Bertolt Brecht, 70 anos depois: os clássicos e as ideias de um gigante do teatro político
Autor de Mãe
Coragem, A vida de Galileu e A ópera dos três vinténs morreu em 14 de agosto de
1956 e deixou uma obra marcada pela crítica à guerra, ao fascismo e às
desigualdades
Conteúdo postado por:Redação
Brasil 247Publicado em 13 de agosto de 2026 às 16:26♥Apoie o 247
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247 — Há
exatamente 70 anos, em 14 de agosto de 1956, morria em Berlim Bertolt Brecht,
um dos mais importantes dramaturgos, poetas e pensadores do teatro do século
XX. Sete décadas depois, sua obra continua atravessando fronteiras porque parte
de uma pergunta que permanece atual: de que maneira a arte pode ajudar o ser
humano não apenas a contemplar o mundo, mas a compreendê-lo criticamente e
transformá-lo?
Nascido em
Augsburg, na Alemanha, em 10 de fevereiro de 1898, Brecht atravessou duas
guerras mundiais, a ascensão do nazismo, o exílio e as grandes disputas
ideológicas do século XX. Marxista, transformou sua experiência histórica em
uma dramaturgia que confrontava o público com questões relacionadas ao poder, à
exploração econômica, à guerra, à propaganda e às contradições da sociedade
capitalista. O Berliner Ensemble, companhia fundada por Brecht e pela atriz
Helene Weigel em 1949, registra que o dramaturgo morreu em sua casa, em Berlim,
em 14 de agosto de 1956. (Berliner
Ensemble)
O teatro
que não queria espectadores passivos
Brecht
revolucionou a linguagem teatral ao desenvolver aquilo que se tornou conhecido
como teatro épico. Em vez de simplesmente produzir identificação emocional
entre público e personagens, procurava criar condições para que o espectador
observasse criticamente o que acontecia diante de seus olhos.
O chamado
efeito de distanciamento tornou-se uma das marcas dessa concepção. A intenção
não era retirar a emoção da arte, mas impedir que a emoção encerrasse a
reflexão. O espectador deveria perceber que as relações sociais apresentadas no
palco não eram naturais nem eternas — e, portanto, poderiam ser modificadas.
A Deutsche
Biographie define Brecht como um poeta político que revolucionou a arte cênica
do século XX por meio de seu teatro épico, posteriormente chamado por ele de
teatro dialético, combinando política e criação artística a partir da ideia de
que o mundo é passível de transformação. (Biografia
Alemã)
Essa
concepção ajuda a explicar por que Brecht permanece tão influente. Para ele,
pobreza, exploração, guerra e autoritarismo não deveriam aparecer como
fatalidades inevitáveis. Cabia ao teatro revelar os mecanismos que produziam
essas situações.
De A
ópera dos três vinténs a Mãe Coragem
Entre os
grandes clássicos de Brecht está A ópera dos três vinténs, escrita em
colaboração com o compositor Kurt Weill e apresentada pela primeira vez em
Berlim em 1928. A montagem tornou-se um grande sucesso de público e atacava,
com ironia, a respeitabilidade burguesa, aproximando o universo dos negócios
daquele da criminalidade. (Berliner
Ensemble)
Outra obra
fundamental é Mãe Coragem e seus filhos, escrita no contexto da ascensão
da guerra na Europa. A personagem Anna Fierling tenta sobreviver
comercializando mercadorias durante a Guerra dos Trinta Anos, enquanto perde
seus filhos para o próprio conflito do qual procura retirar seu sustento. A
peça tornou-se uma das mais contundentes reflexões de Brecht sobre a relação
entre guerra, lucro e destruição humana.
Em A vida
de Galileu, Brecht transformou a trajetória de Galileu Galilei em uma
discussão sobre ciência, verdade, poder e responsabilidade intelectual. A peça
coloca no centro uma questão que permanece contemporânea: qual deve ser a
atitude de cientistas e intelectuais quando a verdade entra em choque com
estruturas poderosas?
Em A alma
boa de Setsuan, o dramaturgo questiona a possibilidade de permanecer
moralmente bom em uma sociedade organizada de maneira injusta. Já O círculo
de giz caucasiano discute justiça, propriedade e responsabilidade.
E em A
resistível ascensão de Arturo Ui, escrita durante o exílio, Brecht utilizou
uma parábola sobre gângsteres para abordar a ascensão de Adolf Hitler. O
próprio título carrega uma ideia decisiva: o avanço do fascismo não deve ser
tratado como um fenômeno inevitável da história. A peça foi escrita durante o
período em que Brecht fugia do regime nazista, primeiro para a Dinamarca e
posteriormente para outros países europeus e os Estados Unidos. (Berliner
Ensemble)
Exílio
diante do nazismo
Quando
Hitler chegou ao poder, em 1933, Brecht deixou a Alemanha. Passou pela
Dinamarca, Suécia, Finlândia e Estados Unidos. Seus trabalhos foram perseguidos
pelo regime nazista, e Brecht perdeu a cidadania alemã durante o período de
exílio.
Nos Estados
Unidos, chegou a ser interrogado em 1947 pelo Comitê de Atividades
Antiamericanas do Congresso, durante a perseguição a artistas e intelectuais
acusados de vínculos com o comunismo. Logo depois, deixou o país e retornou à
Europa. (Biografia
Alemã)
Em 1949,
estabelecido em Berlim Oriental, fundou com Helene Weigel o Berliner Ensemble.
A companhia se tornaria uma das instituições teatrais mais influentes da
Europa. Em 1954, passou a ocupar o Theater am Schiffbauerdamm, palco histórico
onde A ópera dos três vinténs havia estreado décadas antes. (Biografia
Alemã)
Frases
que atravessaram gerações
A força de
Brecht também está na capacidade de condensar conflitos políticos e morais em
formulações memoráveis. Uma das passagens mais famosas de A vida de Galileu
nasce do diálogo em que Andrea afirma ser infeliz a terra que não tem heróis.
Galileu responde invertendo a questão: infeliz é a terra que precisa de heróis.
Em A
ópera dos três vinténs, outra formulação tornou-se célebre ao colocar as
necessidades materiais diante das exigências morais: primeiro vem a comida,
depois a moral. A frase sintetiza um tema recorrente em Brecht — a
impossibilidade de discutir abstratamente virtude e comportamento sem
considerar as condições concretas em que vivem os seres humanos.
Sua poesia
também tornou universais reflexões sobre tempos de autoritarismo, guerra e
perseguição. Brecht insistia em chamar atenção para aquilo que uma sociedade
passa a considerar normal. Esse procedimento aparece repetidamente em sua obra:
tornar estranho aquilo que parece familiar para que o público volte a
enxergá-lo.
Por isso,
muitas frases apócrifas passaram a circular ao longo das décadas atribuídas ao
dramaturgo. A própria popularidade dessas falsas citações demonstra o tamanho
da presença de Brecht no imaginário político e cultural, mas também torna
fundamental distinguir sua obra real das formulações que posteriormente
receberam seu nome.
Setenta
anos depois
Brecht
morreu aos 58 anos. Sua influência, porém, continuou crescendo. Suas peças
passaram a ser encenadas em diferentes idiomas e contextos políticos, e seus
conceitos modificaram a formação de atores, diretores, dramaturgos e estudiosos
do teatro.
Sua obra
nasceu de circunstâncias específicas — guerras mundiais, fascismo, crise do
capitalismo europeu, revoluções e confrontos ideológicos —, mas as perguntas
que formulou sobreviveram ao século XX.
Quem paga
pela guerra? Quem lucra com ela? O que acontece quando a mentira se transforma
em instrumento político? Qual é a responsabilidade do intelectual diante do
poder? É possível exigir virtude de quem não dispõe das condições materiais
mínimas para viver? E por que sociedades inteiras aceitam como naturais
relações que foram historicamente construídas?
Setenta anos
após sua morte, são essas perguntas, mais do que qualquer resposta pronta, que
mantêm Bertolt Brecht vivo.
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