Dirigente
alemão defende debate sobre boicote à Copa nos EUA
Vice-presidente
da Federação Alemã de Futebol critica ações de Donald Trump e diz que cenário
atual pode justificar retirada coletiva do Mundial
24 de
janeiro de 2026, 08:22 h
O presidente dos EUA, Donald Trump, e o presidente da FIFA, Gianni Infantino, na Casa Branca em Washington, D.C., EUA, em 6 de maio de 2025 (Foto: REUTERS/Kent Nishimura)
Conteúdo postado por: Aquiles Lins
247 - A possibilidade de um boicote em
massa à Copa do Mundo deste ano, marcada para ser disputada nos Estados Unidos,
Canadá e México, entrou no centro do debate na Alemanha após declarações do
vice-presidente da Federação Alemã de Futebol (DFB), Oke Gottlich. O dirigente
afirmou ser necessário “debater seriamente” uma eventual retirada coletiva do
torneio, em reação às ações do presidente americano Donald Trump, especialmente
às ameaças de anexação da Groenlândia.
As
declarações foram dadas em entrevista ao jornal alemão Hamburger Morgenpost
e repercutidas pelo jornal O Globo. Gottlich integra o Comitê Executivo
da DFB e também é presidente do St. Pauli, clube que disputa a Bundesliga.
“Chegou a
altura de considerar e debater seriamente a possibilidade de uma retirada em
massa do Campeonato do Mundo”, afirmou o dirigente, ao comentar o impacto
político do atual cenário internacional sobre o esporte.
Ao
justificar sua posição, Gottlich fez referência aos boicotes históricos aos
Jogos Olímpicos de 1980, em Moscou, e de 1984, em Los Angeles, ocorridos em
meio às tensões da Guerra Fria. Para ele, a situação atual pode ser ainda mais
grave. “Na minha avaliação, a ameaça potencial agora é maior do que era então.
Temos de discutir isto”, disse.
O
vice-presidente da DFB também criticou o que considera incoerência das
entidades esportivas diante de questões políticas, comparando a postura adotada
em relação à Copa do Mundo do Catar com o atual contexto envolvendo os Estados
Unidos. “O Catar era demasiado político para todos, e agora somos completamente
apolíticos? É uma coisa que me incomoda verdadeiramente. Como organizações e
como sociedade, esquecemos de como estabelecer tabus e limites e como defender
valores”, afirmou.
Em tom mais
incisivo, Gottlich questionou onde estariam os limites éticos das lideranças
esportivas e políticas. “Um tabu é quebrado quando alguém ameaça? Um tabu é
quebrado quando alguém ataca? Quando pessoas morrem? Gostaria de saber, da
parte de Donald Trump, quando é que atingiu o seu limite, e gostaria de saber,
da parte de Bernd Neuendorf e Gianni Infantino”, completou, citando o
presidente da DFB e o presidente da Fifa.
A discussão
não se restringe ao meio esportivo. Parlamentares alemães passaram a comentar
publicamente a hipótese de boicote, enquanto o governo federal reforçou que a
decisão cabe exclusivamente às entidades esportivas. Em resposta a
questionamentos da agência AFP, a secretária de Estado do Esporte, Christiane
Schenderlein, afirmou que o Executivo respeitará qualquer decisão tomada pela
federação.
“Essa
avaliação, portanto, cabe às federações envolvidas, neste caso a DFB e a Fifa.
O governo federal acatará a decisão delas”, declarou Schenderlein em comentário
enviado por e-mail. Em outra manifestação, ela reforçou que “as decisões
relativas à participação em grandes eventos esportivos ou a boicotes são de
responsabilidade exclusiva das federações esportivas, e não da esfera
política”.
O debate
ganhou força diante das declarações de Trump sobre a Groenlândia e de ameaças
de aumento de tarifas contra países europeus que se oponham a seus planos. Para
o deputado conservador Roderich Kiesewetter, da CDU, o impacto poderia ser
direto sobre o torneio. “Se Donald Trump cumprir suas ameaças em relação à
Groenlândia e desencadear uma guerra comercial com a União Europeia, acho
difícil imaginar os países europeus participando da Copa do Mundo”, afirmou ao
jornal Augsburger Allgemeine.
Outro
parlamentar da CDU, Jürgen Hardt, disse ao jornal Bild que o
“cancelamento do torneio” seria um “último recurso para fazer o presidente
Trump cair em si”. Já o deputado social-democrata Sebastian Roloff defendeu, em
entrevista ao Handelsblatt, uma “resposta unificada” da Europa e a
possibilidade de “considerar a retirada da Copa do Mundo”.
A discussão
também encontra eco na opinião pública. Segundo pesquisa do Instituto Nacional
de Estatística realizada para o Bild com mil entrevistados, 47% dos
alemães apoiariam um boicote à Copa do Mundo caso os Estados Unidos anexassem a
Groenlândia, enquanto 35% se declararam contrários à medida.
Tetracampeã
mundial, a seleção da Alemanha não ficou fora de nenhuma edição da Copa do
Mundo desde o retorno às competições internacionais após a Segunda Guerra
Mundial, em 1950. O contexto político atual, porém, abre um debate inédito às
vésperas do torneio, em um cenário marcado também pela proximidade entre Donald
Trump e o presidente da Fifa, Gianni Infantino, que recentemente entregou ao
presidente americano o recém-criado Prêmio da Paz da entidade durante o sorteio
da Copa.
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