Mais de 50% das brasileiras afirmam ter sofrido violência em relacionamentos, aponta pesquisa
Estudo do
Instituto Patrícia Galvão e do Instituto Locomotiva revela abismo entre relatos
das vítimas e percepção dos agressores, além de expor impunidade e lentidão da
Justiça como maiores gargalos
Conteúdo
postado por:Guilherme
LevoratoPublicado em 29 de julho de 2026 às 12:49♥Apoie o 247
Protesto contra o feminicídioCrédito:
Tânia Rêgo/Agência Brasil
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247 – Mais da metade (54%) das brasileiras
que já se relacionaram com homens afirmam ter sido vítimas de algum tipo de
violência praticada por parceiros ou ex-parceiros. Em contrapartida, apenas 11%
dos homens admitem ter cometido qualquer tipo de agressão contra suas
companheiras ou antigas parceiras, segundo reportagem do G1
com base na pesquisa inédita “20 anos da Lei Maria da Penha: percepção da
sociedade brasileira”, realizada pelo Instituto Patrícia Galvão e pelo
Instituto Locomotiva, com o apoio da Uber.
O
levantamento traz um balanço abrangente sobre as duas décadas de vigência da
legislação e projeta que cerca de 30 milhões de mulheres no Brasil dizem já ter
sofrido violência no âmbito de um relacionamento afetivo. Quando o
questionamento detalha situações específicas de abuso, o número de vítimas
brasileiras salta para quase 48 milhões. O objetivo central do estudo é
mensurar o nível de conhecimento da população, avaliar a efetividade dos
mecanismos de proteção e identificar os desafios persistentes no combate às
desigualdades de gênero.
Formas de
agressão e o perfil dos agressores
A violência
psicológica lidera os relatos das entrevistadas, sendo citada por 42% das
mulheres. Na sequência aparecem a violência física (25%), a violência moral
(19%), a violência sexual (10%) e a violência patrimonial (9%). No total, mais
da metade das brasileiras declara ter sido vítima de pelo menos uma dessas
modalidades previstas na legislação.
O estudo
também revela uma assimetria no conhecimento sobre os tipos de abuso: a
violência física é reconhecida por 88% das mulheres, a psicológica por 78%, a
sexual por 76% e a moral por 61%. A violência patrimonial figura como a menos
conhecida, lembrada por 46% das entrevistadas. Além disso, somente 39% das
brasileiras sabem que a Lei Maria da Penha abrange e protege contra todos esses
cinco tipos de violência.
A percepção
de quem pratica as agressões reforça a proximidade dos autores:
- Parceiros ou ex-parceiros: 88%
- Familiares ou parentes próximos: 33%
- Pessoas conhecidas: 29%
- Desconhecidos: 27%
- Todos os tipos de homens
igualmente: 9%
- Outras mulheres: 6%
Gargalos
no enquadramento e na proteção das vítimas
Apesar dos
progressos legislativos, a pesquisa aponta que a sensação de insegurança
permanece intrínseca ao cotidiano feminino. Entre os principais obstáculos para
o enfrentamento da violência contra a mulher, as entrevistadas destacam:
- Medo de denunciar por
represálias ou falta de proteção: 68%
- Risco de impunidade dos
agressores: 56%
- Lentidão da Justiça: 39%
- Cultura que naturaliza ou
minimiza a violência: 35%
- Falta de serviços de apoio às
vítimas: 25%
- Falta de aplicação das leis: 24%
- Falta de preparo das forças de
segurança: 23%
- Falta de informação sobre
direitos e canais de ajuda: 17%
- Falta de envolvimento dos homens
no enfrentamento da violência: 13%
As medidas
protetivas de urgência são de amplo conhecimento do público feminino: 83%
conhecem as medidas que impedem a aproximação do agressor, 74% sabem sobre o
afastamento do agressor do lar, 68% identificam os abrigos para mulheres em
situação de risco, 64% mencionam o atendimento psicológico e jurídico gratuito,
enquanto 38% conhecem a proteção patrimonial destinada às vítimas.
No tocante
aos serviços de apoio, a Delegacia da Mulher é o órgão mais lembrado pelas
entrevistadas (75%), seguida pelo Ligue 180 (64%), Polícia Militar/190 (55%),
Disque Denúncia (54%), CRAS e CREAS (34%), Juizados de Violência Doméstica e
Familiar (34%), SOS Mulher (32%), Casa da Mulher Brasileira (32%), Defensoria
Pública (29%) e Ministério Público (23%).
Reações
diante de agressões e comportamento masculino
Diante de
uma cena de agressão presenciada contra uma mulher, a postura de homens e
mulheres apresenta divergências. Enquanto 70% das mulheres afirmam que
chamariam a polícia ou outras autoridades, entre os homens esse percentual cai
para 56%. Já a intervenção direta usando a força, se necessário, é a opção de
15% dos homens contra 7% das mulheres; 19% dos homens tentariam intervir
discretamente sem uso da força (contra 9% das mulheres); 11% das mulheres
procurariam ajuda de outras pessoas (contra 4% dos homens); 3% dos homens dizem
que não interfeririam (contra 1% das mulheres); e 3% dos homens não souberam
responder (contra 1% das mulheres).
A pesquisa
aponta ainda um distanciamento cultural sobre o tema: 77% das mulheres
acreditam que os homens não entendem determinadas atitudes como violência, e
82% consideram que muitos homens se omitem diante de agressões cometidas por
outros homens.
Do lado
masculino, a legislação demonstra certo impacto comportamental: 57% dos homens
concordam que a existência da Lei Maria da Penha faz com que tratem as mulheres
de forma melhor, e 60% afirmam que a lei os deixa mais em alerta sobre os
riscos de cometer violência no dia a dia.
Impacto
social e desafios para o futuro da lei
Criada para
prevenir e coibir a violência doméstica e familiar no Brasil, a Lei nº
11.340/2006 homenageia a farmacêutica Maria da Penha, que ficou paraplégica
após sofrer duas tentativas de feminicídio praticadas por seu então marido e
lutou por quase duas décadas até obter a punição do agressor.
O
levantamento revela a transformação da percepção social em relação ao passado:
81% das entrevistadas lembram que antes da lei predominava a ideia de que “em
briga de marido e mulher não se mete a colher”, 81% afirmam que as mulheres não
tinham onde buscar ajuda e 64% pontuam que as punições eram brandas.
Atualmente,
7 em cada 10 mulheres afirmam que a lei produz impacto real na vida da
população feminina, 54% declaram se sentir mais protegidas por sua existência e
3 em cada 4 dizem que a legislação as tornou mais conscientes sobre os riscos
de violência. A associação principal feita à lei por quem a conhece é a
proteção às mulheres e vítimas (73%), a responsabilização criminal dos
agressores (15%), a prevenção e enfrentamento (4%), a proteção institucional e
acesso à Justiça (3%), direitos e cidadania (3%), críticas ou negação (1%) e
outros (1%).
Ainda assim,
o descrédito no sistema completo de aplicação persiste:
- Proteção efetiva: Apenas 25% acreditam que a lei
protege totalmente as mulheres; 67% dizem que protege em parte e 8%
avaliam que não protege.
- Funcionamento prático: 80% concordam que a lei ainda
não funciona na prática como deveria.
- Insuficiência isolada: 82% entendem que a legislação,
sozinha, é insuficiente para deter a violência.
- Preparo policial: Apenas 41% consideram que as
forças de segurança pública estão preparadas para atender adequadamente as
vítimas.
Para
avançar, os entrevistados indicam como medidas mais eficazes: ampliar o apoio e
a proteção às vítimas (91%); endurecer as leis e aumentar as punições (91%);
melhorar a aplicação das leis e o funcionamento da Justiça (90%); promover
educação e prevenção nas escolas e campanhas (89%); facilitar o acesso aos
canais de denúncia (89%); promover a autonomia financeira das mulheres (88%);
fortalecer a atuação das forças de segurança (88%); e criar grupos de reflexão
para homens agressores (73%).
A
consolidação desse processo exige uma ação articulada entre órgãos estatais,
redes de proteção e transformações culturais contínuas para erradicar o
machismo e a misoginia. O levantamento foi realizado entre 22 e 30 de abril de
2026, com 1.500 pessoas de 16 anos ou mais em todas as regiões do país, por
meio de entrevistas digitais de autopreenchimento, com margem de erro de 2,8
pontos percentuais.
Canais de
atendimento e denúncia
A denúncia é
o passo fundamental para romper o ciclo da violência doméstica, garantir a
integridade da vítima e possibilitar a responsabilização do agressor.
A Central de
Atendimento à Mulher atende pelo telefone 180, oferecendo orientação gratuita
sobre direitos e serviços em todo o país. Em situações de emergência ou
flagrante, a orientação é ligar para a Polícia Militar pelo número 190. Também
é possível registrar ocorrências em delegacias comuns, Delegacias
Especializadas de Atendimento à Mulher (Deams), além de buscar suporte no
Ministério Público e na Defensoria Pública.
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