12.7.26

Deives Picáz do Bolsa Família

 A trajetória de Deives Picáz: do Bolsa Família ao empreendedorismo de impacto 

Influenciador e especialista em diversidade afirma que empresas ainda enfrentam mais barreiras de conhecimento do que de infraestrutura para promover ambientes realmente inclusivos

Conteúdo postado por:Redação Brasil 247Publicado em 12 de julho de 2026 às 10:32Atualizado em 12 de julho de 2026 às 10:47Apoie o 247

Bolsa Família

Bolsa FamíliaCrédito: Lyon Santos/MDS

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Beatriz Bevilaqua, 247 – A deficiência nunca foi o principal obstáculo na vida de Deives Picáz. O maior desafio sempre foi enfrentar o preconceito e a falta de informação. Nascido sem parte do antebraço direito, ele cresceu em escola pública, foi beneficiário do Bolsa Família, ingressou na universidade por meio das políticas de cotas e, anos depois, representou o Brasil na sede da ONU, em Genebra. Hoje, transformou essa trajetória na base da “Inclusão do Zero”, empresa que capacita organizações para construir ambientes mais diversos e inclusivos.

Graduado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e especialista em diversidade, equidade e inclusão, Picáz atua como comunicador, palestrante e consultor. Durante entrevista ao Empreender Brasil, na TV 247, ele explicou como experiências pessoais, políticas públicas e empreendedorismo se cruzaram para dar origem ao seu negócio.

Da exclusão à representatividade

Segundo Picáz, a conexão com a pauta da diversidade nasceu da própria vivência.

“Na verdade, o que me conecta à pauta da diversidade é realmente viver ela. Minha mãe, sem saber que estava grávida, precisou fazer um exame de raio-X e, por conta da radiação, eu nasci sem parte do antebraço direito. Em muitos momentos tive que cobrar pelos meus direitos e afirmar quem eu era.” Essa realidade moldou sua visão sobre inclusão e também sobre o papel da educação na transformação social. 

Antes de empreender, Picáz enfrentou uma realidade comum a milhões de brasileiros. Filho de trabalhadores autônomos, cresceu em uma família de baixa renda, onde o acesso ao ensino superior parecia distante.

Ele conta que o Bolsa Família foi decisivo justamente no momento mais importante da sua formação.

“Foi essencial ter o Bolsa Família acompanhando a minha jornada. Meus pais não tinham nem o ensino fundamental completo. Meu pai fazia pequenos reparos em carros e minha mãe vendia roupas para complementar a renda. Eles não participavam do mercado formal de trabalho e as dificuldades eram constantes.”

O programa permitiu que ele fizesse uma escolha que mudaria seu futuro.

“Com o Bolsa Família, pude dedicar meu tempo aos estudos, me preparar para o Enem e ingressar na universidade. Saí do ensino médio direto para a Universidade Federal do Rio Grande do Sul.”

Além do programa de transferência de renda, Picáz destaca a importância das políticas de cotas.

“Percebo que políticas públicas fizeram muita diferença na minha vida. Além do Bolsa Família, fui aluno cotista na universidade. Entrei pela vaga destinada à pessoa com deficiência e tive apoio para não apenas ingressar, mas concluir o curso.”

Um negócio criado para reduzir a distância entre empresas e inclusão

A ideia da Inclusão do Zero surgiu após uma experiência internacional. Em 2023, enquanto participava do Conselho Jovem do Pacto Global da ONU, Picáz representou o Brasil em um fórum de direitos humanos realizado em Genebra.

Foi durante as conversas com empresas e organizações que ele percebeu uma lacuna recorrente.

“Vi que o que as empresas mais tinham era dificuldade não para estruturar a parte arquitetônica, mas de conhecimento. Faltava reconhecer a pessoa com deficiência como uma trabalhadora capaz de contribuir para o crescimento da empresa. Faltavam direcionamento, clareza e conhecimento.”

Ao retornar ao Brasil, decidiu transformar essa percepção em um empreendimento.

“Eu sentia que precisava criar alguma coisa. Pensei no que faria sentido oferecer para as empresas. Não queria apenas fazer uma palestra e ir embora. Então desenvolvi uma capacitação que introduz diversidade e inclusão desde o começo. Por isso o nome Inclusão do Zero.”

A metodologia foi estruturada em três etapas: introdução aos conceitos de diversidade e inclusão, letramento sobre o preconceito e aplicação prática do conhecimento dentro das empresas. Segundo ele, o diferencial está justamente na combinação entre embasamento técnico e experiência pessoal.

“É conhecimento e vivência para criar algo novo.”

O preconceito começa muito antes do ambiente corporativo

Para Picáz, muitas práticas discriminatórias são reproduzidas sem que as pessoas percebam. Ele afirma que a ausência de educação sobre diversidade desde a infância ajuda a perpetuar comportamentos excludentes.

“As pessoas geralmente falam e nem se dão conta porque não tiveram esse letramento. Não aprendemos sobre diversidade. Aprendemos a fazer bullying, a excluir colegas e a formar grupos que deixam outras pessoas de fora.”

Ao explicar o conceito de capacitismo, ele ressalta que a deficiência costuma ser tratada como um problema, quando deveria ser compreendida como uma característica humana.

“A crença que permanece é de que a deficiência é um problema, quando, na verdade, ela é uma característica humana. Se a sociedade adapta os ambientes em que convivemos, as pessoas com deficiência conseguem acessá-los plenamente.”

A trajetória de Deives Picáz mostra que empreendedorismo também pode nascer da necessidade de transformar estruturas sociais. Mais do que cumprir exigências legais, sua proposta é estimular uma mudança cultural, capaz de ampliar oportunidades, combater preconceitos e tornar os ambientes corporativos mais preparados para reconhecer talentos em toda a sua diversidade.

 

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