, ficou entre os três primeiros em seis testes de programação, liderou o SWE Marathon e o Program Bench e assumiu o primeiro lugar no ranking de código frontend da LMArena.

Avaliações independentes o colocam no nível do Claude Opus 4.8 e do GPT-5.5, superando ambos em diversas tarefas de programação e agentes. O cofundador da plataforma Arena chegou a dizer que este pode ser o lançamento decisivo do ano, o momento em que os modelos abertos chineses alcançam os fechados americanos.

O preço completa a humilhação: 3 dólares por milhão de tokens de entrada e 15 na saída, contra os 10 e 50 cobrados pelo Fable 5. Cada dólar compra 20 mil tokens de resposta do modelo americano e 66 mil do chinês.

Traduzindo em trabalho real: uma pesquisa de dez páginas sobre um tema médico complexo, em que a máquina lê 200 mil tokens de artigos científicos e escreve 30 mil, sai por cerca de 3,50 dólares no Fable 5 e pouco mais de 1 dólar no Kimi K3. Multiplicada por milhares de tarefas diárias num jornal, num hospital ou num ministério, essa diferença decide orçamentos inteiros.

A reação dos mercados foi imediata, com ações despencando e investidores refazendo suas contas sobre quanto vale uma IA proprietária trancada a sete chaves.

É aqui que entra o significado geopolítico profundo do lançamento. Quando os pesos forem publicados, qualquer governo do Sul Global, qualquer universidade, qualquer empresa poderá baixar o modelo e rodá-lo em seus próprios servidores, sem pedir licença a Washington, sem enviar dados para a nuvem americana, sem medo de acordar com o acesso cortado por uma canetada.

Isso tem nome: soberania de inteligência artificial. A ditadura das IAs americanas, sustentada por APIs fechadas, preços extorsivos e chantagem regulatória, acaba de sofrer seu golpe mais duro.

A Europa, que assinou seu compromisso de vassalagem semanas antes, deve estar agora com a cara de quem apostou todas as fichas no cavalo errado. Quem se recusar a usar os modelos abertos chineses, mais baratos e tecnicamente equivalentes aos melhores do mundo, simplesmente ficará para trás.

Há ainda uma ironia final neste enredo, e ela tem rosto e biografia. O criador do Kimi K3 é Yang Zhilin, um jovem de 34 anos nascido em Shantou, na província de Guangdong, formado em Tsinghua e com doutorado concluído em apenas quatro anos na Carnegie Mellon, nos Estados Unidos, com passagens pelo Google Brain e pela Meta.

Era exatamente o perfil que a América costumava capturar e reter. Ele recusou uma oferta de emprego da Apple e voltou para a China, e seu próprio orientador em Carnegie Mellon admitiu publicamente que os obstáculos migratórios americanos afastam até os melhores quadros vindos de fora.

O caso não é isolado: nos últimos anos, sob clima de suspeição generalizada contra cientistas de origem chinesa, incluindo cidadãos americanos, uma geração inteira de pesquisadores deixou os Estados Unidos rumo a um ambiente de respeito e recursos abundantes. A xenofobia americana está literalmente exportando os cérebros que construirão a supremacia tecnológica chinesa.

O resultado está diante dos nossos olhos. As sanções que deveriam sufocar a China a obrigaram a inovar em eficiência, os controles de exportação viraram propaganda involuntária dos modelos abertos, e o próprio governo dos Estados Unidos, ao desligar por decreto sua IA mais avançada, demonstrou por que ninguém deveria depender dela.

Em 27 de julho, se a Moonshot cumprir o prometido, os pesos do Kimi K3 estarão disponíveis para download em qualquer país. Nesse dia, a história da inteligência artificial mudará para sempre.

Conexão China, com Miguel do Rosário

Autor

Conexão China, com Miguel do Rosário

Jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje

27 artigos publicados

 

20.7.26

Jogadores que evitaram Donald Trump

 Quais foram os jogadores da Argentina e Espanha que evitaram Donald Trump

Jogadores protagonizaram momentos de distanciamento em relação a Donald Trump

Conteúdo postado por:Laís GouveiaPublicado em 20 de julho de 2026 às 06:35Atualizado em 20 de julho de 2026 às 08:05Apoie o 247

Donald Trump e Gianni Infantino

Donald Trump e Gianni InfantinoCrédito: Reuters

Seguir no Google Notícias Apoie o 247

247 – Cristian Romero, da Argentina, e Borja Iglesias, da Espanha, protagonizaram momentos de distanciamento em relação a Donald Trump durante a cerimônia de premiação da Copa do Mundo de 2026. O argentino não cumprimentou o presidente dos Estados Unidos, enquanto o espanhol fez um contato rápido e seguiu pelo palco quase sem olhar para o político.

As atitudes ocorreram após a vitória da Espanha por 1 a 0 sobre a Argentina na final disputada no MetLife Stadium, em Nova Jersey. Trump participou da entrega das medalhas ao lado do presidente da Fifa, Gianni Infantino, e também esteve presente no momento em que o capitão Rodri recebeu a taça.

Romero passou pela fila de autoridades sem falar ou apertar a mão de Trump. O comportamento do zagueiro argentino chamou atenção porque os demais integrantes das duas seleções cumprimentaram o presidente norte-americano durante a passagem pelo pódio.

A reação de Borja Iglesias foi diferente, mas também demonstrou desconforto. Ao receber a medalha de campeão mundial, o atacante espanhol apertou rapidamente a mão de Trump, evitou prolongar o contato visual e seguiu imediatamente para encontrar os companheiros.

https://x.com/leylahamed/status/2078977582377115677

O jogador já havia antecipado que não desejava permanecer muito tempo diante do presidente dos Estados Unidos. Questionado antes da decisão sobre como reagiria ao encontro, Iglesias respondeu:

“Não quero que me mandem à prisão (risos). Espero que passe muito rápido e eu me esqueça.”

Conhecido por manifestações políticas públicas, o atacante espanhol já havia criticado Trump. Em maio, durante uma participação no programa espanhol “La Revuelta”, Iglesias afirmou que era contrário ao político norte-americano porque “gosta das pessoas que lutam pelo progresso e pela defesa dos valores fundamentais”.

Na véspera da final, o jogador também usou as redes sociais para classificar como “vergonha” os preços cobrados pelos ingressos da decisão. Algumas entradas chegaram a ser oferecidas no mercado de revenda por valores equivalentes a R$ 47 mil.

Trump foi recebido com vaias vindas de diferentes setores do estádio quando entrou no gramado para a cerimônia. Também houve aplausos, mas a manifestação contrária ao presidente foi ouvida durante sua caminhada até o palco.

A participação de Trump não terminou com a entrega das medalhas. Depois de ajudar Infantino a entregar o troféu a Rodri, o presidente permaneceu no centro do pódio enquanto os jogadores espanhóis se preparavam para levantar a taça.

Com isso, Trump apareceu ao lado da seleção campeã em uma das imagens mais simbólicas da competição: o primeiro momento em que o troféu foi erguido. Sua presença na entrega havia sido anunciada previamente por Infantino, mas a permanência no palco durante o início da comemoração ultrapassou a função inicialmente prevista.

A atuação de Trump em assuntos relacionados ao torneio já havia provocado controvérsia durante a Copa. Uma ligação do presidente norte-americano para Infantino foi apontada como parte da mobilização que antecedeu a suspensão da punição ao atacante Folarin Balogun, expulso na vitória dos Estados Unidos sobre a Bósnia e Herzegovina.

Após o Comitê Disciplinar da Fifa permitir que Balogun enfrentasse a Bélgica nas oitavas de final, Trump comemorou a decisão nas redes sociais:

“Obrigado à FIFA por fazer o que era certo e reverter uma grande injustiça.”

Na premiação da final, Romero adotou a atitude mais direta ao passar sem cumprimentar Trump. Borja Iglesias, por sua vez, manteve apenas o contato protocolar que havia indicado antes da partida, encerrando rapidamente o encontro com o presidente norte-americano.

 

16.7.26

Renato Janine Ribeiro Professor e ex-ministro da Educação do Brasil

 E aí... Parecia que a seleção francesa, les Bleus ( = os azuis), era imparável, para usar o termo que em Portugal se emprega mas aqui não (até a semana passada, quando apareceu por cá...). "Ninguém segura(va) esse país", para fazer outra citaçao, essa brasileira, mas também da direita (anos 70).

E surgiu a Espanha, com um jogo impecável e implacável. Não foi apenas uma defesa primorosa, tanto assim que os franceses nem conseguiam chutar para gol; foi um ataque de qualidade.

Abrir o placar com gol de pênalti não me emocionou. Não vale, a meu ver, o mesmo que um gol de bola correndo. Mas veio um gol assim, perfeito - e depois um 3.o gol espanhol, anulado este, mas que deu a certeza moral de que La Roja ou (como prefiro) La Furia estava com tudo.

Fiquei com pena de Mbappé e da seleção mais preta do que branca, multirracial, moderna, da França, país ao qual me unem laços afetivos fortes. Mas eles perderam com decência e têm anos pela frente.

 

Foi um belo jogo.

14.7.26

Mbappé desafia o tempo

Entenda como Mbappé desafia o tempo e mantém velocidade de 37,6 km/h oito anos depois da Copa da Rússia

Sono, recuperação e treinamento específico ajudam o atacante francês a preservar uma explosão física considerada fora do comum no futebol mundial

Conteúdo postado por:Redação Brasil 247Publicado em 14 de julho de 2026 às 07:42Apoie o 247

                  Mbappé                                                                                                                                              MbappéCrédito: Brasil247 / Dall-E

Seguir no Google Notícias Apoie o 247

247 — Oito anos depois de protagonizar uma das arrancadas mais impressionantes da história recente das Copas do Mundo, Kylian Mbappé continua sendo praticamente inalcançável quando encontra espaço para acelerar. Aos 27 anos, o atacante francês chegou a 37,6 km/h no Mundial de 2026 e demonstrou que sua principal arma física permanece tão devastadora quanto na histórica campanha da França na Rússia, em 2018.

As informações foram publicadas pelo jornal peruano El Comercio, que detalhou como a combinação de características naturais, treinamento específico, controle dos movimentos, alimentação e uma dedicação quase obsessiva ao sono permite ao jogador conservar um nível extraordinário de explosão física.

A imagem que apresentou Mbappé definitivamente ao mundo aconteceu nas oitavas de final da Copa da Rússia, contra a Argentina. Ainda com 19 anos, ele percorreu cerca de 70 metros conduzindo a bola, atingiu uma velocidade próxima de 37 km/h, deixou a defesa argentina para trás e sofreu o pênalti que abriu caminho para a vitória francesa por 4 a 3.

O lance foi tão impactante que Mbappé passou a ser chamado de “37” dentro do vestiário da seleção francesa. Fora dele, ganhou uma comparação ainda mais curiosa.

O ex-campeão mundial do salto triplo Teddy Tamgho afirmou que os apoios do atacante lembravam os de “um pequeno canguru”, devido à elasticidade com que Mbappé toca o solo, projeta o corpo e volta a se impulsionar.

O mais surpreendente é que, oito anos depois, quando muitos jogadores começam a perder parte da explosão característica da juventude, Mbappé segue chegando antes dos adversários.

Velocidade de Mbappé não depende apenas do talento natural

A manutenção desse desempenho não é fruto do acaso. Mbappé construiu uma preparação voltada especificamente à preservação da velocidade, levando em consideração suas características musculares, sua forma de correr e a exigência de repetir sprints durante os jogos.

“A velocidade não é apenas inata; exige muito trabalho específico”, explicou o próprio jogador em entrevista ao jornal francês L’Équipe.

Segundo Mbappé, até mesmo a recuperação de uma lesão muscular foi planejada de acordo com seu perfil de fibras musculares, em vez de seguir um protocolo convencional aplicado indistintamente a outros jogadores de futebol.

Esse cuidado personalizado ajuda a explicar por que o francês não apenas preservou sua velocidade máxima, mas também conseguiu aperfeiçoar a maneira de utilizá-la.

No Mundial de 2026, Mbappé alcançou 37,6 km/h, segundo dados atribuídos à Fifa. A marca o colocou acima de outros jogadores conhecidos pela força e pela explosão, como Achraf Hakimi e Erling Haaland, ambos registrados a 35,6 km/h, e Lamine Yamal, que chegou a 35,5 km/h.

A biomecânica de uma arrancada fora do comum

Especialistas em atletismo acompanham há anos a técnica de corrida de Mbappé. Stéphane Caristan, ex-campeão europeu dos 110 metros com barreiras, destacou a posição natural da pelvis do atacante durante o sprint, a frequência elevada dos apoios e a forma como ele “raspa” o solo a cada passada.

Essa técnica, comum entre velocistas do atletismo, permite que Mbappé transfira força para o chão sem perder estabilidade. Cada contato com o gramado funciona como o ponto de partida para uma nova aceleração.

Ele não corre apenas em alta velocidade. Seu diferencial está em continuar produzindo impulso a cada passada.

A principal vantagem do francês, porém, não está necessariamente na velocidade máxima. Ela aparece sobretudo nos primeiros metros.

Teddy Tamgho considera extraordinária a capacidade do jogador de gerar velocidade quase imediatamente, graças à coordenação entre pés, tronco e quadril. No futebol de alto nível, essa característica pode ser ainda mais importante do que alcançar a maior marca possível em linha reta.

A maioria das arrancadas decisivas em uma partida não ultrapassa 30 metros. Dessa forma, o atleta que acelera primeiro conquista uma vantagem que dificilmente será recuperada pelo marcador.

Quando Mbappé inicia o sprint, muitas jogadas já estão praticamente definidas antes que o defensor alcance sua própria velocidade máxima.

Mbappé aprendeu a desacelerar para finalizar melhor

O atacante de 2026, no entanto, não joga exatamente como o jovem que encantou o mundo em 2018. Durante sua passagem pelo Paris Saint-Germain, ele compreendeu que a velocidade também precisa ser controlada.

Sob o comando do técnico Mauricio Pochettino, Mbappé trabalhou a desaceleração nos momentos anteriores à finalização. O objetivo era permitir que o corpo recuperasse equilíbrio e precisão antes do chute.

O próprio atacante relatou que aprendeu a reduzir ligeiramente o ritmo ao entrar na área. Chegar para finalizar a 37 km/h ou 38 km/h dificultava a execução do último movimento técnico.

Hoje, Mbappé seleciona melhor os momentos de acelerar, frear ou mudar de direção. Essa administração do esforço transformou sua velocidade em uma ferramenta mais eficiente e menos previsível.

A evolução mostra que o jogador não está apenas tentando correr cada vez mais rápido. Ele busca correr melhor, no instante correto e com domínio suficiente para decidir a jogada.

Treinamento prioriza explosão e repetição de sprints

A preparação física do francês também se transformou ao longo dos anos. As sessões específicas incluem acelerações curtas, mudanças bruscas de direção, exercícios de reação e aperfeiçoamento da técnica de corrida.

O objetivo já não é simplesmente aumentar a velocidade máxima. O foco está na capacidade de repetir ações explosivas durante toda a partida, mantendo eficiência e precisão mesmo sob desgaste.

“Tudo se decide na arrancada”, afirmou Mbappé ao resumir a filosofia que orienta boa parte de seu trabalho físico.

Essa ideia está ligada à realidade do futebol moderno, no qual pequenos espaços e frações de segundo podem definir um gol. A explosão inicial permite atacar as costas dos defensores, alcançar lançamentos aparentemente longos e criar vantagem antes que a marcação consiga reagir.

Ao mesmo tempo, a repetição de sprints exige um sistema muscular bem preparado e um processo de recuperação rigoroso.

Sono virou parte fundamental do treinamento de Mbappé

Fora de campo, um hábito ocupa lugar central na longevidade física de Mbappé: o sono.

Profissionais que trabalharam com o atacante relatam que ele protege seus períodos de descanso com o mesmo rigor dedicado à alimentação e aos treinamentos. O jogador já destacou publicamente a importância de dormir bem e se recuperar adequadamente.

Para Mbappé, a velocidade depende diretamente de um sistema neuromuscular descansado. Quando o corpo não se recupera, os reflexos ficam mais lentos, a coordenação pode ser prejudicada e a capacidade de produzir força diminui.

No futebol de elite, em que diferenças mínimas podem separar um gol de um desarme, uma noite de sono de qualidade pode ter impacto comparável ao de uma sessão de academia.

O descanso, portanto, não representa uma pausa no treinamento. Ele integra o próprio processo de preparação.

A disciplina se torna ainda mais importante em competições como a Copa do Mundo, nas quais partidas decisivas se acumulam em intervalos curtos e o desgaste físico e mental aumenta a cada rodada.

Alimentação e hidratação sustentam desempenho físico

A dieta do atacante acompanha essa lógica de preservação do corpo. Sua alimentação é baseada em proteínas magras, carboidratos complexos, frutas, verduras e hidratação constante.

Mbappé também limita o consumo de bebidas alcoólicas e alimentos ultraprocessados. A meta é oferecer ao organismo os nutrientes necessários para recuperar músculos, repor energia e manter baixo o nível de inflamação.

A nutrição, contudo, não funciona isoladamente. Em seu entorno, a avaliação é de que nenhuma sessão de musculação consegue compensar uma recuperação deficiente.

Por essa razão, o sono passou a ocupar um espaço quase sagrado dentro de sua rotina. Alimentação, hidratação, descanso e treinamento são tratados como partes inseparáveis de um mesmo projeto esportivo.

A preparação é planejada para que o corpo consiga responder tanto no início da temporada quanto nos momentos mais importantes do calendário, especialmente quando uma Copa do Mundo chega à sua reta decisiva.

O desafio de continuar sendo o mais rápido

Na Rússia, em 2018, Mbappé impressionou porque parecia correr mais rápido do que todos os outros jogadores. Em 2026, o assombro ocorre por uma razão diferente: depois de oito anos, ele continua fazendo praticamente a mesma coisa.

Entre uma Copa e outra, houve milhares de horas de treinamento, recuperação, análise biomecânica, alimentação controlada e noites de sono protegidas.

A velocidade que inicialmente parecia apenas um presente natural tornou-se um projeto permanente de carreira.

Mbappé entendeu que correr mais rápido do que os adversários não depende somente do que acontece quando o estádio está cheio e a bola começa a rolar. Sua vantagem também é construída longe das câmeras, durante as sessões específicas de treinamento e, principalmente, quando as luzes se apagam e começa o processo de recuperação.

 


12.7.26

Deives Picáz do Bolsa Família

 A trajetória de Deives Picáz: do Bolsa Família ao empreendedorismo de impacto 

Influenciador e especialista em diversidade afirma que empresas ainda enfrentam mais barreiras de conhecimento do que de infraestrutura para promover ambientes realmente inclusivos

Conteúdo postado por:Redação Brasil 247Publicado em 12 de julho de 2026 às 10:32Atualizado em 12 de julho de 2026 às 10:47Apoie o 247

Bolsa Família

Bolsa FamíliaCrédito: Lyon Santos/MDS

Seguir no Google Notícias Apoie o 247

Beatriz Bevilaqua, 247 – A deficiência nunca foi o principal obstáculo na vida de Deives Picáz. O maior desafio sempre foi enfrentar o preconceito e a falta de informação. Nascido sem parte do antebraço direito, ele cresceu em escola pública, foi beneficiário do Bolsa Família, ingressou na universidade por meio das políticas de cotas e, anos depois, representou o Brasil na sede da ONU, em Genebra. Hoje, transformou essa trajetória na base da “Inclusão do Zero”, empresa que capacita organizações para construir ambientes mais diversos e inclusivos.

Graduado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e especialista em diversidade, equidade e inclusão, Picáz atua como comunicador, palestrante e consultor. Durante entrevista ao Empreender Brasil, na TV 247, ele explicou como experiências pessoais, políticas públicas e empreendedorismo se cruzaram para dar origem ao seu negócio.

Da exclusão à representatividade

Segundo Picáz, a conexão com a pauta da diversidade nasceu da própria vivência.

“Na verdade, o que me conecta à pauta da diversidade é realmente viver ela. Minha mãe, sem saber que estava grávida, precisou fazer um exame de raio-X e, por conta da radiação, eu nasci sem parte do antebraço direito. Em muitos momentos tive que cobrar pelos meus direitos e afirmar quem eu era.” Essa realidade moldou sua visão sobre inclusão e também sobre o papel da educação na transformação social. 

Antes de empreender, Picáz enfrentou uma realidade comum a milhões de brasileiros. Filho de trabalhadores autônomos, cresceu em uma família de baixa renda, onde o acesso ao ensino superior parecia distante.

Ele conta que o Bolsa Família foi decisivo justamente no momento mais importante da sua formação.

“Foi essencial ter o Bolsa Família acompanhando a minha jornada. Meus pais não tinham nem o ensino fundamental completo. Meu pai fazia pequenos reparos em carros e minha mãe vendia roupas para complementar a renda. Eles não participavam do mercado formal de trabalho e as dificuldades eram constantes.”

O programa permitiu que ele fizesse uma escolha que mudaria seu futuro.

“Com o Bolsa Família, pude dedicar meu tempo aos estudos, me preparar para o Enem e ingressar na universidade. Saí do ensino médio direto para a Universidade Federal do Rio Grande do Sul.”

Além do programa de transferência de renda, Picáz destaca a importância das políticas de cotas.

“Percebo que políticas públicas fizeram muita diferença na minha vida. Além do Bolsa Família, fui aluno cotista na universidade. Entrei pela vaga destinada à pessoa com deficiência e tive apoio para não apenas ingressar, mas concluir o curso.”

Um negócio criado para reduzir a distância entre empresas e inclusão

A ideia da Inclusão do Zero surgiu após uma experiência internacional. Em 2023, enquanto participava do Conselho Jovem do Pacto Global da ONU, Picáz representou o Brasil em um fórum de direitos humanos realizado em Genebra.

Foi durante as conversas com empresas e organizações que ele percebeu uma lacuna recorrente.

“Vi que o que as empresas mais tinham era dificuldade não para estruturar a parte arquitetônica, mas de conhecimento. Faltava reconhecer a pessoa com deficiência como uma trabalhadora capaz de contribuir para o crescimento da empresa. Faltavam direcionamento, clareza e conhecimento.”

Ao retornar ao Brasil, decidiu transformar essa percepção em um empreendimento.

“Eu sentia que precisava criar alguma coisa. Pensei no que faria sentido oferecer para as empresas. Não queria apenas fazer uma palestra e ir embora. Então desenvolvi uma capacitação que introduz diversidade e inclusão desde o começo. Por isso o nome Inclusão do Zero.”

A metodologia foi estruturada em três etapas: introdução aos conceitos de diversidade e inclusão, letramento sobre o preconceito e aplicação prática do conhecimento dentro das empresas. Segundo ele, o diferencial está justamente na combinação entre embasamento técnico e experiência pessoal.

“É conhecimento e vivência para criar algo novo.”

O preconceito começa muito antes do ambiente corporativo

Para Picáz, muitas práticas discriminatórias são reproduzidas sem que as pessoas percebam. Ele afirma que a ausência de educação sobre diversidade desde a infância ajuda a perpetuar comportamentos excludentes.

“As pessoas geralmente falam e nem se dão conta porque não tiveram esse letramento. Não aprendemos sobre diversidade. Aprendemos a fazer bullying, a excluir colegas e a formar grupos que deixam outras pessoas de fora.”

Ao explicar o conceito de capacitismo, ele ressalta que a deficiência costuma ser tratada como um problema, quando deveria ser compreendida como uma característica humana.

“A crença que permanece é de que a deficiência é um problema, quando, na verdade, ela é uma característica humana. Se a sociedade adapta os ambientes em que convivemos, as pessoas com deficiência conseguem acessá-los plenamente.”

A trajetória de Deives Picáz mostra que empreendedorismo também pode nascer da necessidade de transformar estruturas sociais. Mais do que cumprir exigências legais, sua proposta é estimular uma mudança cultural, capaz de ampliar oportunidades, combater preconceitos e tornar os ambientes corporativos mais preparados para reconhecer talentos em toda a sua diversidade.

 

Os ingleses cantam Wonderwall

 Entenda por que os ingleses cantam o clássico Wonderwall, do Oasis, após as vitórias na Copa

Harry Kane puxou o coro depois da classificação sobre a Noruega, e a música voltou a simbolizar a união da torcida inglesa no Mundial

Conteúdo postado por:Redação Brasil 247Publicado em 11 de julho de 2026 às 20:58Atualizado em 11 de julho de 2026 às 21:09

Apoie o 247

Seguir no Google Notícias Apoie o 247

247 – A classificação dramática da Inglaterra para as semifinais da Copa do Mundo, com a vitória por 2 a 1 sobre a Noruega na prorrogação neste sábado (11), foi celebrada de uma maneira que já se tornou tradição entre jogadores e torcedores ingleses. Logo após o apito final, o capitão Harry Kane puxou o coro de “Wonderwall”, clássico do Oasis lançado em 1995, transformando o estádio em um grande karaokê.

A cena se repete desde a Eurocopa de 2024 e consolidou a canção como um dos hinos não oficiais da seleção inglesa. Embora “Three Lions” continue sendo a música mais tradicional do futebol inglês, “Wonderwall” ganhou espaço por seu caráter emocional e pela identificação geracional com a banda formada pelos irmãos Noel e Liam Gallagher, dois dos maiores ícones da cultura britânica.

O costume de cantar a música após as vitórias começou de forma espontânea. Torcedores passaram a entoar o refrão nas arquibancadas durante grandes conquistas, e os próprios jogadores adotaram o ritual nas comemorações dentro do gramado e nos vestiários. Com o tempo, Harry Kane assumiu o papel de líder do coro, incentivando companheiros e torcida a cantar juntos sempre que a Inglaterra alcança um resultado importante.

Apesar de ser frequentemente interpretada como uma declaração romântica, “Wonderwall” tem um significado mais amplo. Noel Gallagher explicou anos depois que a composição fala sobre alguém que representa um apoio emocional, uma pessoa capaz de ajudar outra a superar seus conflitos internos. A palavra “wonderwall”, sem tradução literal para o português, passou a simbolizar justamente essa figura de amparo, inspiração e esperança.

O caráter contemplativo da música contrasta com o ambiente explosivo do futebol, mas essa diferença ajuda a explicar seu sucesso entre os ingleses. Em vez de um canto de guerra, “Wonderwall” funciona como um momento de comunhão entre jogadores e torcedores, celebrando não apenas a vitória, mas também a identidade cultural compartilhada.

A escolha do Oasis também ganhou uma dimensão simbólica neste Mundial. Após anos de afastamento, Noel e Liam Gallagher retomaram a parceria e voltaram aos palcos em 2026, reacendendo a paixão nacional pela banda. Assim, cada vitória da Inglaterra acaba sendo celebrada com um dos maiores clássicos do britpop, unindo futebol, música e orgulho nacional em uma mesma festa.

Agora, com a Inglaterra classificada para as semifinais após eliminar a Noruega, o coro de “Wonderwall” voltou a ecoar com força. Liderados por Harry Kane, jogadores e torcida transformaram mais uma vez a música em um símbolo da campanha inglesa rumo ao sonho do bicampeonato mundial.

 

Educação à prepotência

 Educação à prepotência. A cultura da arrogância

Quando a arrogância é confundida com força, até a linguagem se transforma em um modelo educativo. Um líder político narcisista e sem consciência de limites pode contribuir para estimular atitudes igualmente prepotentes entre parte da população

Publicado em 11 de julho de 2026 às 11:30

O presidente dos EUA, Donald Trump                                                                            O presidente dos EUA, Donald TrumpCrédito: REUTERS/Kylie Cooper

Seguir no Google Notícias Apoie o 247

Em artigo recente no jornal italiano La Repubblica, o psicoterapeuta e professor universitário Giuseppe Lavenia diz que “Donald Trump deveria ser observado também para além da política. Não apenas pelo que diz, mas pela maneira como diz. Porque a linguagem de uma figura tão exposta jamais permanece confinada ao noticiário: ela penetra no imaginário coletivo, torna-se tom, postura, modelo. Transforma-se em uma maneira possível de viver o conflito, de responder às críticas, de tratar quem pensa de forma diferente.”

Lavenia tem razão. O estilo do presidente norte-americano já é facilmente reconhecível, e serve de ponto de partida a um número infinito de caricaturas e piadas na mídia mundial. Trump se expressa por meio de ataques, simplificações, apelidos ofensivos, frases categóricas e, muitas vezes, brutais. Fica evidente que ele não procura realmente um interlocutor; procura um alvo. Quem discorda não é tratado como alguém com quem se possa dialogar, mas como alguém que precisa ser enfraquecido, ridicularizado, atingido. A palavra não serve para esclarecer, mas para prevalecer. Não constrói o debate; encerra-o. Não aproxima; separa.

Parece evidente que quem se expressa desse modo agressivo e mal educado em geral não desperta muito interesse, simpatia ou admiração – a não ser em pessoas de mente mais tacanha e/ou psiquicamente exaltada. Mas quando esse tipo de comportamento é manifestado por um líder de ressonância mundial, há sim motivo para preocupação e cuidado. Pelo simples fato de que um líder político arrogante e sem consciência de limites pode contribuir para estimular atitudes igualmente prepotentes entre parte da população, embora isso não ocorra de forma automática nem uniforme. O efeito depende de diversos fatores, como a força das instituições, o papel da imprensa, da educação, da cultura política e das convicções prévias dos cidadãos.

A psicologia social oferece algumas explicações para esse fenômeno. Primeiro, existe o mecanismo da modelagem comportamental. As pessoas aprendem não apenas por instrução, mas também por observação e imitação. Quando um líder alcança sucesso político exibindo arrogância, desprezo pelos adversários, insultos ou demonstrações de superioridade, parte de seus apoiadores pode interpretar esse comportamento como legítimo ou até desejável.

Além disso, líderes exercem um importante papel na definição das normas sociais. O que antes era considerado inadequado pode passar a ser visto como aceitável quando é praticado repetidamente pela principal autoridade do país sem consequências políticas relevantes. Psicólogos chamam isso de mudança nas normas descritivas e permissivas: as pessoas ajustam seu comportamento ao que percebem ser socialmente tolerado.

Também existe em psicologia política um fenômeno conhecido como licenciamento moral. Alguns seguidores passam a acreditar que, por estarem defendendo uma causa considerada justa ou necessária, têm autorização para agir com agressividade, intolerância ou desprezo em relação aos que pensam diferente.

Isso não significa que todos os apoiadores de um líder adotem tais comportamentos. Muitos mantêm espírito crítico independente e não reproduzem seus traços pessoais. Tampouco a arrogância coletiva depende apenas da liderança política. Fatores econômicos, culturais, históricos e tecnológicos – como as redes sociais, que frequentemente recompensam discursos agressivos e polarizadores – também desempenham um papel importante.

A história oferece exemplos variados. Líderes de diferentes orientações ideológicas, em diferentes épocas, estimularam culturas políticas marcadas pela intolerância, pelo culto à personalidade e pela desqualificação sistemática dos adversários. Exemplos relativamente recentes? Napoleão Bonaparte, Adolf Hitler, Benito Mussolini, Josef Stalin, Nicolau Ceausescu. Contemporâneos? Donald Trump, Recep Tayyip Erdogan, Vladimir Putin. Entre nós? Jair Bolsonaro.

Do ponto de vista da psicologia, especialmente em diálogo com as ideias de Carl Gustav Jung, pode-se acrescentar uma reflexão: quando um líder encarna impulsos coletivos de grandiosidade, ressentimento ou desejo de poder, ele pode funcionar como um catalisador daquilo que Jung chamou de “sombra coletiva”. Nessa perspectiva, o líder não cria esses impulsos do nada; ele lhes dá voz, legitimidade e direção.

Em suma, é plausível afirmar que um líder arrogante e sem consciência dos próprios limites pode favorecer a disseminação da prepotência em parte da sociedade, principalmente quando sua conduta é percebida como um modelo de sucesso e encontra poucas barreiras institucionais ou culturais.

A arrogância dos líderes costuma ser analisada em conjunto com conceitos como hubris (desmedida, descomedimento), narcisismo, personalismo, culto à personalidade e ilusão de invulnerabilidade. Claro, nem todo líder carismático ou confiante é arrogante; a característica preocupante surge quando ele passa a acreditar que está acima das leis, das instituições, das críticas ou da própria realidade.

Essa é uma questão recorrente desde a Antiguidade. Os gregos chamavam de hubris a desmedida (quase um sinônimo de arrogância) de quem perde a consciência dos próprios limites. Na tragédia grega, a hubris quase sempre antecede a queda, justamente porque o excesso de poder vinha acompanhado da ilusão de invencibilidade. Essa ideia continua sendo uma referência importante para compreender os riscos da concentração de poder em qualquer sistema político, independentemente da orientação ideológica do governante.

Para o psicólogo Giuseppe Lavenia, o risco não é que um jovem escute Trump ou qualquer outro líder político do gênero e se torne arrogante ou agressivo. Essa seria uma leitura simplista. O risco é mais sutil: que ele aprenda um código de comportamento. Que passe a acreditar que, para ser respeitado, é preciso dominar os outros; que admitir um erro significa perder; que quem o contradiz não deve ser ouvido, mas demolido. É nesse momento que a comunicação deixa de ser apenas comunicação e passa a ser educação.

Como diz Lavenia, toda sociedade educa seus filhos não apenas com palavras, mas também por meio daquilo que recompensa. Se recompensamos quem humilha, ensinamos que humilhar funciona. Se tornamos viral quem despreza os outros, ensinamos que o desprezo gera poder. Se confundimos autoridade com opressão, depois não podemos nos surpreender quando os jovens levam essa mesma gramática para os grupos de mensagens, para as salas de aula, para o esporte e para os relacionamentos afetivos.

A questão não é exigir que a política se torne gentil, educada ou domesticada. A política também é conflito, confronto, divergência e dureza. Mas existe uma enorme diferença entre ser firme e desumanizar. Entre dizer algo incômodo e transformar o outro numa caricatura. Entre defender uma posição e precisar, todos os dias, de um inimigo para atacar. 

É justamente isso que deveríamos observar com mais atenção, explica Giuseppe Lavenia. Não Trump como exceção, mas Trump como sintoma. O sintoma de uma cultura que confunde força com dureza, sinceridade com brutalidade, coragem com incapacidade de parar.

A verdadeira força adulta é outra. É saber permanecer no conflito sem transformá-lo em guerra. É dizer verdades incômodas sem destruir a dignidade do outro. É pedir desculpas sem sentir que isso significa ser aniquilado. É defender uma posição sem precisar, permanentemente, de um alvo para atacar.

Hoje, os jovens não precisam de adultos que lhes ensinem a prevalecer sobre os demais. Disso eles já veem exemplos em excesso. Precisam de adultos capazes de mostrar que é possível ser firme sem ser violento, claro sem ser arrogante, forte sem precisar esmagar alguém.

Porque a maneira como falamos jamais é apenas uma questão de estilo. Ela já expressa uma determinada ideia de mundo.

Luis Pellegrini

Autor

Luis Pellegrini

Luís Pellegrini é jornalista e editor da revista Oásis

88 artigos publicados

 

Educação à prepotência. A cultura da arrogância

Quando a arrogância é confundida com força, até a linguagem se transforma em um modelo educativo. Um líder político narcisista e sem consciência de limites pode contribuir para estimular atitudes igualmente prepotentes entre parte da população

Publicado em 11 de julho de 2026 às 11:30

O presidente dos EUA, Donald Trump                                                                            O presidente dos EUA, Donald TrumpCrédito: REUTERS/Kylie Cooper

Seguir no Google Notícias Apoie o 247

Em artigo recente no jornal italiano La Repubblica, o psicoterapeuta e professor universitário Giuseppe Lavenia diz que “Donald Trump deveria ser observado também para além da política. Não apenas pelo que diz, mas pela maneira como diz. Porque a linguagem de uma figura tão exposta jamais permanece confinada ao noticiário: ela penetra no imaginário coletivo, torna-se tom, postura, modelo. Transforma-se em uma maneira possível de viver o conflito, de responder às críticas, de tratar quem pensa de forma diferente.”

Lavenia tem razão. O estilo do presidente norte-americano já é facilmente reconhecível, e serve de ponto de partida a um número infinito de caricaturas e piadas na mídia mundial. Trump se expressa por meio de ataques, simplificações, apelidos ofensivos, frases categóricas e, muitas vezes, brutais. Fica evidente que ele não procura realmente um interlocutor; procura um alvo. Quem discorda não é tratado como alguém com quem se possa dialogar, mas como alguém que precisa ser enfraquecido, ridicularizado, atingido. A palavra não serve para esclarecer, mas para prevalecer. Não constrói o debate; encerra-o. Não aproxima; separa.

Parece evidente que quem se expressa desse modo agressivo e mal educado em geral não desperta muito interesse, simpatia ou admiração – a não ser em pessoas de mente mais tacanha e/ou psiquicamente exaltada. Mas quando esse tipo de comportamento é manifestado por um líder de ressonância mundial, há sim motivo para preocupação e cuidado. Pelo simples fato de que um líder político arrogante e sem consciência de limites pode contribuir para estimular atitudes igualmente prepotentes entre parte da população, embora isso não ocorra de forma automática nem uniforme. O efeito depende de diversos fatores, como a força das instituições, o papel da imprensa, da educação, da cultura política e das convicções prévias dos cidadãos.

A psicologia social oferece algumas explicações para esse fenômeno. Primeiro, existe o mecanismo da modelagem comportamental. As pessoas aprendem não apenas por instrução, mas também por observação e imitação. Quando um líder alcança sucesso político exibindo arrogância, desprezo pelos adversários, insultos ou demonstrações de superioridade, parte de seus apoiadores pode interpretar esse comportamento como legítimo ou até desejável.

Além disso, líderes exercem um importante papel na definição das normas sociais. O que antes era considerado inadequado pode passar a ser visto como aceitável quando é praticado repetidamente pela principal autoridade do país sem consequências políticas relevantes. Psicólogos chamam isso de mudança nas normas descritivas e permissivas: as pessoas ajustam seu comportamento ao que percebem ser socialmente tolerado.

Também existe em psicologia política um fenômeno conhecido como licenciamento moral. Alguns seguidores passam a acreditar que, por estarem defendendo uma causa considerada justa ou necessária, têm autorização para agir com agressividade, intolerância ou desprezo em relação aos que pensam diferente.

Isso não significa que todos os apoiadores de um líder adotem tais comportamentos. Muitos mantêm espírito crítico independente e não reproduzem seus traços pessoais. Tampouco a arrogância coletiva depende apenas da liderança política. Fatores econômicos, culturais, históricos e tecnológicos – como as redes sociais, que frequentemente recompensam discursos agressivos e polarizadores – também desempenham um papel importante.

A história oferece exemplos variados. Líderes de diferentes orientações ideológicas, em diferentes épocas, estimularam culturas políticas marcadas pela intolerância, pelo culto à personalidade e pela desqualificação sistemática dos adversários. Exemplos relativamente recentes? Napoleão Bonaparte, Adolf Hitler, Benito Mussolini, Josef Stalin, Nicolau Ceausescu. Contemporâneos? Donald Trump, Recep Tayyip Erdogan, Vladimir Putin. Entre nós? Jair Bolsonaro.

Do ponto de vista da psicologia, especialmente em diálogo com as ideias de Carl Gustav Jung, pode-se acrescentar uma reflexão: quando um líder encarna impulsos coletivos de grandiosidade, ressentimento ou desejo de poder, ele pode funcionar como um catalisador daquilo que Jung chamou de “sombra coletiva”. Nessa perspectiva, o líder não cria esses impulsos do nada; ele lhes dá voz, legitimidade e direção.

Em suma, é plausível afirmar que um líder arrogante e sem consciência dos próprios limites pode favorecer a disseminação da prepotência em parte da sociedade, principalmente quando sua conduta é percebida como um modelo de sucesso e encontra poucas barreiras institucionais ou culturais.

A arrogância dos líderes costuma ser analisada em conjunto com conceitos como hubris (desmedida, descomedimento), narcisismo, personalismo, culto à personalidade e ilusão de invulnerabilidade. Claro, nem todo líder carismático ou confiante é arrogante; a característica preocupante surge quando ele passa a acreditar que está acima das leis, das instituições, das críticas ou da própria realidade.

Essa é uma questão recorrente desde a Antiguidade. Os gregos chamavam de hubris a desmedida (quase um sinônimo de arrogância) de quem perde a consciência dos próprios limites. Na tragédia grega, a hubris quase sempre antecede a queda, justamente porque o excesso de poder vinha acompanhado da ilusão de invencibilidade. Essa ideia continua sendo uma referência importante para compreender os riscos da concentração de poder em qualquer sistema político, independentemente da orientação ideológica do governante.

Para o psicólogo Giuseppe Lavenia, o risco não é que um jovem escute Trump ou qualquer outro líder político do gênero e se torne arrogante ou agressivo. Essa seria uma leitura simplista. O risco é mais sutil: que ele aprenda um código de comportamento. Que passe a acreditar que, para ser respeitado, é preciso dominar os outros; que admitir um erro significa perder; que quem o contradiz não deve ser ouvido, mas demolido. É nesse momento que a comunicação deixa de ser apenas comunicação e passa a ser educação.

Como diz Lavenia, toda sociedade educa seus filhos não apenas com palavras, mas também por meio daquilo que recompensa. Se recompensamos quem humilha, ensinamos que humilhar funciona. Se tornamos viral quem despreza os outros, ensinamos que o desprezo gera poder. Se confundimos autoridade com opressão, depois não podemos nos surpreender quando os jovens levam essa mesma gramática para os grupos de mensagens, para as salas de aula, para o esporte e para os relacionamentos afetivos.

A questão não é exigir que a política se torne gentil, educada ou domesticada. A política também é conflito, confronto, divergência e dureza. Mas existe uma enorme diferença entre ser firme e desumanizar. Entre dizer algo incômodo e transformar o outro numa caricatura. Entre defender uma posição e precisar, todos os dias, de um inimigo para atacar. 

É justamente isso que deveríamos observar com mais atenção, explica Giuseppe Lavenia. Não Trump como exceção, mas Trump como sintoma. O sintoma de uma cultura que confunde força com dureza, sinceridade com brutalidade, coragem com incapacidade de parar.

A verdadeira força adulta é outra. É saber permanecer no conflito sem transformá-lo em guerra. É dizer verdades incômodas sem destruir a dignidade do outro. É pedir desculpas sem sentir que isso significa ser aniquilado. É defender uma posição sem precisar, permanentemente, de um alvo para atacar.

Hoje, os jovens não precisam de adultos que lhes ensinem a prevalecer sobre os demais. Disso eles já veem exemplos em excesso. Precisam de adultos capazes de mostrar que é possível ser firme sem ser violento, claro sem ser arrogante, forte sem precisar esmagar alguém.

Porque a maneira como falamos jamais é apenas uma questão de estilo. Ela já expressa uma determinada ideia de mundo.

Luis Pellegrini

Autor

Luis Pellegrini

Luís Pellegrini é jornalista e editor da revista Oásis

88 artigos publicados