27.12.12

Greenpeace - Agora é nóis!



Gramacho - maior lixão a céu aberto latino-americano
 “Diga não à importação do lixo”.

Há vinte anos no Brasil é hora da ONG Greenpeace invadir a Prata.

Socorro senhores ambientalistas!
Importadora de lixo abre firma em Araçatuba.

Os ocupantes da casa de leis, cheia de políticos amestrados, obedecendo fielmente aos seus treinadores, não atende as expectativas de seus eleitores. Os legisladores atuais (dezemro/2012), doze “representantes”, não reuniram votos suficientes para impedir o avanço dessa iniciativa nefasta, a importação de lixo dos municípios vizinhos.

Não podemos esperar a humanização da cidade com os vereadores que assumirão em janeiro de 2013. A orquestração arranjada pela Casa Grande, reeleita, por intermédio de seus naipes, distribui as tarefas segundo suas ambições. Fossem 30 vereadores, mesmo assim, a população não seria defendida pelos novos “representantes”. A votação manipulada e sorrateira dos edis acaba gerando a descrença, em quem prometeu fidelidade, destruindo de cara uma esperada reserva moral e ideológica.

Fomos traídos?

A vereadora recém-eleita pelo PT, Beatriz Soares Nogueira, que quer fazer leis, mesmo multada por irregularidade publicitária foi diplomada. Certamente fez o que não devia. Lei é lei, até para certas autoridades. Mas, não passa pela minha cabeça que um representante do PT possa vacilar frente a uma opinião sobre meio ambiente.

Sergio Guzzi trouxe em sua matéria à Folha da Região uma resposta da futura vereadora Beatriz que me surpreendeu. Como ex-dona de casa, ela deveria saber que lixo é lixo. E quanto menos lixo em nosso município melhor para todos; Uma Araçatuba para todos! Sem lixo. Ela, enquanto petista, sem susto, poderia responder de bate pronto: Lixo não!

Rosaldo eleito pelo PV; PV quer dizer Partido Verde. Aquele fundado pelo Alfredo Syrkis autor de ‘Os Carbonários’, companheiro de Fernando Gabeira, que copiou a mesma proposta de Heloisa Helena, chapando a Marina da Silva à presidente, secando o eleitorado do Lula. A Blablarina hoje já é classe média evangélica, certamente para ajudar algum parceiro do Aécio ou do Serra de olho numa boquinha ministerial.

Rosalvo apesar de verde não está na segunda divisão, mas segundo Guzzi, vai debater o assunto com a ‘comunidade’. Sai pra lá! Não tem conversa mole – por obrigação moral – o meio ambiente é ou não é a sua praia?

A única alternativa para varrer o lixo do município está com o Greenpeace. Se o lixo é o símbolo da degradação ambiental da Prata, é apenas o primeiro passo. O segundo é liberar uma indústria de papel e celulose na beira do Tietê ou uma usina atômica na prainha Milton Camargo. No carnaval, a ‘palhaçada’ pode ver passar as barcaças cheias de lixo tóxico altamente radiativo.

Moçada, que felicidade!

O governo municipal vai construir um mirante no meio do rio para ver e aplaudir o progresso pessoal que cada vereador conseguiu votando a favor:

- Quem é a favor permaneça no lugar. O Greenpeace é contra.

Araçatuba não é deposito de lixo!

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Ventura Picasso – Cia dos Blogueiros – 27122012

Foto - http://imguol.com/2012/05/30/31mai2012---maior-lixao-a-ceu-aberto-da-america-latina-gramacho-baixada-fluminense-encerrou-suas-atividades-em-junho-de-2012-1338405232422_956x500.jpg




7.12.12

Seedorf no 3º mundo


Clarence Seedorf

Está chegando a hora! A seleção brasileira de futebol volta ao velho Felipão. Desta feita, Scolari disfarçado de voluntário, da confiança da Bancada da Bola, um brinco bajulando a orelha do Ministro dos Esportes o palmeirense Aldo Rebelo. A Bancada cobriu a barreira – não há como segurar esse ataque – é muita grana, irresistível, nesse jogo. O chute no trazeiro, que bom, foi carícia do Jérome!
Jogo duro; jogo sujo?
Quando cartolas se juntam aos políticos, publicitários e pseudos jornalistas, para “defenderem” os interesses do futebol profissional do Brasil, neste terceiro mundo futebolístico, como nos ensina José Mourinho, o alvo principal a fatia do bolo que cada um vai levar.
Mano Menezes, extécnico do selecionado, pelo o que tudo indica, estava fora do contexto. Um estorvo para a maioria dos entendidos.  A fritura havia começado ao fim das olimpiadas de Londres. Mano por sua vez, ficou na sua e não pediu para sair.
A medalha de prata que nos trouxeram os futebolistas olímpicos nada representou. Os atletas calados, cabisbaxos aceitaram a ingratidão dos patrocinadores e suas tribos. Calam não por falta de coragem, condicionados por seus agentes, obedientes e passivos. 
Queremos o ouro. O importante não é competir, mas vencer, apenas vencer, sempre; o grito da mídia.
Quem ganha qualquer medalha que não seja a ouro nunca será reconhecido neste país. Exceto Adriana Araujo boxeur que esfregou a centésima medalha olímpica no nariz de Mauro José da Silva, cartola da Confederação Brasileira de Boxe.  A medalhista olímpica, de Londres, mandou recado:
- Sou Bronze seu Mauro, quer queira ou não!
 Antes de Adriana o único, a desembarcar no Brasil, com a medalha de bronze no peito fruto olimpico de Atlanta (1996), foi Ronalducho; orgulhoso pelo feito. Valeu Fenômeno!
Mano não pedia demissão. Descontente com o comportamento de M. Menezes, o deputado comunista e Ministro dos Esportes, passa a desfilar com o ‘voluntário’ Felipão pelos cenários em construção Brasil a fora. Ele não levava uma sombra ao extécnico, mas uma assombração.
A crítica especializada não fez a leitura da jogada, fingindo que não viu, não divulgou a traição. Ao traído, que não teme fantasmas, sobrou a paciente discrição, o silêncio.
 Felipão não assombrou Mano Menezes; Inconformado, Rebelo o carrasco político, a serviço do cartola da CBF e da Bancada, apertou o nó no pescoço do condenado que, mesmo assim, não renunciou.  Numa decisão vulgar típica de executivo autoritário, ao ver falhar o plano do ministro, Marin chuta o banquinho enforca e exclui o técnico Mano.  Ao político faltou verniz.
Finalmente alguém de grande expressão popular, um verdadeiro profissional, recem chegado ao Brasil, nos surpreende com sua declaração que é uma grande descoberta para os quase 200 milhões de técnicos no país do futebol.
A malandragem praticada por muitos jogadores é, infelizmente, louvada por uma grande parte da mídia especializada. Essa mídia de baixa qualidade cosidera, os trapaceiros que enganam a arbitragem, ótimos artistas. ‘La mano de Dios’ é uma poesia para os imbecis.
O ídolo esmeraldino não juntou coragem para se desculpar, apenas para pressionar o árbitro a validar o que não valia. O surinamês, jogando com a dez do Botafogo, torceu o nariz: Covardia; com a mão não vale!
O holandês de Paramaribo, Clarence Seedorf do Fogão, já se deu conta de que está no terceiro mundo do futebol.  Culto, casado com uma brasileira, fala fluentemente português, holandês, espanhol, italiano, francês e inglês. Romântico deixou a elegante Milão e pousou em General Severiano. Oriundo de multiplas culturas futebolísticas, Seedorf não respeita malandragens, ou qualquer tipo de deslealdade.
Na Itália, o jogo entre Lazio e Nápoli, o jogador alemão Miroslav Klose do Lazio usou a mão para empurrar a bola para dentro do gol. Imediatamente avisou o árbitro. O gol foi invalidado. Em Braíslia nem com CPI o Romario levanta a verdade.
Enquanto a crônica e a crítica esportiva afirmar que futebol é ‘pra macho’; e quem ouve o discurso, curto e grosso, do velho novo técnico Felipe Scolari, falando sobre algo tranquilo: ”Que vá trabalhar no Banco do Brasil”! Essa violência nas palavras e nos campos, nas arquibancadas ou na porta dos estádios, destrói e é destruída violentamente.
Os bancários queimaram o filme do Big Phil. Em nota delicada e oportuna informaram ao abelhudo que o BB conta com 116 mil funcionários, que todos os dias vestem a camisa do Brasil. E disseram mais: “Para a família BB, planejamento, respeito e organização são os segredos para uma estratégia de sucesso que transforma a pressão do dia-a-dia em motivação para as conquistas e para o apoio ao desenvolvimento do Brasil”.
Isso que dá a ‘Má educação’. Antes de entrar em campo estão chamando o pai de família de burrooo.
4000
Ventura Picasso – Cia dos Blogueiros –


27.10.12

Caray !



Mário Moreno - Cantinflas
* Y como decia Napoleón: "El que parte y reparte, le toca su Bonaparte".

"Se você quiser dar o salário pro cara dê. O cargo eu não dou"! Aí a briga começou. 
Como seria o encontro entre Cantinflas e Almodóvar para ler na mesa o roteiro do mensalão?

Oh vida dura! A biografia do ministro Joaquim Barbosa, nos surpreende, ao mostrar sua origem: além de pobre e negro, arrimo de família entre oito irmãos. As variáveis preconceituosas, o racismo daltônico sapateava, buliçosamente, em seu palco. Não há preconceito, entre iguais, no Brasil?

Se por seu lado "comeu o pão que o diabo amassou", por outro socializando a miséria, coisa que só os pobres são capazes reservou, uma fatia daquele pão envelhecido, ao ex-ministro Chefe da Casa Civil José Dirceu.

- É mensalão!
- É caixa dois!

O grande ministro do STF defendeu e ganhou: É mensalão sem Habeas Corpus. A última palavra é a primeira que detém o poder; que manda.

Essa novidade na justiça maior do Brasil criada pelo ministro Joaquim, quer queiramos ou não, nos faz relembrar momentos contraditórios e degradantes, proporcionados por HCs coloridos.

Baseados em parcerias suspeitas, alguns HCs concedidos pela nossa última instância da lei. Lá no fundo do baú, podemos ver, o simpático e divertido banqueiro Cacciola e Dani Dantas, que inspiraram a Súmula Vinculante nº11, popularmente conhecida como "Súmula Cacciola-Dantas, ou o 'adeus às algemas'.

Juízes federais, no entanto, debocham e protestam contra a súmula ridícula.

Roger Abdelmassih, outra aberração 'legal' do velho STF. Estava na cadeia, meteu sob o braço um HC e aterrissou no Líbano. Ele nos deve 278 anos de prisão por ter violentado 37 senhoras.

O despejo coletivo da Comunidade Pinheirinho que ocupava o terreno pertencente à massa falida da Seleta S/A do manjado Naji Nahas, representa uma força estranha conhecida pelos pobres: "A corda arrebenta no lado mais fraco".

Angélica A. S. Teodoro furtou num supermercado um pote de manteiga de R$3,10. Após cinco meses de prisão foi decidido, a seu favor, no Superior Tribunal de Justiça (STJ) um HC de soltura. O juiz não lê a realidade, apenas o Código Penal.

Joaquim Barbosa mineiro de Paracatu encontrou uma mineira de Belo Horizonte, na papelada do Gurgel, presidente do mineiro Banco Rural, Katia Rabello. Minas Gerais é um tapete acobertando um número desconhecido de corruptos. Nada contra o Estado mineiro do leite, do queijo e do Azeredo. Quem conhece sua história e sua geografia, um dos estados mais lindos do Brasil.

J. Barbosa não perdeu a oportunidade, condenou Katia Rabello, na Ação Penal 470. A primeira condenação feminina do STF ninguém esquece. Ela Dançou. Não esquece também o envolvimento 'acidental' do Banco Rural no esquema PC Farias. Há quanto tempo!

O julgamento é político, ideológico e por isso emocional. O trato entre políticos, investidos de mandato ou de cargo executivo, não cabe gentilezas. Solidariedade ou qualquer outra dose que sugira compreensões emocionais, muito menos. O cargo, o espaço ocupado por um quadro, sempre será o objetivo de outrem.

Uma frase forte, finalizando uma cobrança, de alguém que não renunciou: "Se você quiser dar o salário de presidente pro cara, dê; o cargo eu não dou"! Aí a briga começou.

O espaço da justiça em sua instância de poder, como ensinou Montesquieu (executivo;legislativo;judiciário), por direito cabe ao político munido de suas imunidades, defender com seu discurso, contra ou a favor de um objetivo, em seu ambiente público.

O grito do afogado que agarra qualquer coisa para flutuar, partiu da boca de Roberto Jeferson, com o intuito de salvar a própria pele, para liquidar com a carreira política de José Dirceu:

- O chefe do mensalão é Zé Dirceu, bradou Jeferson. Eis a evidência criminosa.   

Em  política, o discurso é volátil, pode ser verdadeiro ou não. Nos tribunais onde se julgam crimes, o aditivo principal são as provas concretas reais e legitimas, para se chegar a um resultado justo. Ouvi dizer que disseram, não presta como prova.

É possível acreditar na palavra de RJ? Há entre os ministro os que acreditam sem o menor esforço: "Bati o olho na porta do armário" falou o deputado. O armário em questão, possivelmente, seja um dos seguranças da Esplanada.

Onde entra Maquiavel, e em que capitulo dessa história, com sua sabedoria política? A luta pelo poder de forças independentes e tão próximas, legislativo e judiciário, ambas ante a precariedade moral, perante a sociedade, o roto punindo o rasgado, num momento de grande exposição midiática, em plena campanha eleitoral a honra do supremo exposta será lavada.

Os brasileiros não aceitam mais presos com colarinho branco sem algemas. Chega! Quem perde na primeira e segunda instância não merece acesso ao STJ, muito menos receber de algum figurão togado um Habeas Corpus dourado.

As reflexões políticas de Machiavelli (1469-1527), sobre corrupção estão presentes em todos os personagens, entre juízes e suspeitos, num formato senoidal e ninguém pode dizer que não é isso. Após o poder  político conquistado justificam-se os crimes de traições, saques, falsidades ideológicas; vender liberdades e propriedades do Estado como se fossem bens privados; Roubar? Nesse meio, "os fins justificam os meios"?

Aguardamos a extinção das coligações e dos partidos nanicos, a eliminação dos cargos comissionados; Queremos o financiamento público de campanha, acabar com as emendas parlamentares, com a frota de automóveis de vereadores, deputados e senadores, com o fim dos apartamentos funcionais e impedir a distribuição farta de dinheiro público entre um coletivo gigantesco de assessores, absolutamente, descartáveis.

Não é pouca coisa, para o próximo presidente do STF o juíz Joaquim Barbosa, tudo é possível. Coragem não lhe falta. Aquela coragem de moleque de rua, aquele moleque que pode mudar a sociedade. Sociedade pobre que precisa de coragem, antes de qualquer coisa, para ser pobre.

O menino ainda não mudou o Brasil - menos, Veja, menos... - Há poucos dias, um dos pares de JB, declarou durante um 'bate boca' emocional, que este não estaria preparado para assumir a presidência do supremo. "Não é assim Joaquim".

Para isso bastam as evidências?

- E as provas?

-Só lá no posto Ipiranga!

* "No sospecho de nadie, pero desconfio de todos".

A desconfiança sufoca nossa consciência. Pensar em crer no supremo, mas com que roupa? De uma hora para outra, Senhor ministro, cede uma exclusiva para a Globo? Furou o esquema - as altas mídias não estão à procura de justiça - a direita quer os préstimos do juiz.

E nós que optamos pelo caixa dois, qual é o nosso caminho, para acreditar e conviver neste universo escandaloso? O juíz Ricardo Lewandoviski quer provas. As evidências são ou não são suficientes? E a razão, o contraditório e a dignidade etc. Coisas estranhas acontecem nesse ambiente habitado por funcionários públicos, otimamente remunerados, que não abdicam nada do "por fora".

Almodóvar faria uma comédia feminina erótica e deliciosa. Lá nas Alagoas, o ex-prefeito Beroaldo pagou no Amanda Night Club, um show erótico, com cheque da prefeitura sem fundos. A gostosona Denise Rocha transformou o gabinete de um senador em locação de filme privé.

O ambiente é pesado. Difícil acreditar que estão acontecendo coisas novas no palco da justiça. Perdoe-nos ministro, mas vamos dar um tempo.

Pra nós os leigos: É caixa dois!

* Cantinflas (1911-1993)
Foto Cantinflas - http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/b/be/Mario_Moreno_-_Cantinflas-2.jpg/200px-Mario_Moreno_-_Cantinflas-2.jpg


Ventura Picasso - Cia dos Blogueiros
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13.9.12

Cabeça de Burro

A fila andou. As compras começaram a passar no scanner. A moça do caixa perguntou ao menino dos pacotes:
- Hugo, você tirou o título de eleitor?
- Tirei quando completei dezesseis anos, Angelina. Vou votar pela primeira vez.
- Em quem você vai votar?
- Num amigo do meu pai. Cara legal me deu cinquenta reais. Papai falou que ele é muito honesto.
- Porra meu, você é que é sortudo. No primeiro voto já leva cinquenta paus!

Dona Matilda, professora de história contemporânea, coroa enxuta meteu o bedelho:
- Meu filho você tem a coragem de afirmar que esse candidato asqueroso presta? Menino fique sabendo, que o teu voto foi estuprado por esse tarado! Imagine já na primeira vez, no primeiro voto da vida, você encontra esse demônio traficante de voto! Você vai viciar, sai dessa.
Ah, dona Matilda, sabe como é né? Cada um fala uma coisa.
- Você assistiu à aula que eu expliquei à classe que o Título de Eleitor não pertence ao portador, mas a toda sociedade? Você não entendeu nada do que falei?
- Faltam muito dias para as eleições professora, quem sabe até lá eu descubra outra resposta para esse problema. Não sei o que meu pai pode pensar, ele vendeu o meu voto.
- Hugo, você é bom aluno, devolva o dinheiro para esse ordinário e já diz na cara do cara que não vota mais nele nem na coligação dele!

O papo despertou Angelina, interessada no candidato fajuto do Hugo, e pensava:
- Pô meu! Por cinquenta pratas, rolava na cama com ele, numa boa, até acabar a contagem dos votos do segundo turno. Vou procurar esse Cabeça de Burro, se ele amolecer arranco uma grana desse otário.

Hugo, atendendo a todas as clientes do mercado, levava suas mercadorias até os automóveis ,  no pátio do estacionamento. Matilda recolhendo suas compras perguntou:
- A que horas você deixa o trabalho?
- Em quinze minutos.
- Quer uma carona?
- Quero sim. Justamente hoje deixei a magrela em casa. O pneu furou.

Na hora combinada, Matilda estava à espera de Hugo.
- Onde você mora?
- Moro na Paineira.

Mesmo de automóvel não é tão perto. Começava a escurecer e o trânsito a cada momento mais pesado. Centenas de motos e bicicletas embaralhados poluíam as ruas em alta velocidade. Por fim chegaram. Uma casa bem cuidada. O imóvel ocupa uma área ao fundo do terreno.  À frente ajardinada e sombreada por várias Acácias. Um caminho de pedras roliças leva do portão à garagem camuflada por camadas de Hera bem aparadas.  Agora as luzes da rua já estão acesas.

- Chegamos professora.
- Pensa bem no que falamos menino! O teu voto é da comunidade, não é teu! Ninguém tem o direito de vendê-lo, viu?
- Vamos entrar dona Matilda.
- Hoje não posso. Tenho um compromisso muito importante no Conselho de Docentes. Deixemos para outro dia, tá bom?
- Não faça isso professora. É a primeira vez que a senhora vem até minha casa e não quer entrar? A casa não é feia por dentro. É aconchegante. Eu tenho suco de laranja, refrigerantes e até cerveja belga.
- Presta atenção Hugo; Pra você não pensar que estou desfazendo de sua casa vou entrar, mas fico apenas por quinze minutos. Tá?

Abrindo o portão da residência, Hugo permitiu a entrada do automóvel.  Caminhando em direção à casa, Matilda ficou admirada com o trato do canteiro de flores coloridas. Entraram; A casa vazia chamou a atenção da mulher visitante.
- Hugo não tem ninguém em casa?
- Não dona Matilda, ninguém.
- Sua mãe está trabalhando?
- Não. Não tenho mãe.
- Sinto muito. E seu pai?
- Papai está em Brasília. É assessor no Itamaraty.
- Você vive sozinho nesta casa?
- Mais ou menos. A vizinha cuida de mim desde que nasci, cuida da casa, faz comida, lava roupa, e atura minhas mágoas. Não conheci mamãe. O que a senhora quer beber?
- Uma Stella Artois bem gelada, uma só!  Estou dirigindo e sabe bem como é. Acontecendo alguma coisa, o policial já chega apontando o bafômetro.  Você tem razão, a casa é acolhedora. Muito arejada e decorada com amor. Linda! Você e seu pai devem ser felizes vivendo aqui.

- Venha professora vou lhe mostrar a casa.

Um lugar cheio de lembranças. Fotos de sua mãe enfeitam os móveis e as paredes. No jardim de inverno as orquídeas ocupam todos os espaços. No corredor de mármore branco, a penumbra abriga os quartos justapostos.

- Dona Matilda este é o meu quarto.

Surpreendeu-se com a fina decoração da suíte. Inacreditavelmente organizado. Nunca vi um quarto de menino tão arrumado. Parabéns.

- Minha querida Josefina, a vizinha, cuida de tudo todos os dias. Adoro essa mulher. Amamentou-me por dois anos. Dividíamos seu leite, um pouco para Tita, um pouco pra mim. Vez que outra me enrosco agarrado em seu colo. Ela costuma dizer, brincando, que tenho complexo de Édipo crônico.

Matilda começa a perceber que Hugo é um garoto carinhoso que valoriza as pessoas de seu habitat.
- A senhora tem medo do escuro?
- Não.
- Eu tenho uma mania esquisita. Não sei como aprendi nem por quê.
- O que é?
- Quando me sinto sozinho, triste, pra baixo na fossa apago as luzes e fico no escuro, pensando nas outras pessoas com suas dificuldades e problemas, sozinhas também, até dormir. Minha vida parece triste para os outros, mas no geral sou muito feliz. Posso apagar a luz?
- Você não está sozinho, moço.
- Mas, estou feliz, posso?
- Pode.

Passava das sete horas, Hugo preparara o café para Matilda. Naquele dia não houve aula de história no colégio, e no supermercado faltava um empacotador, somente Angelina notou a falta.

Preguiçosamente, o sol aquecendo e iluminando o ambiente, o amanhecer provocando a algazarra dos pássaros, o riso de Hugo servindo o desjejum, observando o saboroso riso da mestra, ao acordar, que já não sabia se era Matilda ou Jocasta.

4626 – Ventura Picasso – Cia dos Blogueiros
Foto: bi_jumento_001-1.gif
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30.8.12

Voto de família

Na rampa da Rua 13, entre o Piu Piu e o Bar Aurora, Rick acompanha Ieda e Carla. Ocupam uma mesa, na calçada, cheia de latas de cervejas vazias. O papo rola livre em plena campanha política eleitoral, Ieda discutia, entusiasmada, o boquete da Monica Lewinsky.

Um cidadão recolhendo latas vazias de bebidas, humildemente, chega à mesa do trio amigo:
― Dá licença?
― Sim?
― Posso recolher as suas latinhas?
Rick, atenciosamente, respondeu ao catador:
― Por favor, o senhor chegou bem na hora, a nossa mesa não suporta mais, não há espaço para nada; obrigado.  

Carla, uma italianinha branca como leite, cheirando fim de banho, vestindo seda esvoaçante desfila sempre de cabeça erguida, risonha, apetitosa – carne fresca no pedaço sentadinha ao lado de Rick – que tesão. As mamas tipo pêra, iguais às da Kim Novak quando chegava, sem sutiã, no set de filmagem; Hitchcock detestava. O mago do medo perdia a direção.
― Doutor, ainda bem que tem muita gente sem educação. De todas as mesas aqui na rampa, só a sua mantem as latas sobre a mesa.  Quando vejo uma latinha na sarjeta, vazia, jogada ao chão, meu, vejo cinco centavos. Assim sustento minha família, ainda bem que existem os sem educação. Já me vou! Adeus a todos, bom fim de semana.
― Sabe de uma coisa Carla, interfere Rick:
― Quando vejo um santinho de candidato jogado no meu jardim, sempre imagino quanto custou aquele lixo que polui as nossas ruas. São milhões de Reais no aguardo de um retorno supostamente desconhecido; Mas, que retornam, não há dúvidas. Em política, é a ambição descontrolada, a ideologia dominante. 
Os salários percebidos em quatro anos, no tempo de um mandato normal, não atingem os valores gastos em uma campanha vitoriosa, considerou Ieda, retornando à Monica:                            
― Quando me lembro do mandato do Clinton, me encharco molho até os joelhos.  Lembra-se da Bilá? Pois é, ela me contou o affair entre Bill e Monica, um negócio que estava dando certo, ela entregava pizza pro cara, porém a abelhuda Linda Tripp, entrou na concorrência e melou o jogo.     
Chupando sorvete Carla analisa:         

― Não foi corrupção ativa na concepção cristã; foi passiva, a pizza era boa, ela gostou e, etc. A justiça dos homens, ancoradas na sagrada, no supremo debate jurídico, qualificaram o ato obsceno como “quase relações  sexuais.  A fissura animal não se poupou, lá na saleta Oval da Casa Branca, onde dividiam a pasta italiana, partiram rapidinho para a tão sonhada ação. 
Comeu?
Não! Ficou na porta.
O bombardeiro Hillary, ameaçou, mas calou. 
O New York Times não sentiu emoção. Tudo bem. Não houve conjunção carnal, a menina não pegou as coisas do presidente, a justiça não condenou, nem o Times. Aconteceu, por que aconteceu! A culpa foi da Linda que gravou numa segunda-feira as aventuras de um lindo domingo da Monica. Bafos! Coisa banal, mulherzinha ridícula... Um trapo essa Tripp!
Agora, pensando bem, muito melhor políticos tipo Clinton. Os que eu conheço preferem roubar dinheiro e dividir uma pizza na justiça para comemorar o fato. Nem a mãe vota no individuo.
Atualmente, ninguém se escandaliza. Mas, certamente, se uma dona fosse flagrada com a boca na botija de um político, o felizardo seria cassado. Suportar essa imoralidade, jamais. Roubar dinheiro é outra coisa. É coisa normal e costumeira, meu!

Rick pergunta:
― E a dignidade?
As meninas perdidas:
― O quê?

"...depois, muito depois, apareceu a estrela do mar..." 
Foto http://trezende.files.wordpress.com/2010/03/jackpot1.jpg                             http://t0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcRPdLd4fln1NigR6wDHxXvbo3TrNo0JYLxBYJGlgAXEu9LPUcODNw  
2282 Ventura Picasso – Cia dos Blogueiros   
 

2.8.12

Contos Perversos

RESENHA

Participando da vida em sua totalidade, através da literatura, por textos eróticos de amor e ódio, de prazer e dor, com fé no monoteísmo sexual na hora exata do orgasmo, de alegria e tristezas descobri em ‘Contos Perversos’ a perfeição libertária provocada pelos “27 guerreiros, irrequietas almas, que se escondem” dividindo suas 178 páginas.

O prefácio, Em Fermentação, de Aninha Franco, seduz qualquer leitor que tenha um mínimo de conhecimento dos protagonistas que conviveram com Lou Salomé. Na página 15, nos traz um trecho de ‘Cartas a um Jovem Poeta’, de Rilke, sobre o interesse principal da missiva: ― Meus textos são bons?

Aqui a escritora, respondendo ao pedido dos escritores de ‘recomendá-los‛ (textos) aos leitores, delicadamente comenta: “... essa gente jovem talentosa que escreve bem continua tentando preencher o winchester semivazio da memória brasileira, é sinal de que a nova ordem continua ‘Em Fermentação‘. É o que importa”.

Rilke respondeu a Franz Kappus: “Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de tê-lo perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por outro redator (ninguém o pode aconselhar ou ajudar)”.

Foi muito feliz a baiana Aninha, escritora e teatróloga, ao abrir o prefácio desta obra lembrando a Carta de Rilke. Essa geração de artistas modernos do século XIX que tiveram seus caminhos cruzados, de certa forma, aglutinados ao redor de Salomé, contribuiu definitivamente para o avanço da literatura e da psicanálise contemporânea – Nietzsche (1844); Paul Réé (1849); Freud (1856); Salomé (1861) e Rilke (1875).

Escolhi o conto de Ana Lúcia Merege, para representar todos os escritores e textos. Descrever sobre todos os textos é impossível. A coletânea é maravilhosa. Especialista em ficção medieval publicou: O caçador e O jogo do equilíbrio, além de vários artigos e do ensaio Os contos de fadas: Origens, história e permanência no mundo moderno, anima o blog ― A estante mágica de Ana – http//:www.estantemagica.blogspot.com.

Contos Perversos 1, da coleção Literatura Clandestina, organizado por Elenilson Nascimento nos contempla com a belíssima obra de Ana Lúcia: A senhora do amor e o herói trapaceiro. Essa narrativa trata de um roteiro facilmente identificável em dois pontos importantes: a) O vocabulário, nos transporta, sonhando, à uma realidade medieval. b) Trata-se de um texto erótico contado por Belle, uma jovem mulher interna em um convento. Seu interlocutor oculto, Esquerdo são vozes que determinam suas ações.

O erotismo explorado por uma escritora sempre desperta, entre machistas masculinos ou femininos, a libido dos leitores, que passam a andar, passo a passo, com a autora. Em outros momentos como voyeur observando às travessuras de Belle, quando olhamos pelo buraco da fechadura o olho mágico de ontem o mesmo de hoje, toda a trama. A coragem de criar e escrever sobre relações pessoais, até hoje, gera questionamentos dos mais variáveis. Num passado não muito distante a mulher escrevia e falava com a boca do homem. A inquisição não perdoava.

“Era apenas um jovem moleiro da vizinhança, e não tínhamos trocado mais do que alguns beijos no jardim do convento, mas elas o assustaram tanto com seus gritos e ameaças que ele prometeu casar-se comigo. Tentei explicar que não era necessário, mas ninguém me deu ouvidos, e as irmãs acrescentaram tanto aquilo que tinham visto que meus pais aceitaram o pedido do rapaz.”

O título soa como uma manchete de primeira página de jornal. O conteúdo literário atende religiosamente ao chamado: “Contos Perversos”. Lendo alguns dos textos distraidamente começamos a imaginar a reserva ética, moral e psicológica da paróquia e de cada autor. São, absolutamente, contos perversos. Não cabe uma análise do comportamento desses escritores. Mas, nessa coleção, amigos; só entra se for perverso. Boa leitura...


O livro pode ser encontrado com: elenilsonascimento@ig.com.br; http://literaturaclandestina.blogspot.com


Ventura Picasso – Cia dos Blogueiros

25.6.12

Basta! Thomaz

*E aí... Comeu?

Sexo e contravenção são divertidos. Quem vê cara não vê coração, assim como a visível Raimunda, de perfil fazendo uma fezinha, arriscando na milhar do jacaré um sonho da noite anterior; logo mais a noitinha estará em seu ponto. Sem preservativo (?), nem pensar! No capitalismo tudo, tem um preço, menos tu doutor.

Refletindo sobre imagens e palavras, sem imaginar, invadi o espaço de ‘Carlitos’. Os ricos de hoje, compram o silêncio, contradizendo Chaplin que afirmava em Tempos Modernos: “os ricos compravam barulho”.

Na televisão a imagem não constrangia o espectador indignado; Violentava. A cena subvertia a estética. Naquela hora e naquele lugar, lado a lado, Thomaz instrui o suspeito: “Fecha o bico”.

― ”Com os direitos garantidos pela Constituição da República Federativa do Brasil, vou ficar em silêncio; caladinho, como cidadão brasileiro e eleitor do Demostenes!”

Entrou mudo e saiu calado.

Ao lado de Cachoeira, seu advogado com o olhar distante, num momento abstrato divagava em outra praia. Ele estava, sem querer estar, constrangido.

Onde estariam em 2003, o advogado e seu cliente? Em suas bancas? No Ministério da Justiça, Thomaz Bastos transformava a Polícia Federal. Em Goiás, o bicheiro vendia pules. Não se bicavam. Cada um na sua, um não existia para o outro. Será?

Os homens de bem, hoje, se orgulham da PF. Entre todos os Ministros da Justiça, em nossa história, o melhor. O nosso ex-ministro têm o direito de defender qualquer suspeito, é o seu trabalho, dele depende a sua subsistência. Não é o primeiro ex-ministro da justiça que defende a causa dos gigantes da contravenção.

O patrulhamento exercido por uns poucos, alegando que como ex-ministro, em hipótese alguma, ele deveria defender Cachoeira; Mais contundente, o Procurador Regional da República, Manoel Pastana, entrou com uma representação contra o ex-ministro Bastos, entre outros pontos alegou o fato de Cachoeira não ter dinheiro suficiente para pagar os honorários à banca de Thomas. Fica subtendido que aceitar dinheiro de bandido é como receptar produto de furto. Não é bem isso, mas quase.

O discurso de Thomas na TV, procurando safar-se do rótulo de advogado ‘porta de cadeia’, aquele que faz qualquer coisa por dinheiro, foi mal. A linguagem visual é outra. O discurso que contradiz a acusação é abstrato e volátil. As imagens daquela foto televisiva sem legenda, não. É o cenário congelado que faz história.

Apenas uma foto!

O argumento sonoro, dizia Charles, manipula a fotografia. No filme mudo, de Cachoeira e Bastos, a expressão corporal não revelava nada, não havia um gesto, uma palavra, cúmplices estáticos traídos pelo o olhar. Moral da foto imoral, os olhos dizem tudo.

Apenas uma foto!

A CPI é importante para a sociedade por abrir e liberar o debate sobre o comportamento de funcionários, servidores públicos e pessoas comuns envolvidas nas mais variadas tramas. O telespectador tem o direito de ver as feições desses (empresários) “marginais”, mesmo que sejam contemplados com prisão domiciliar.

O bom advogado para cumprir com suas obrigações descarrega uma cascata de recursos (40?), para livrar da cadeia imediata o esperto e abastado freguês. Ninguém procura absolver ou condenar o bicheiro, é como jogar no bicho. No capitalismo tudo, tem um preço, menos tu doutor. Lá pelas tantas, cai na mesa de um desembargador de plantão, 50 mil folhas acusando o delinquente, dá o bicho, o cara vai para casa, e é só alegria. Quem não arrisca fica sem visita íntima... “E aí, comeu?” Sexo e contravenção são divertidos.

Ventura Picasso – Cia dos Blogueiros
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‘E aí, comeu?’ Filme de Felipe Joffily – Adaptação da peça de Marcelo Rubens Paiva, de 1998. Entrou em cartaz 22/06.


4.6.12

ZECA

― O que se passa aqui na vila não se passa na Aclimação.
‘Há algo estranho no reino paulistano’. A segurança pública do estado mais rico da federação, não está dando conta da criminalidade, por quê?
Chamou-me a atenção o dialogo delicado entre o Cristiano Maffra, personal trainer, dono do cão por um lado, e pelo outro, o vilão da história. Certamente o chefe da ação, até agora identificado apenas por ‘individuo desconhecido’.     
O dono do simpático Staffordshire Terrier quis saber:
Onde está o meu cachorro?
Perguntou ao assaltante.
Este por sua vez, olhando para o seu cúmplice ao lado, repetiu a pergunta.
O meu, cadê o cachorro do boy?
Tá comigo, cara. É muito bonito pra deixar. Vou levar; é o cachorro de hora!
Fazendo um sinal com a cabeça, o chefe, trocando o olhar com o boy, apontou com o nariz na direção do sócio:
Tá ligado? Entendeu? Tá com ele viu!  

― Bandido legal. Cheguei! Talvez aqui seja o meu novo mundo, habitar este espaço infinito. Estou fazendo coisas que nunca fiz. Quanta gente diferente. A liberdade desenvolve outros valores, eu não sabia, cão de apartamento sofre pra burro. Hoje, andando com um bando de cachorrinhos estranhos, estou fazendo xixi no poste e cheirando rabo de vira-latas, sem complexos. Dou-me bem com todas as raças. Aqui é só alegria. A criançada se diverte muito com as minhas brincadeiras.
Cristiano arrasado entrou na internet e pôs o cachorro na rede.  Aquilo não poderia ser um roubo. Quem em sã consciência roubaria um Stafford? Foi sequestro! Logo o telefone vai chamar. Mas, não chamou. Foi roubo mesmo.
Lá no Violão, suponhamos, foram os dias mais felizes da vida do Zeca. Caiu na boemia, sem horário pra nada, tá na vida. Mas, tudo o que é bom acaba logo, a notícia de que a polícia havia localizado o cachorro chegou até Cristiano. Pelo Facebook o aviso geral: “Zeca voltando pra casa!!!!!! Polícia achou nosso cão, Brasil!”
O Facebook, verdadeiro rastreador via satélite, até a CIA usa o ‘ƒ’, espalhou a notícia como se o Zeca tivesse em seu corpo um chip bovino da Ceitec.
A rotina na vida do Zé voltou à normalidade. O dono emocionado diz ter reencontrado um filho. Zeca vai passar um tempo num “spa completo”, com “filé mignon” e “duas cachorras da mesma raça”, para recuperar o emocional.
― Que dureza, quem precisa de recuperação emocional, é o meu dono. Não quero spa, filé e duas cachorras da minha raça. Não sou preconceituoso. De hoje em diante, só a pretinha Candelária, pode resolver os meus problemas. O que passa lá na Aclimação não passa aqui no Monte Kemmel. Agora, eu quero saber quando é que o Cristiano vai me levar ao morro do Violão; preciso urgente, de umas ferias.
Ventura Picasso – Cia dos Blogueiros                                                                                                  2286 - Foto: f_102950.jpg - http://imagem.band.com.br/f_102950.jpg

31.5.12

Censura no FACEBOOK

quinta-feira, 31 de maio de 2012
“Depois da intolerância do Google/Blogspot de deletar blogs, agora o Facebook bloqueia usuárias que mostraram seios na ‘Marcha das Vadias’. Todos os perfis das ‘vadias’ foram bloqueados.”
Por Elenilson Nascimento


Você sai de casa com um vestido curto e passam a mão na sua bunda. Você conta para um amigo que “naturalmente” diz: "Mas também, né, com uma roupa dessas". Como assim? Nunca aconteceu com você? Apostamos que sim. E é por isso que manifestações como a “Marcha das Vadias” é mais uma boa ideia de dizer que algo está errado na nossa hipócrita sociedade. Acabar com essa história de que mulher estuprada (*sim, isso é um assunto é seríssimo) provocou isso. E, claro, com essas historinhas mais simples que acontecem todos os dias. Com todo mundo.
Mas o que ainda me preocupa muito não é o incômodo que essas manifestações provocam nas pessoas, mas a maneira como alguns reagem. Na rede social, por exemplo, libera o que as pessoas têm de pior no ser humano. Esse ano participei de uma palestra num colégio particular de classe média. Um adolescente disse, ao microfone, que o Facebook deveria ser fechado para quem tivesse ensino superior e poder de compra. Resultado: quase fui vaiado pela plateia porque discordei solenemente do Pókemon. Ele me chamou de hipócrita e disse: “Você não quer conviver com a sua empregada nas redes sociais. Você não quer abrir o seu perfil e encontrar um cara pobre mostrando um monte de fotos de parentes igualmente feios na internet.”.


Sai daquele lugar horrorizado com tanta ignorância, pois muitos não percebem que não há dissociação entre as vidas on-line e off-line. As pessoas agem como se fossem duas, como se tivessem adquirido um manto virtual, além de que muitos deles ainda acham que podem falar o que quiserem.
Contudo, essa semana, depois da “Marcha das Vadias”, no último sábado, várias mulheres que publicaram fotos em que apareciam com os seios à mostra em prol do movimento tiveram suas contas bloqueadas pelo Facebook. A notícias foi divulgada em vários canais importantes de comunicação do Brasil, mostrando mais uma vez que não estamos preparados para respeitar a opinião dos outros.
Várias amigas que participaram da manifestação mandaram mensagens informando que tiveram seus perfis bloqueados e ficaram impossibilitadas de interagir na rede social temporariamente. Segundo elas, está sendo impossível entrar no Facebook e compartilhar qualquer tipo de conteúdo no site.
Entrei em contato com a administração do Face e fui informado que, segundo os padrões da comunidade da rede social: "O Facebook tem uma política rígida contra o compartilhamento de conteúdo pornográfico e impõe limitações à exibição de nudez". Ainda segundo a publicação, para a foto ter sido excluída – e a usuária, bloqueada-, pelo menos um usuário denunciou a publicação das fotos no site. Para definir o que pode ou não ser considerado pornográfico ou nudez, cada caso é avaliado separadamente. Só acho impossível o Face avaliar perfil por perfil para saber que vai ser bloqueado ou não.
Em suma, muitos dos preconceitos que aparecem na internet já fazem parte da nossa sociedade, mas eles se tornam mais explícitos na rede. A internet obriga o contato com quem é diferente, e isso faz com que as ideias entrem em choque. Pessoas de opiniões diferentes compartilham círculos em comum, e é por isso que as pessoas por não verem com quem estão interagindo tendem a ser mais agressivas. Isso pode ser muito conflituoso, mas ainda gera interação.
No caso das contas bloqueadas no Face, a rede social diz que "se você encontrar algo no Facebook que considerar uma violação aos nossos termos, informe-nos". Apesar do pedido, há a ressalva que "denunciar um conteúdo não garante que ele será removido do site". A “Marcha das Vadias” teve por objetivo chamar a atenção para os diversos tipos de violência sofridos pelas mulheres. Procurada novamente pelo LC, a empresa, dessa vez, não quis se pronunciar. A assessoria de imprensa disse que o Facebook não se manifesta sobre casos específicos. Tá bom! 
imagens: divulgação
Postado por Elenilson Nascimento às 14:18