Adélio diz à irmã que a prisão dele é política e não há razão jurídica para continuar no presídio. Protagonista da eleição em 2018, ele entende que, 8 anos depois, nenhuma autoridade está disposta a cumprir a lei e colocá-lo em liberdade ou em hospital
05 de maio
de 2026, 15:58 h
Adélio, a irmã e a carta:
"Estamos sofrendo" (Foto: Reprodução | Joaquim de Carvalho)
Quase oito
anos após o episódio que marcou a campanha presidencial de 2018, o caso de
Adélio Bispo de Oliveira continua a suscitar controvérsias jurídicas, políticas
e humanas no Brasil. Autor do ataque ao então candidato Jair Bolsonaro, em Juiz
de Fora (MG), Adélio permanece custodiado em um presídio federal de segurança
máxima, apesar de ter sido considerado inimputável pela Justiça.
Diagnosticado
com transtorno delirante persistente, Adélio foi submetido a uma medida de
segurança — instrumento jurídico que, em tese, substitui a pena privativa de
liberdade por tratamento médico adequado. No entanto, na prática, ele segue em
regime de encarceramento rígido, em unidade destinada a criminosos de alta
periculosidade, incluindo líderes de facções.
Durante uma
recente visita virtual, Adélio conversou com sua irmã, Maria das Graças Ramos
de Oliveira, a quem chama de Lia. Segundo relato dela, ele demonstrou lucidez
ao comentar sua própria situação jurídica. Disse ter conhecimento de que, à luz
da jurisprudência consolidada nos tribunais superiores, deveria estar em
tratamento em ambiente hospitalar, e não em uma prisão comum. Tampouco em um
presídio de segurança máxima.
Ainda assim,
afirmou acreditar que dificilmente sua situação será revista no curto prazo,
sobretudo por se tratar de ano eleitoral. A eventual saída de Adélio da prisão
poderia ser usada politicamente por aliados do ex-presidente, reforçando
narrativas de injustiça ou impunidade e contrapondo sua saída à prisão de
Bolsonaro.
Ele não
acredita sequer que seja transferido para um hospital, como manda a lei.
Do ponto de
vista estritamente jurídico, os advogados da irmã de Adélio, Edna Teixeira e
Alfredo Marques, destacam uma contradição: caso tivesse sido condenado por
tentativa de homicídio, Adélio possivelmente já teria cumprido pena suficiente
para progressão de regime ou até liberdade. Sua permanência por tempo
indeterminado em regime fechado, portanto, é vista por eles como um desvio do
modelo legal brasileiro, aproximando-se, na prática, de uma prisão perpétua,
vedada pela Constituição.
A condução
inicial do caso também levanta questionamentos. À época, a defesa de Adélio foi
assumida pelo advogado Zanone Júnior, cuja trajetória inclui vínculos com
grupos de extrema direita. Foi ele quem solicitou a transferência do cliente
para um presídio federal. Atualmente, Adélio é representado pelo defensor
público Welmo Rodrigues, que levou o caso à Comissão Interamericana de Direitos
Humanos.
“O Adélio
tem que ser tratado. Sua situação viola direitos humanos consagrados”, afirma
Rodrigues, destacando que a manutenção do réu em ambiente prisional comum
contraria princípios básicos do direito penal e da saúde mental.
Além da
situação jurídica, alguns aspectos do episódio de Juiz de Fora continuam sendo
alvo de questionamentos e análises. Dois meses antes do atentado, Adélio
participou de um curso de tiro no Clube .38, em Santa Catarina, no mesmo dia em
que Carlos Bolsonaro também esteve no local. Posteriormente, ambos estiveram
próximos novamente em Juiz de Fora.
Outro ponto
frequentemente citado diz respeito à atuação da equipe de segurança no dia do
ataque. Considerando a gravidade do ocorrido, não é preciso ser perito para
concluir que houve falhas significativas na proteção do então candidato.
Ainda assim,
integrantes da equipe foram posteriormente promovidos, e três deles passaram a
integrar o grupo que auxiliou na estruturação de um núcleo de inteligência
conhecido como “Abin Paralela”, investigado pela Polícia Federal por
monitoramento ilegal de adversários políticos da família Bolsonaro.
Também chama
atenção o fato de que a porta-voz do Clube .38 à época era Júlia Zanatta, que
posteriormente assumiu cargo na Embratur durante a gestão do ministro Marcelo
Álvaro Antônio e, mais tarde, foi eleita deputada federal por Santa Catarina
com apoio da família Bolsonaro.
Esses
elementos, embora documentados, não constituem por si só provas de
irregularidades ou articulações coordenadas. Ainda assim, são fatos que
desafiam explicações claras.
Na visita
mais recente, a irmã descreveu Adélio como mais tranquilo e disposto ao
diálogo. Segundo ela, ele respondeu perguntas com mais clareza do que em
contatos anteriores. Relatou sentir dores na mão, decorrentes de uma queda —
informação confirmada pela administração do presídio.
No entanto,
um dado preocupa: Adélio afirmou que não tem tomado medicamentos prescritos,
por temer ser envenenado, um comportamento compatível com o quadro psiquiátrico
diagnosticado.
Entre o
direito e a política
A trajetória
de Adélio Bispo, desde 2018, evidencia uma zona cinzenta entre o direito, saúde
mental e disputa política. Seu caso permanece sem solução definitiva,
transitando entre decisões judiciais, debates técnicos e narrativas públicas.
Há três
anos, a irmã aguarda decisão da Justiça estadual de Campo Grande sobre seu
pedido para ser curadora de Adélio. Há alguns meses, o Ministério Público do
Mato Grosso do Sul se manifestou no sentido de que a Justiça acate o pleito de
Maria das Graças, mas a titular da vara onde o processo tramita já deu mostras
de que não tem pressa.
Sem acesso à
imprensa — proibido judicialmente de conceder entrevistas —, Adélio permanece
isolado, enquanto sua situação segue sendo discutida em instâncias nacionais e
internacionais.
O episódio
de Juiz de Fora, por sua vez, teve impacto direto no cenário político
brasileiro. O próprio Jair Bolsonaro já sugeriu em vídeo que o atentado foi um
fator decisivo para sua eleição naquele ano.
Ao se
aproximar de um churrasqueiro com uma facada grande, Bolsonaro disse que, se o
esfaqueasse, o elegeria “presidente” da ONU. Esse reconhecimento reforça a
dimensão histórica do caso, ao mesmo tempo em que suscita perguntas. Pode ter
sido auto atentado? A Polícia Federal não trabalhou nessa linha.
Hoje, Adélio
Bispo pode ser visto por diferentes setores sob perspectivas distintas: para
alguns, um paciente que deveria estar em tratamento; para outros, uma figura
central em um episódio da política recente que beneficiou a extrema direita.
Entre essas
visões, Adélio permanece em um limbo jurídico e político que ainda exige
respostas definitivas, o que não impede de um dos filhos de Jair Bolsonaro,
Flávio, mostrar disposição de explorar politicamente o caso
Quando houve
o tiroteio em Washington, próximo de Donald Trump, Flávio, indicado pelo pai
para concorrer à Presidência, declarou:
“Tentar tirar
a vida de quem pensa diferente usando balas ou facas não cabe numa democracia.
Que Deus nos proteja desse tipo de violência lá ou aqui no Brasil”.
A fala é
apenas um elemento de retórica, porque, além de Flávio abrigar em seu gabinete
parentes de um matador no Rio de Janeiro, Adriano da Nóbrega, o próprio Jair
Bolsonaro, dois dias antes do evento de Juiz de Fora, declarou, em um comício
em Rio Branco, no Acre:
“Vamos
fuzilar a petralhada”.
A violência,
portanto, é intrínseca à trajetória da família Bolsonaro.
Colunista do
247, foi subeditor de Veja e repórter do Jornal Nacional, entre outros
veículos. Ganhou os prêmios Esso (equipe, 1992), Vladimir Herzog e Jornalismo
Social (revista Imprensa). E-mail: joaquim@brasil247.com.br
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