30.6.11

Escondidinho

À tarde um frio indesejável, não apenas para quem o detesta, até para quem diz que gosta. O carteiro, enfrentando a geada, chegou de bicicleta com algumas cartas; O atrevido queria saber do conteúdo da missiva, um cartão do presidente do legislativo.

Pela internet, até o chefe da polícia me felicitou.

Precisamos comprar as coisas! Diz a dona da casa, prosseguindo, instruiu: Encomende por telefone ou vá comprar no mercado: vinho, cervejas e guaraná Paulistinha diet. Na padaria encomende um pouco de doces e salgados. Volte logo para fazer o bolo.

Era meu aniversário. Tudo íntimo, entre mim, minha esposa, nossa cunhada e as duas filhas.

Retornando com os ingredientes do bolo e com as bebidas liguei à padaria:
− Quem fala?
− Renato!
− Saudações corintianas Renato (cinco a zero)...
− O que o senhor manda seu Picasso?
− Um pouco de doces e salgados para uma mesa de aniversário: Brigadeiro, Nozes, Bicho de Pé, Bem Casado, Cajuzinho, Beijinho, Olho de Sogra, etc. Capricha o presidente da câmara mandou cartão.
− Só isso?
− Não. Há um tipo de salgado que a mulher faz questão de servir. Não sei bem o nome, deve ser, ‘escondido’.
− Escondidinho...
− De vereador!
− O que?
− Isso mesmo: Escondidinho de vereador! Manda uma forma.
− Seu Picasso, presta atenção, não é isso não: É escondidinho de carne seca!
− Tudo bem, manda isso mesmo.

A nossa cabeça com 7.2 deste de 39, lá pelas tantas, mistura tudo. A igreja faz plebiscito do Saco de Dinheiro, o vereador vota pra tirar a diferença que o juiz apitou 12, o líder da bancada sem dar satisfação escondeu o resultado do padre, quer 19. Enquanto isso, em Araçatuba, falta água no feijão; Santo Daea? E a Folha da Região, “culpada de tudo”, quer saber por que, três vereadores fugiram com a Ficha Limpa! Política municipal é porta de hospício. Tá louco?

Comovido, lembrei-me do menino que deixou um Saco de Dinheiro na porteira do legislativo.
Coisas da idade. Sabe como são os ‘aborrecentes’; Radicais e querem justiça, doa a quem doer!

Vou dizer a ele que a interpelação imposta pela presidência da câmara pode ser revogada. O vereador estava magoado, de saco cheio, foi apenas uma decisão emocional. Certamente, o tal edil *“está se guardando pra quando a eleição chegar”. Do meu lado: *“eu tô só vendo, sabendo, sentindo, que ele vai perdoar” – não perca a fé, nem o título de eleitor, menino. Um dia você ainda vai receber um cartão igual ao meu, do presidente, por conta da casa.

O carteiro não arredava, queria porque queria, e fim:
− Rasga logo esse envelope, enfezado diz ele.
− Abri a carta: Uma foto, ao fundo um pacote com laços vermelhos, ladeado pelo gargalo de uma garrafa de champanhe Veuve Clicquot Ponsardin, e à direita, a imagem chique de Cido Saraiva ‘vereador’. No texto os seguintes versos: “O ser feliz está sempre em nossas mãos. O surgir de cada dia vem sempre com uma nova mensagem de esperança, Feliz Aniversário”. O carteiro quase chorou, pedalando rumo oeste, voou fumaceando bafo.

Ventura Picasso – Cia dos Blogueiros
2454. *Chico Buarque.
Foto - http://3.bp.blogspot.com/-AzSKaMn3fbM/Tawb26EnZgI/AAAAAAAAADw/uGqX34zgs50/s1600/el-secreto.jpg

12.6.11

Saco de pizza

O Departamento Jurídico da Câmara encontrou no minidicionário Aurélio o argumento, inquestionável, para minimizar a denuncia, de existência de um saco de dinheiro para os vereadores.

Manchete da Folha da Região de 07/06/2011: ”Advogados da Câmara sugerem que ‘saco de dinheiro’ vire pizza”.

Em entrevista gravada, o vereador Joaquim (PDT), disse aos jornalistas da Folha da Região, Sergio Guzzi e Arnon Gomes: “Não retiro uma palavra, sobre o saco de dinheiro”.

No entender do minidicionário e do Dep. Jurídico, o vereador Joaquim da Stª. Casa falou, mas não disse nada. Nós que não temos ‘memória’ sabemos, como o jurídico e o Aurélio sabem, que discurso é só falação abstrata. O cara fala, pensando ou sem pensar, e o conteúdo some, desaparece no éter. Mesmo gritando escandalosamente, a mais de 70 dB, aqui em Araçatuba, ninguém fiscaliza mesmo.

Temos uma dúzia de vereadores e seus ‘responsáveis’ discutindo, ou fazendo de conta que discutem o aumento de cadeiras na câmara. E não são poucos assentos, eles apostam em 19, que corresponde ao Pavão, mas há o que propõe apenas 9, que é o conhecido burro, segundo o mestre Aurélio (kubrusly.com).

Salvo a palavra do corajoso edil Joaquim, não temos nada de concreto que “se enquadre na categoria de irregularidade”. Mas, há uma pergunta que não foi feita. O tal saco de dinheiro, viria também para quem, vereador?

Quem ficou de fora dessa suposta denuncia na seguinte frase gravada pelos jornalistas: “Não, aí o comentário na cidade é que viria também um saco de dinheiro para os vereadores”. Quem ou quais pessoas estão escondidas sob o ‘adverbio’ também?

Não foram apenas os advogados da Câmara que abafaram o grito do vereador Joaquim, certamente, ele mesmo não gastou todas as informações de que dispõe. E guardou alguma coisa para dizer depois da bronca, tipo: “ouvi dizer”. E aí fica o dito pelo não dito. O imperdoável perdão!

Os limites individuais morais, éticos, sociais, religiosas etc. que cada pessoa traz desde a mais tenra idade, aparece na idade adulta, seja politico ou não. Ninguém é perfeito, mas o homem público se apresenta sempre como representante da comunidade, como eles dizem, por isso não tem o direito de dizer que ‘ouviu falar’. Como dizem os mais entusiasmados: Mato a cobra e mostro o pau (tchê)!

As convenções sociais, o conviver em sociedade, exige de nós uma reserva moral adequada aos nossos princípios tradicionais. Ninguém produz um ‘saco de pizza’ por nada.

O que é isso? Do que de trata? Balão de ensaio? Falar por falar é golpe! Isso é golpe; olha o golpe aí! Como dizia a ventríloqua do Nobrega na TV. Enquanto isso o debate com uma provável concessionária para as contas do DAEA, secretamente, prossegue sem marolinhas.

Qual o papel dos nossos vereadores? Quando escreve não assina; quando assina não lê! Quem tem coragem de aumentar o número de cadeiras? Essa informação não é encontrada no minidicionário Aurélio. Que saco!



Ventura Picasso – Cia dos Blogueiros
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4.6.11

"Cadê o saco"?

Quando um plano sigiloso e desonesto deixa de ser segredo, as informações atingem a sociedade civil como uma bomba. A notícia de mais um escândalo político, agride os suspeitos envolvidos na trama. Como de costume a primeira declaração, ou a de sempre: Não tenho nada a declarar; Não sei de nada.

Uma nota publicada em 05/05/2011, dizia o seguinte: “Depois de três anos sem aumento, o Departamento de Água e Esgoto de Araçatuba (DAEA) vai reajustar o preço da tarifa de água em 18,88% a partir de junho próximo”.

Num outro momento, dentro do mesmo pacote, o vereador Joaquim da Santa Casa (PDT), em entrevista à Folha da Região, falou pelos cotovelos o que jamais será provado, antes, porém devidamente alertado: “para sua segurança esta conversa será gravada”: “Não, aí o comentário na cidade é que viria também um saco de dinheiro para os vereadores”, declarou.

“CADÊ O SACO?”

Onde tem fumaça poderá ter saco. O cheiro contamina o ambiente e enche os olhos de água que não é do DAEA; todo mundo de olho no saco. O Vereador Cláudio Henrique da Silva (PMN), que não sabia de nada foi surpreendido numa escola: ”Cadê o saco”? Para outro vereador, alguém sugeriu: “Divide um pouco”...

Não importa o termo que queiram dar para essa negociata. Estamos decepcionados com o Estado mínimo. O neoliberalismo está provado, não é bom para a população, só é bom para quem adquiri as empresas estatais. O departamento de águas (DAEA) é um bem publico de interesse social.

A totalidade de escândalos expandidos com o saco de dinheiro é assustador. A nossa capacidade de indignação é colocada à prova. Reajustar o preço da agua em 18,88%, é imoral; Qual produto obteve um reajuste desse porte nos últimos tempos no Brasil?

Em 10 de janeiro de 2011, a Câmara derrubou a obrigatoriedade de o município realizar plebiscito para terceirizar ou fazer concessões dos serviços do DAEA. No entanto, manteve a consulta popular apenas em caso de privatização da autarquia. O governo tentou derrubar o plebiscito para todas as situações. Por meio de emenda, o vereador Rivael Papinha (PSB) conseguiu manter a obrigatoriedade de um referendo popular para eventual privatização.

Tirando do eleitor a opção de votar contra ou a favor da concessão, terceirização ou privatização do departamento de aguas, nessa cascata de fatos, a Câmara Municipal marca como primeiro passo um conto fantástico. Isso posto, os 18,88% acima e a suspeita de privatizar o DAEA nos deprime, não por ser uma proposta casada(?), mas se verdadeira desonesta. O ‘saco de dinheiro’ cabe exatamente no espaço existente, de um lado o aumento do preço da agua e do outro, a privatização (concessão ou terceirização) da empresa. Só a máfia pode planejar um ato descarado de tamanha envergadura, um crime perfeito.

Aumentar o número de vereadores, nesse ambiente, nem pensar?

Mesmo sendo cabide de emprego usado e abusado por vários governos, a sociedade não pode abrir mão de um bem social, um direito que só a autarquia pode garantir. A Procuradoria Geral do Estado pede 57 cargos do DAEA, 58 da Câmara de Vereadores e 278 cargos comissionados, considerados inconstitucionais. Dependendo da justiça tudo pode ser bem resolvido.

Não podemos contar com uma revolta, tipo oriental, mas o Partido dos Trabalhadores PT, tradicionalmente defensor dos interesses sociais, pode conscientizar e conclamar o povo de Araçatuba, a exigir um final feliz para essa novela, antes que os ‘caras pintadas’ se apossem das bandeiras vermelhas.

Caso contrário abatido, o coletivo petista acabe num gueto, deserdado por seus eleitores, como todos os partidos políticos decadentes.

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Baseado em fatos extraídos da Folha da Região de Araçatuba. Foto: Saco de dinheiro (política) -
http://2.bp.blogspot.com/e6XbaaWXy8o/TbgUxa6LEWI/AAAAAAAABzQ/_JGiOEdCb68/s400/saco-de-dinheiro1.jpg