Stuart Angel terá diploma póstumo pela UFRJ
Estudante
morto pela ditadura receberá homenagem da UFRJ em cerimônia no dia 7 de julho
06 de junho
de 2026, 08:03 h
Stuart Angel terá diploma póstumo pela UFRJ (Foto: Reprodução)
Conteúdo
postado por: Guilherme
Levorato
247 - Stuart Angel Jones, estudante de
economia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) morto por agentes da
ditadura militar, será homenageado com um diploma póstumo em cerimônia marcada
para 7 de julho, às 16h30, no salão dourado da instituição, 55 anos após seu
desaparecimento político, informa a Folha de São Paulo.
O anúncio
foi feito pelo centro acadêmico que leva o nome de Stuart Angel, aluno do
Instituto de Economia da UFRJ. A homenagem busca reconhecer simbolicamente uma
trajetória interrompida pela repressão do regime militar, que impediu o jovem
de concluir a graduação após ser sequestrado e morto em maio de 1971, aos 25
anos.
A imagem
usada para divulgar a diplomação mostra Stuart sorridente, com o braço direito
erguido e segurando um canudo de formatura. A cena, no entanto, nunca ocorreu.
O estudante foi impedido de concluir o curso depois de ser capturado por
agentes da repressão durante o período da ditadura militar, que vigorou entre
1964 e 1985.
Stuart Angel
era militante do MR-8, organização armada de resistência ao regime militar, e
se tornou um dos desaparecidos políticos mais conhecidos do país. Sua história
ganhou repercussão nacional e internacional sobretudo pela atuação de sua mãe,
a estilista Zuzu Angel, que denunciou repetidamente a morte do filho e a
ocultação de seu corpo.
A irmã de
Stuart, a jornalista Hildegard Angel, comentou a homenagem nesta sexta-feira
(5) e lembrou que o estudante não pôde completar sua formação universitária por
causa da violência de Estado. “Como tantos outros estudantes naqueles anos
sombrios, ele não pode concluir seus estudos”, afirmou.
Ao
compartilhar a notícia da diplomação póstuma, Hildegard também recordou que
Stuart foi assassinado na Base Aérea do Galeão, no Rio de Janeiro. Segundo ela,
a família segue sem saber o paradeiro dos restos mortais do jovem, “se em terra
ou se no mar”.
O caso de
Stuart Angel foi relatado à Comissão Nacional da Verdade em 2014 pelo
ex-guerrilheiro Alex Polari. De acordo com o depoimento, Stuart foi submetido a
tortura até a morte para que revelasse o paradeiro de Carlos Lamarca,
ex-capitão do Exército e líder da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária).
Segundo o
relato apresentado à comissão, Stuart teve a boca amarrada próxima ao
escapamento de um jipe que circulava no pátio da prisão, sendo forçado a inalar
gás carbônico. O episódio tornou-se um dos símbolos da brutalidade da repressão
contra opositores políticos durante a ditadura militar.
Somente em
2019 a morte de Stuart Angel passou a constar oficialmente em seu atestado de
óbito como “não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro, no contexto
da perseguição sistêmica e generalizada à população identificada como opositora
política ao regime ditatorial de 1964 a 1985”.
A ausência
de informações sobre o corpo do filho levou Zuzu Angel a transformar sua dor em
denúncia pública. A estilista procurou autoridades brasileiras e estrangeiras,
concedeu entrevistas e levou às passarelas desfiles que chamavam atenção para o
desaparecimento de Stuart.
A busca de
Zuzu por respostas também foi retratada na música “Angélica”, composta por
Chico Buarque e Miltinho um ano depois da morte da estilista, em 1976. Um dos
versos da canção afirma: “Só queria embalar meu filho, que mora na escuridão do
mar”.
O anúncio da
diplomação póstuma foi feito na data em que Zuzu Angel completaria aniversário.
Ela nasceu em 5 de junho de 1921 e morreu em um acidente posteriormente
atribuído a agentes da ditadura.
Antes de
morrer, Zuzu entregou a Chico Buarque um bilhete no qual responsabilizava os
mesmos autores da morte de Stuart por qualquer atentado contra sua vida. “Se
algo vier a acontecer comigo, se eu aparecer morta, por acidente, assalto ou
qualquer outro meio, terá sido obra dos mesmos assassinos do meu amado filho”,
escreveu.
Em agosto do
ano passado, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, ligada
ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, entregou à família de Zuzu
Angel a certidão de óbito retificada da estilista. O documento passou a
informar que sua morte também foi violenta e causada pelo Estado brasileiro.
Para
Hildegard Angel, a homenagem a Stuart na UFRJ reafirma a necessidade de
preservar a memória das vítimas da ditadura e de manter a busca por respostas
sobre os desaparecidos políticos. “Aquele período de chumbo continua a
assombrar nossas vidas e a memória do país”, disse.
A irmã de
Stuart também afirmou que os sobreviventes carregam a responsabilidade de
seguir cobrando verdade e localização dos restos mortais das vítimas. Para ela,
“os que ficaram, os que esqueceram de matar”, têm o compromisso de continuar
buscando a verdade e os restos mortais dos desaparecidos.
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