Deutsche Bank com pés de barro
http://www.cartacapital.com.br/revista/922/deutsche-bank-com-pes-de-barro
CartaCapital, 1410/16
CartaCapital, 1410/16
Por
Líderes empresariais da Alemanha decidiram apoiar o Deutsche Bank depois de uma semana turbulenta no mercado. As ações do maior banco do país foram arrastadas para seus níveis mais baixos em 30 anos, diante do risco da aplicação de uma multa de 14 bilhões de dólares por autoridades dos Estados Unidos em consequência de operações com títulos garantidos por hipotecas de má qualidade na crise de 2008.
Líderes empresariais da Alemanha decidiram apoiar o Deutsche Bank depois de uma semana turbulenta no mercado. As ações do maior banco do país foram arrastadas para seus níveis mais baixos em 30 anos, diante do risco da aplicação de uma multa de 14 bilhões de dólares por autoridades dos Estados Unidos em consequência de operações com títulos garantidos por hipotecas de má qualidade na crise de 2008.
Em meio a preocupações de que
as dificuldades do Deutsche Bank possam provocar o caos no mundo, investidores
e políticos acompanham as tentativas do executivo-chefe do banco, John Cryan, de fechar um acordo
relativo ao escândalo de dez anos de
transações irregulares.
O executivo britânico, à
frente do Deutsche desde meados de 2015, pretendia encontrar-se com banqueiros
e políticos na reunião anual do Fundo Monetário
Internacional, iniciada na terça-feira 4, nos Estados Unidos, para a
celebrar o pacto.
Durante o fim de semana, líderes empresariais deram declarações a
jornais alemães em apoio aos esforços de Cryan para reverter a situação do
Deutsche Bank, um esteio da economia nacional. Com um patrimônio de 1,8 trilhão de euros, tem quase a metade do tamanho
da economia alemã, mas por causa de sua queda na Bolsa está avaliado pelos investidores em apenas 16
bilhões de euros. O FMI o
descreveu como o banco mais importante do mundo, do ponto de vista sistêmico.
O ministro da Economia alemão, Sigmar
Gabriel, disse que executivos do banco colocaram em risco um grande
número de empregos: “Milhares serão
demitidos. Agora eles pagarão pela loucura praticada por diretores
irresponsáveis”.
As ações do banco se
recuperaram na sexta-feira 30, depois de uma reportagem da agência de notícias
AFP anunciar que o acordo totalizaria 5,4 bilhões de dólares, em vez dos 14
bilhões previstos. No mês passado, a queda das ações ganhou força após
notícias, insistentemente negadas, de que o banco solicitara auxílio à
chanceler alemã, Angela Merkel.
Em uma carta enviada aos 100 mil funcionários da instituição,
Cryan atacou as “forças do mercado” que tentam desestabilizá-la. A mensagem foi
encaminhada depois de a agência Bloomberg relatar que dez fundos hedge
decidiram reduzir seus negócios com o banco.
No domingo 2, Jürgen
Hambrecht, presidente da indústria química Basf, disse ao
jornal Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung: “A indústria alemã precisa de um banco alemão que nos acompanhe mundo
afora”. “O Deutsche Bank tem uma grande tradição, uma base sólida e
também um grande futuro. Estou convencido disso”, afirmou o executivo-chefe da
empresa automobilística Daimler, Dieter
Zetsche.

Peter Ramsauer, presidente da Comissão
Econômica do Parlamento alemão, também falou sobre as “características de
guerra econômica” na abordagem americana. As eleições presidenciais nos EUA, no
próximo mês, são vistas como um possível prazo para se chegar a um acordo com o
Departamento de Justiça, que firmou pactos com vários bancos americanos,
inclusive o Goldman Sachs.
O Financial Times informou que o Credit Suisse e o Barclays
poderiam fazer parte do acordo. O Banco
Real da Escócia, socorrido financeiramente pelas autoridades, advertiu
que poderá precisar de um acordo com o Departamento de Justiça em torno de 9
bilhões de libras.
Segundo Ross McEwan, o
executivo-chefe da instituição, as negociações para um pacto com o Departamento
de Justiça não haviam começado, apesar de o banco, com 73% do controle
pulverizado entre pequenos acionistas, ter pago 846 milhões de libras à
Administração Nacional de Cooperativas de Crédito por conta do escândalo.
Os
problemas do Deutsche Bank não se limitam aos Estados Unidos. Enfrentará uma
investigação de suas atividades na Rússia, e vários funcionários e
ex-funcionários foram acusados em Milão de ligação com o Banca Monte dei Paschi
di Siena SpA, o terceiro maior da Itália, numa conspiração para falsificar
contas e manipular o mercado.
A mídia explora as contradições do governo
alemão no socorro às instituições financeiras. “É claro que a chanceler Merkel
não quer dar ao Deutsche Bank ajuda estatal. Ela não pode sustentar isso do
ponto de vista da política externa, porque Berlim assume uma linha dura no
resgate aos bancos italianos”, relatou a agência Reuters, em citação do
jornal Frankfurter Allgemeine.
O chefe da Autoridade Federal
de Supervisão Financeira da Alemanha, Felix
Hufeld, pediu aos cidadãos para não entrarem em pânico. “Apelo para não
se deixarem arrastar para o tipo de espiral descendente de percepção negativa. Nem toda reação nervosa do mercado é baseada
em fatos objetivos”, disse ao periódico de Frankfurt, sem citar
diretamente o próprio Deutsche.
O banco participou da ascensão
da Alemanha à condição de potência econômica, ao financiar sua indústria no
século XIX e contribuir com a recuperação após a Segunda Guerra Mundial.
Ele enfrentou os gigantes de Wall Street na economia globalizada do pós-Guerra
e sobreviveu à crise bancária de 2008 sem pedir resgate.
Em uma indicação do prestígio
da instituição, Merkel organizou naquele ano uma festa especial comemorativa
dos 60 anos do então diretor Josef
Ackermann, com um jantar de aspargos frescos e bife à milanesa em sua
chancelaria.
Agora, quando o banco completa 146 anos, surgem
perguntas sobre como se reinventará em um cenário financeiro sob abalos
sísmicos em consequência da mudança regulatória e de temores de uma recessão
econômica global.
Segundo Jörg Rocholl, presidente da Escola de
Administração e Tecnologia de Berlim, “não
há outro país em que um banco tenha um papel tão central como o Deutsche Bank
na Alemanha”.
Christopher
Wheeler, analista de bancos na Atlantic Equities, disse
que o Deutsche se assemelha ao Barclays do Reino Unidos, um banco de investimentos e importante credor para grandes empresas.
Agora tenta se livrar do Postbank, seu braço de varejo, adquirido em 2010, em
meio a dúvidas sobre como vai gerar receitas no futuro.
As tentativas de desmembrar o Postbank
mostram-se perturbadoras, e um relatório divulgado na quarta-feira 28 sugeriu
que o Deutsche teria de reduzir o valor da empresa em um terço, para 2,8
bilhões de euros, antes de prosseguir nas negociações.
Acrescentam-se preocupações
sobre a conta potencial de litígios e multas. Analistas do Morgan Stanley
previram mais 3,9 bilhões de euros em custos entre 2016 e 2017. “Talvez essas
pendências não se resolvam até 2017”, disseram analistas. Eles citam
“disputas não resolvidas que o mercado luta para encerrar, fraca geração de
capital e necessidade de ações para levantar capital”.
O ministro das Finanças, Wolfgang
Schäuble, provavelmente exultou diante da serenidade da mídia alemã na
cobertura dos problemas do Deutsche, mas certamente irritou-se com esse
terrível comentário na primeira página do Frankfurter
Allgemeine Zeitung: “O que se
pode pensar sobre um banco que tem de prometer a seus clientes e investidores
que é capaz de devolver seus depósitos e aplicações? Quão sólida é uma instituição que perdeu um
terço do seu valor em ações em um mês, e a metade dele durante um ano? Não são
mais os clientes de alguns bancos gregos que estão fazendo perguntas tão duras,
mas os clientes do Deutsche Bank”.