Ataques a símbolos religiosos reacendem debate sobre intolerância
No primeiro
semestre, foram registradas mais de 1,2 mil denúncias
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postado por:Redação
Brasil 247Publicado em 3 de outubro de 2026 às 08:18♥Apoie o 247
Crédito: ABr
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Eliane
Gonçalves – Repórter da Radioagência Nacional – “Se reabrir, todos morrem”. Era assim
que começava o cartaz colado em uma loja de artigos religiosos católicos no
centro de Fortaleza na noite em que o lugar foi alvo de um atentado com
coquetel molotov. O ataque aconteceu na madrugada de 9 de setembro. Naquela
mesma noite, outros dois estabelecimentos católicos e um da umbanda também
tiveram as fachadas incendiadas na capital cearense.
Os atentados
estão sendo investigados pela Polícia Civil, mas no dia seguinte, o Padre
Josileudo Queiroz, da Igreja de São José Operário de Caucaia, na região
metropolitana de Fortaleza, usou as redes sociais para classificar o que
aconteceu.
“Nós vivemos
num país onde devemos entender que o país é laico, ou seja, não tem
uma religião oficial. Não é ateu, porque há muitas religiões, há muitas
expressões de fé. Isso que aconteceu aqui em Fortaleza e que acontece no Brasil
afora se chama crime de intolerância religiosa”.
Os ataques
em Fortaleza estão longe de serem os únicos contra símbolos católicos. Um dia
antes do ataque no Ceará, em Londrina (PR), a cabeça de uma imagem de Nossa
Senhora Aparecida, que ficava em frente a uma loja de artigos religiosos, foi
arrancada. Dois dias depois, em Salvador, o alvo foi a imagem de Nossa Senhora
das Graças que foi quebrada. No dia 22, também em Salvador, a imagem da
primeira santa brasileira, a Santa Dulce dos Pobres, foi destruída.
Na última
quarta-feira (30), o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal
(STF), determinou que a Polícia Federal (PF) investigue uma aparente
disseminação de ataques a imagens religiosas católicas pelo país.
Todos
os casos de intolerância ocorreram antes da discussão sobre o título
de padroeira do Brasil a Nossa Senhora Aparecida entrar na disputa
eleitoral.
Denúncias
de intolerância religiosa
Segundo os
dados do Disque 100, só no primeiro semestre de 2026, entre janeiro e junho,
foram registradas 1.252 denúncias com pelo menos uma violação relacionada à
liberdade de crença ou intolerância religiosa.
Os católicos
não são os principais alvos.
Os
praticantes do candomblé e da umbanda são historicamente as principais vítimas
da intolerância religiosa, segundo o censo do IBGE, apesar de representarem
cerca de 1% da população brasileira. Entre janeiro e junho deste ano, foram
registradas 270 denúncias, um aumento de mais de 40% comparado com o mesmo
período de 2025, quando foram 192 notificações.
Entre os
católicos, as denúncias também cresceram no primeiro semestre em relação
ao mesmo período do ano passado. Os registros passaram de 15 para 34,
crescimento superior a 100%.
Durante a
Semana Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, que ocorreu em
janeiro no Rio de Janeiro, o secretário-geral da ACT Alliance (Action
by Churches Together), Rudelmar Faria, disse que a exclusão pela religião tem
sido uma estratégia política não só no Brasil.
“Nós estamos
num momento global em que a religião é instrumentalizada para excluir, porque
as religiões hoje, esse movimento da confluência de fundamentalismos, buscam
justamente excluir grupos. E são grupos que não são cristãos, brancos,
ricos e mais do que a sua própria igreja financeiramente, apoiar um grupo
de políticos que tem o poder para tomar decisões e criar leis que são
excludentes”, afirmou, citando que os mais afetados são mulheres, população
LGBTI+, povos indígenas e jovens negros de baixa renda.
“É o
que existe não só aqui no Brasil, na América Latina, na América Central”,
acrescentou. A ACT Alliance é uma coligação mundial de igrejas e organizações
baseadas na fé que atua em 140 países.
Na última
semana, a campanha eleitoral no Brasil foi tomada por postagens
envolvendo Nossa Senhora Aparecida. A polêmica teve início quando
viralizaram nas redes sociais postagens que atribuíam ao candidato a presidente
Flávio Bolsonaro (PL) a intenção de retirar de Nossa Senhora o título de
padroeira do Brasil. O candidato recorreu à Justiça Eleitoral e ao Supremo
Tribunal Federal (STF) para que as mensagens fossem retiradas do ar, o que
levou a uma série de decisões judiciais dos ministros que determinavam, em um
momento, a retirada dos posts e, em outro, a liberação das mensagens. As
justificativas eram disseminação de notícia falsa sobre o candidato e a
preservação do direito à liberdade de expressão, respectivamente.
O Tribunal
Superior Eleitoral (TSE) formou maioria de votos para manter as postagens fora do ar.
Punição
O defensor
público do Ceará, Igor Barreto, explica qual a punição prevista para quem
comete crime de intolerância religiosa.
“O mais
importante seja ressaltar o fato de que esses crimes são todos insuscitíveis de
fiança, de indulto, são crimes imprescritíveis, eles podem ser processados a
qualquer momento”.
No Brasil, a
pena para o crime de intolerância religiosa (prática, indução, incitação) varia
de um a 5 anos de reclusão e multa.