Miguel Nicolelis: "Não há nos EUA quem pare Trump". Neurocientista Nicolelis diz que mecanismos de freios e contrapesos foram corroídos e relata ausência de oposição efetiva ao presidente dos Estados Unidos
03 de
fevereiro de 2026, 18:34 h
Miguel
Nicolelis (Foto: Felipe L. Gonçalves/Brasil247)
Conteúdo postado por: Dafne Ashton
247 - O médico, neurocientista e
pesquisador brasileiro Miguel Nicolelis afirmou que os Estados Unidos
atravessam um processo acelerado de corrosão institucional e que não existe,
hoje, uma força política ou institucional capaz de conter Donald Trump, o presidente
dos Estados Unidos. Segundo ele, mecanismos apresentados historicamente como
garantias de estabilidade democrática foram ultrapassados em curto espaço de
tempo, sem que houvesse uma reação proporcional por parte das instituições ou
da oposição.
As
declarações foram feitas durante entrevista ao programa Giro das Onze, da TV
247.
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Ao analisar
o cenário político norte-americano, Nicolelis destacou o que considera o
elemento mais alarmante do momento atual: a ausência de resistência efetiva. “O
que mais assusta é a falta de qualquer reação concreta, de qualquer oposição
real. Os democratas no Congresso, na prática, não fazem diferença”, afirmou.
Para ele, essa inação contribui para a consolidação de decisões que, em outros
períodos, encontrariam barreiras institucionais mais sólidas.
Nicolelis
lembrou que a democracia dos Estados Unidos sempre foi apresentada como um
sistema protegido por freios e contrapesos. “Os americanos sempre se orgulharam
de dizer que a democracia deles era muito segura porque existia um sistema de
checks and balances”, disse. Em seguida, enumerou os pilares desse modelo: “a
Suprema Corte, o Congresso como única instância capaz de aprovar despesas e
autorizar guerras”. Na avaliação do pesquisador, porém, esse arranjo foi
esvaziado: “Tudo isso foi atropelado em um período muito curto, de forma
inacreditável, com uma profundidade que corroeu esses mecanismos”.
O
neurocientista afirmou que a velocidade das mudanças surpreende inclusive
pessoas experientes do meio acadêmico e político. “Quando converso com
professores universitários e pessoas do mundo privado, ninguém consegue
acreditar no que está acontecendo”, relatou. Segundo ele, há um sentimento
generalizado de perplexidade diante do enfraquecimento das estruturas
institucionais que, até recentemente, eram vistas como sólidas.
Em relatos
pessoais, Nicolelis disse alertar amigos nos Estados Unidos sobre a gravidade
da situação. “Eu digo: ‘Você está sendo ingênuo. Eu já vi esse filme e sei como
ele termina. Isso está acontecendo agora’”, contou. Para o pesquisador, a
dificuldade de reconhecer o processo em curso contribui para a ausência de uma
resposta organizada e eficaz.
Ao
sintetizar sua análise, Nicolelis foi categórico ao avaliar as possibilidades
de contenção do atual governo. “Não há nos Estados Unidos quem pare Trump”,
afirmou. Segundo ele, a combinação entre a fragilização dos freios
institucionais e a falta de uma oposição atuante criou um ambiente em que
decisões são tomadas sem o controle que, no passado, caracterizava o sistema
político norte-americano.
Para o
cientista, o problema central não se resume a episódios isolados, mas a um
movimento estrutural que avança rapidamente. A seu ver, a erosão dos mecanismos
de equilíbrio institucional, somada à ausência de resistência efetiva, define
um cenário que marca uma inflexão profunda no funcionamento da democracia dos
Estados Unidos.