Naquele mesmo momento, do outro lado da cidade dos manaós, Joana gozava de verdade. Um gozo esplêndido. Cheio de vida. Coisa que não tinha em casa. Necessitava do adultério. Já conhecia a ladainha diária de Raimundo quando negava a sua dita ‘masculinidade’, como se isso e a opção sexual fosse de fato a representação da masculinidade. Ela sempre pronta para o acasalamento, enquanto ele sempre negava o coito. No fundo Joana acreditava gostar do adultério, não era somente uma necessidade. Porém conservava certo pudor, por causa do tempo junto com Raimundo. Depois de sair da casa abandonada onde estivera gozando com o amante, foi até a casa da Jurema – sua amiga mais íntima.
- Ju, acredita que já estou amigada com o Raimundo há 20 anos?
- sério Jô?
- sim, já não agüento mais! O homem antes não negava coro. Agora ta o contrário. Sempre com a mesma história. Além do que, ta uma merda lá em casa. Sempre brigamos.
Raimundo tinha ido ao banheiro. Na volta retornou com tudo ao trabalho. Só pensava no final do mês, para receber o salário e poder comprar a comida dos meninos e beber aquela cerveja ouvindo o grande waldick Soriano com os amigos, sua única válvula de escape. E quem sabe se animar mais e conseguir suprir as necessidades de sua nega. Respirou grande otimismo. Começou a manusear a britadeira com mais alegria. Preciso de pouco para ser feliz. Pensou Raimundo.
O ambiente de trabalho era totalmente inseguro. Como é de costume. Raimundo estava trabalhando próximo a uma barragem. Aconteceu o já imaginado. Raimundo naquele momento foi soterrado com a queda da barragem. Todos seus companheiros tentaram juntos tirar seus amigos de trabalho, pois não só Raimundo foi soterrado, mas uma dezena de peões. Esses grandes trabalhadores artistas que faziam belos prédios. Eles não conseguiram sair com vida desse atroz acidente,um ´acidente previsto´, já que trabalhavam perigosamente. Nessa noite Joana não ouviria mais a ladinha diário de Raimundo.
Trim, trimm, trimm. O telefone velho preto no canto da sala toca na casa do recém finado Raimundo, em uma tarde quente e aconchegante na zona leste. Joana, com seu cabelo bicolor e saia rodada vermelha, atende ao telefone e recebe a noticia do falecimento do dito cujo. O homem do ‘recursos humano’ da empresa informa ainda que a empresa providenciará o pagamento de uma indenização para família, além de um cala-boca a mais para a esposa não comentar nada com ninguém sobre o acontecido. O mesmo homem já tinha cuidado de molhar as velhas mãos calejadas de dinheiro sujo dos jornais de Manaus. Para que mais um grande ‘empreendimento’ seja construído sem notícias de mortes de trabalhadores.
Enquanto isso, Ricardo Bittencurt dono do estúpido centro comercial tomava seu whisky com o ar condicionado no cú. Ao redor de pessoas-fantasma exibindo ao seu lado uma mulher – que vendeu não somente o seu corpo, mas também a alma- que chamava de amor. Toda essa comédia humana como subterfúgio do vazio de uma vida repleta da estupidez humana característica dessa gente de existência soberba.
Joana sentiu uma coisa estranha, dor e alegria ao mesmo tempo. Desligou o telefone. Imaginou como seria boa sua vida sem o Raimundo. Sentiu vontade de transar novamente. Ligou para José. Marcaram o encontro. Usou o pretexto de ir resolver coisas para o velório e enterro do ex- companheiro como justificava para poder ir ao encontro de José.
Chegou ao centro da cidade já há noite. Desceu a Avenida Eduardo Ribeiro. Parou na frente do arrogante Teatro Amazonas olhou seu cocar e por detrás viu aquela lua triste e fria. Ouviu tocar o sino da igreja como se fosse o som da solidão. Sentiu a noite. Entrou no motel barato procurando o prazer. A noite acabou para Joana como um gozo. Não o gozo de antes. Quando Raimundo estava vivo. Mas um gozo estranho, mais fraco, mais triste. Um gozo sem pudor e sem vida. Enfim um gozo sem adultério.
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