17.8.26

Carlos Drummond de Andrade

Há 39 anos, o Brasil perdia Carlos Drummond de Andrade, poeta que decifrou o país e a condição humana

Autor de Alguma poesia, Sentimento do mundo e A rosa do povo morreu em 17 de agosto de 1987 e deixou uma obra marcada pela reflexão sobre o Brasil, a política, o cotidiano, o amor e as contradições do homem moderno

Conteúdo postado por:Redação Brasil 247Redação Brasil 247Publicado em 17 de agosto de 2026 às 05:24Apoie o 247

Carlos Drummond de Andrade 

Carlos Drummond de Andrade Crédito: Brasil 247 / Dall-E

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247 – Há 39 anos, em 17 de agosto de 1987, morria no Rio de Janeiro Carlos Drummond de Andrade, um dos maiores escritores da língua portuguesa e figura central da poesia brasileira do século XX. Mineiro de Itabira, cronista do cotidiano, observador das transformações políticas de seu tempo e poeta das inquietações humanas, Drummond construiu uma obra que atravessou o modernismo e se incorporou definitivamente à cultura brasileira.

Drummond tinha 84 anos e morreu apenas 12 dias depois de sua filha, Maria Julieta Drummond de Andrade, vítima de câncer. A proximidade das duas mortes marcou dramaticamente os últimos dias do escritor, cuja relação com a família, a memória e a perda atravessou diferentes momentos de sua produção literária.

Nascido em 31 de outubro de 1902, em Itabira, Minas Gerais, Drummond transformou uma cidade do interior, suas montanhas, famílias, ruas e lembranças em matéria universal. Ao mesmo tempo, fez de sua poesia um espaço para observar um Brasil que se urbanizava, se industrializava e atravessava autoritarismos, guerras, conflitos sociais e profundas mudanças culturais.

Sua literatura conseguiu realizar um movimento raro: partir das pequenas coisas para alcançar algumas das maiores questões da existência.

De Itabira para a literatura brasileira

Carlos Drummond de Andrade nasceu em uma família de proprietários rurais em uma Minas Gerais ainda profundamente marcada pelas estruturas sociais do século XIX.

Itabira permaneceria presente em sua obra mesmo depois que o escritor deixou a cidade.

A paisagem mineral, as montanhas e a memória da família tornaram-se símbolos de um mundo em transformação. A mineração, que modificaria radicalmente a região, também apareceria em sua reflexão sobre a relação entre memória, território e desenvolvimento econômico.

Drummond estudou em Belo Horizonte e posteriormente em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. Formou-se em Farmácia, embora jamais tenha exercido a profissão de maneira regular.

Seu destino seria a literatura.

Na década de 1920, aproximou-se do movimento modernista e estabeleceu contato com nomes fundamentais da renovação cultural brasileira, entre eles Mário de Andrade.

O modernismo buscava romper com convenções acadêmicas e construir uma expressão artística capaz de dialogar diretamente com a experiência brasileira. Drummond absorveu esse impulso, mas desenvolveu uma voz inteiramente própria.

Uma pedra mudou a poesia brasileira

Em 1928, a publicação de “No meio do caminho” na Revista de Antropofagia provocou uma das maiores controvérsias da história da poesia brasileira.

A repetição, a linguagem aparentemente simples e a presença insistente da pedra contrariavam expectativas tradicionais sobre o que deveria ser um poema.

O texto seria atacado, parodiado e discutido durante anos.

Mas justamente aquilo que parecia estranho aos críticos tornou-se uma demonstração da força da nova linguagem modernista.

A pedra entrou para o imaginário cultural brasileiro.

Dois anos depois, em 1930, Drummond publicou seu primeiro livro, Alguma poesia. Ali já apareciam elementos que atravessariam sua obra: ironia, deslocamento, observação cotidiana, memória familiar e uma sensação de inadequação diante do mundo.

O poeta assumia a figura do “gauche”, aquele que parece estar ligeiramente fora do lugar.

Essa condição se tornaria uma das chaves para compreender sua literatura.

Drummond observava o mundo de dentro e de fora simultaneamente. Participava da sociedade, mas conservava a distância necessária para enxergar suas contradições.

O poeta diante de um mundo em crise

A obra de Drummond mudou à medida que o próprio mundo se transformava.

Nas décadas de 1930 e 1940, o Brasil vivia as tensões do governo Getúlio Vargas, a industrialização acelerava a mudança das cidades e o planeta caminhava para a Segunda Guerra Mundial.

A poesia drummondiana tornou-se mais diretamente social e política.

Em Sentimento do mundo, publicado em 1940, a experiência individual se encontra com uma percepção crescente das injustiças e dos conflitos coletivos.

O poeta que antes parecia concentrado em suas próprias inquietações passa a olhar de maneira cada vez mais intensa para a história.

Esse movimento alcançaria um de seus momentos mais importantes em A rosa do povo, de 1945.

Publicado no fim da Segunda Guerra Mundial e da ditadura do Estado Novo, o livro é considerado uma das grandes realizações da poesia social brasileira.

Drummond escreve sobre guerra, medo, desigualdade, trabalho, política e esperança sem transformar a poesia em simples palavra de ordem.

A força de sua literatura está justamente na tensão.

Existe desejo de transformação, mas também dúvida. Existe solidariedade, mas não ingenuidade. Existe esperança, mas ela convive permanentemente com a consciência das dificuldades humanas.

Drummond e a experiência do Brasil

Poucos escritores conseguiram observar o Brasil com uma combinação tão particular de intimidade e distanciamento.

Drummond escreveu sobre Minas Gerais, mas sua Minas nunca foi apenas geográfica.

Era também memória, família, poder, tradição e perda.

Escreveu sobre o Rio de Janeiro, onde viveu grande parte da vida, transformando ruas, praias, repartições públicas e personagens anônimos em matéria literária.

Escreveu sobre trabalhadores, funcionários, políticos, guerras, cidades e transformações econômicas.

Também acompanhou um país que deixava progressivamente de ser predominantemente rural e se tornava urbano e industrial.

Sua experiência pessoal atravessava essa transformação.

Drummond trabalhou durante décadas como funcionário público e conhecia por dentro a burocracia estatal. Entre 1934 e 1945, atuou como chefe de gabinete de Gustavo Capanema no Ministério da Educação e Saúde.

Ao mesmo tempo, mantinha sua atividade literária e jornalística.

Essa convivência entre o homem comum da repartição e o poeta extraordinário também alimentou sua percepção do cotidiano.

A poesia das pequenas coisas

Uma das características mais duradouras de Drummond é sua capacidade de encontrar profundidade nas situações aparentemente banais.

Uma rua, uma fotografia, uma família, uma pedra, uma lembrança da infância ou um encontro casual podiam abrir caminho para reflexões sobre tempo, morte, amor e solidão.

Essa característica explica em parte por que sua poesia permaneceu tão acessível a diferentes gerações.

Drummond podia ser sofisticado sem perder a clareza.

Podia ser filosófico sem abandonar o cotidiano.

E podia ser profundamente brasileiro sem depender de uma visão folclórica do país.

Sua linguagem aproximou a poesia da conversa e incorporou humor, ironia e coloquialidade sem abrir mão do rigor literário.

O resultado foi uma obra capaz de circular simultaneamente entre estudiosos, escolas e leitores que simplesmente encontraram em seus versos uma forma de reconhecer experiências pessoais.

Amor, memória e passagem do tempo

A dimensão política de Drummond é apenas uma parte de sua obra.

O amor ocupa espaço igualmente fundamental.

Ao longo de décadas, o escritor explorou desejo, paixão, envelhecimento, casamento, perda e impossibilidade amorosa.

A memória também se tornou progressivamente mais importante.

Quanto mais envelhecia, mais Drummond retornava à infância, à família e à Itabira desaparecida.

Esse retorno não era simples nostalgia.

A memória, em sua literatura, frequentemente revelava o caráter irreversível do tempo. O passado podia ser recuperado pela palavra, mas jamais reconstruído integralmente.

Essa tensão entre presença e ausência atravessa alguns de seus trabalhos mais marcantes.

O poeta parecia compreender que escrever era também uma maneira de lutar contra o desaparecimento.

O cronista que conversava com milhões de brasileiros

Drummond não viveu apenas nos livros de poesia.

Durante décadas, foi também um dos grandes cronistas da imprensa brasileira.

Escrevendo para jornais, desenvolveu uma relação cotidiana com leitores de diferentes partes do país.

Suas crônicas abordavam acontecimentos aparentemente pequenos, comportamentos urbanos, política, futebol, relações familiares e episódios da vida comum.

Era uma extensão natural de sua poesia.

O olhar permanecia atento àquilo que normalmente passava despercebido.

A crônica permitiu ainda que Drummond participasse diretamente da vida pública brasileira sem abandonar sua identidade literária.

Essa presença constante nos jornais ajudou a transformá-lo em algo maior do que um escritor celebrado pelos círculos intelectuais.

Drummond tornou-se uma figura reconhecida nacionalmente.

A mineração e a memória de Itabira

A relação de Drummond com sua cidade natal ganhou, com o passar do tempo, uma dimensão que permanece particularmente contemporânea.

Itabira foi profundamente transformada pela mineração de ferro.

As montanhas que compunham a paisagem da infância do poeta passaram a ser exploradas em escala industrial, modificando o território e a própria identidade local.

Drummond registrou essa transformação literariamente.

A tensão entre riqueza mineral e perda da paisagem antecipou discussões que se tornariam cada vez mais importantes no Brasil: quem controla os recursos naturais, quais benefícios permanecem nas regiões produtoras e qual é o preço ambiental e cultural do desenvolvimento.

Em Drummond, a montanha não é apenas minério.

É memória.

E a destruição de uma paisagem pode representar também o desaparecimento de uma parte da experiência humana ligada àquele lugar.

A perda de Maria Julieta

Os últimos dias de Drummond foram marcados por uma tragédia pessoal.

Sua única filha, Maria Julieta Drummond de Andrade, morreu em 5 de agosto de 1987.

Escritora e tradutora, Maria Julieta mantinha uma relação muito próxima com o pai.

Doze dias depois, em 17 de agosto, Drummond morreu no Rio de Janeiro.

A proximidade entre as duas mortes adquiriu uma dimensão especialmente dolorosa para leitores familiarizados com uma obra em que família, memória, ausência e morte sempre estiveram presentes.

Encerrava-se uma trajetória literária iniciada muitas décadas antes em Minas Gerais e que havia acompanhado quase todo o século XX brasileiro.

Um poeta que continua contemporâneo

Trinta e nove anos depois de sua morte, Drummond permanece presente na cultura brasileira.

Seus poemas continuam nas escolas, universidades, jornais, redes sociais e conversas cotidianas.

Parte dessa permanência deriva da extraordinária capacidade do escritor de falar simultaneamente de seu próprio tempo e de questões que não envelhecem.

O indivíduo diante de uma sociedade que parece incompreensível. O medo diante da violência política. A solidão nas grandes cidades. A dificuldade de amar. O peso das lembranças. A passagem inexorável do tempo. A esperança que resiste mesmo quando a realidade parece negá-la.

Também permanece atual seu olhar sobre o Brasil.

Drummond conheceu um país marcado pela desigualdade, pela concentração de poder e riqueza e pela tensão permanente entre modernização e exclusão social.

Assistiu à expansão industrial, ao crescimento das cidades, ao surgimento de novas formas de comunicação e às grandes disputas ideológicas do século XX.

Não ofereceu respostas simples.

Sua grande contribuição talvez tenha sido justamente recusar a simplificação.

O legado de Drummond

Carlos Drummond de Andrade atravessou diferentes fases da literatura brasileira sem se deixar aprisionar por nenhuma delas.

Foi modernista, poeta social, cronista, memorialista e poeta do amor e da existência.

Transformou Minas Gerais em matéria universal e o cotidiano brasileiro em literatura.

Sua obra mostrou que a poesia podia estar em uma pedra, numa fotografia antiga, numa repartição pública, numa cidade modificada pela mineração ou na perplexidade de um indivíduo diante dos acontecimentos do mundo.

Quando morreu, em 17 de agosto de 1987, o Brasil perdeu um de seus maiores intérpretes.

Trinta e nove anos depois, sua permanência demonstra que grandes escritores não pertencem apenas à época em que viveram.

Drummond continua sendo lido porque as perguntas que formulou permanecem diante de nós: como viver em um mundo atravessado por injustiças, como preservar a humanidade em tempos difíceis, como enfrentar a passagem do tempo e como transformar memória, perplexidade e esperança em alguma forma de compreensão da vida.

  

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