10.7.26

Haaland uma revolução no futebol

 Modelo norueguês desafia lógica do esporte de alto rendimento e transforma Haaland em símbolo de uma revolução no futebol.

Sistema que prioriza inclusão, diversão e desenvolvimento de longo prazo coloca a Noruega entre as surpresas da Copa do Mundo e reacende debate sobre a formação de atletas

Conteúdo postado por:Redação Brasil 247Publicado em 10 de julho de 2026 às 07:55Apoie o 247

Haaland celebra a vitória da Noruega

Haaland celebra a vitória da NoruegaCrédito: Reuters

Seguir no Google Notícias Apoie o 247

247 – O desempenho da Noruega na Copa do Mundo de 2026 está levando especialistas a reavaliar um dos temas mais debatidos no esporte moderno: como formar grandes atletas. Reportagem da Bloomberg mostra que o sucesso da seleção liderada por Erling Haaland não é fruto de um sistema voltado para a competição precoce, mas de um modelo que faz exatamente o oposto: privilegia a participação de todas as crianças, a prática de múltiplos esportes e o desenvolvimento gradual dos talentos.

Enquanto diversos países transformam o esporte infantil em um ambiente altamente competitivo desde os primeiros anos de vida, a Noruega consolidou uma filosofia baseada em outro princípio: “o maior número possível, pelo maior tempo possível e no melhor nível possível”. O objetivo é manter as crianças praticando esportes por prazer, sem a pressão por resultados imediatos. Nesse sistema, a seleção precoce de talentos é desencorajada, e vitórias nas categorias infantis são consideradas secundárias diante do desenvolvimento físico, técnico e emocional dos jovens atletas.

Erling Haaland tornou-se o maior exemplo desse modelo. Criado na pequena cidade de Bryne, o atacante cresceu em um clube comunitário aberto a todas as crianças. Os treinadores eram voluntários e a preocupação principal não era vencer campeonatos, mas garantir que todos jogassem. Dos cerca de 40 meninos daquela geração, 35 permaneceram praticando futebol até a idade adulta. Seis se profissionalizaram e cinco chegaram às seleções de base da Noruega, um índice extraordinariamente elevado para um município de apenas cerca de 14 mil habitantes.

Outro elemento central é a infraestrutura. Mesmo em uma região marcada por longos invernos e poucas horas de luz durante boa parte do ano, Bryne construiu um campo coberto que permitia às crianças jogar durante todo o ano. Isso favorecia o chamado “jogo espontâneo”, considerado por pesquisadores um componente essencial para o desenvolvimento da criatividade e da inteligência esportiva.

A filosofia norueguesa também desencoraja a especialização precoce. Crianças são estimuladas a praticar diferentes modalidades antes de escolher uma carreira esportiva. O próprio Haaland praticou atletismo, handebol e outras atividades durante a infância. Essa diversidade ajuda a desenvolver coordenação motora, capacidade cognitiva e diferentes habilidades físicas, reduzindo também o risco de lesões e do abandono precoce do esporte.

O contraste com o modelo predominante nos Estados Unidos é frequentemente apontado pelos analistas. Lá, o sistema conhecido como pay to play exige elevados investimentos das famílias em clubes, viagens e competições, tornando o acesso ao esporte de alto nível cada vez mais caro. O ex-jogador Landon Donovan chegou a afirmar que, se fosse criança hoje, provavelmente não teria condições financeiras de iniciar sua carreira, criticando um modelo que restringe oportunidades para jovens talentosos de baixa renda.

A ascensão da Noruega ganha ainda mais relevância porque ocorre em um país de pouco mais de 5 milhões de habitantes. Após décadas distante das grandes competições internacionais, a seleção voltou ao cenário mundial impulsionada por uma geração formada dentro desse sistema educacional esportivo. A campanha na Copa do Mundo, marcada por vitórias expressivas e pelo protagonismo de Haaland, passou a ser vista como uma demonstração prática de que políticas públicas voltadas para inclusão, participação e desenvolvimento de longo prazo podem produzir resultados competitivos no mais alto nível.

Mais do que revelar um dos principais atacantes do futebol mundial, o modelo norueguês coloca em discussão uma questão que interessa a dirigentes, treinadores e formuladores de políticas esportivas em diversos países: se o melhor caminho para formar campeões passa menos pela pressão por vitórias na infância e mais pela criação de ambientes em que crianças permaneçam praticando esporte durante muitos anos, por prazer, autonomia e desenvolvimento integral.

Se você tem algum posicionamento a acrescentar nesta matéria ou alguma correção a fazer, entre em contato com redacao@brasil247.com.br.

Receba as notícias do Brasil 247 e da TV 247 no Telegram do 247 e no canal do 247 no WhatsApp.

Apoie o jornalismo independente do 247:

Assine o 247

 

0 comentários: