O poeta negro Miró da Muribeca, voz antirracista do Recife
Quatro anos
após a morte de Miró da Muribeca, a memória do bardo urbano do Recife resiste
ao esquecimento oficial através do livre fluxo das lembranças
Publicado em
31 de julho de 2026 às 11:47
Crédito: Reprodução/Facebook
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Quando às
vezes nos encontramos cansados, ou com a mais incômoda esterilidade, eis que
cai sobre nós um assunto ou pessoa que exige merecidas linhas. Este é o caso do
poeta Miró da Muribeca, que faleceu em 31 de julho de 2022. Faz só quatro anos,
e parece que ninguém mais o lembra! Os jornais não registram a data, os portais
na internet não percebem a sua falta, então é preciso que um escritor
conterrâneo e de origem fraterna o lembre.
Em um Recife
de tantas vozes negras, entre as quais poucas se veem como afrodescendentes,
ponho Miró da Muribeca ao lado de Solano Trindade, o grande poeta comunista,
que legou poemas inesquecíveis como “Tem gente com fome”. Miró está ao lado de
Solano não bem pela consciência socialista, de marxismo, mas pela consciência
de classe vivida, negra, expressa em poesia que é um soco no estômago de toda a
gente.
Tantas
coisas a falar sobre Miró. Tantas, que nem consulto anotações e textos
anteriores, como os que escrevi sobre a sua biografia publicada pela CEPE, e no
Dicionário Amoroso do Recife. Seria fácil copiar e colar. Mas não, à sua
maneira, vou improvisando no livre fluxo da memória. De repente, estou com ele
no Recife, próximo ao Bar Mamulengo, tiramos fotos. Ou na Rua do Bom Jesus,
onde lhe digo, “Miró, escrevi sobre você”, e ele, grande, se curva num
cumprimento que é uma graça. Ou diante da sua estátua, e recito versos em que o
poeta fala que nas farmácias não existe remédio para a dor da saudade. Ou seria
algo contra a dor da falta de amor?
De outra
oportunidade, me contam que Miró estava numa roda de jovens na Rua da Moeda, no
Recife Antigo, e os policiais o escolhem para sofrer um “baculejo” (gíria para
a vistoria policial no corpo de uma pessoa). Ele foi o escolhido. Então, de
volta à mesa, os jovens se revoltam contra a discriminação da polícia. E Miró
os consola:
Nada, véi,
tudo bem. Fazia tempo que ninguém pegava no meu saco.
E todos
riem. Pois Miró era assim, ele arrancava do trágico, ou do dramático, a maior
comicidade. Como numa declamação de poema, na Bienal do Livro, onde foi sucesso
absoluto entre os jovens recifenses de todas as cores e classes. No palco, ele
declamou, pelo que cito de memória:
Mãe, pai
fumava maconha?
E a mãe:
Já tá
querendo saber demais!.
Ou quando,
em surtos ou contestação, andava de saia, de vestido, pelas ruas do Recife. A
qualquer estranheza, ele respondia: “É a roupa da minha mãe que morreu. É assim
que me lembro dela”. Ou quando o encontrei, no Pátio de Santa Cruz, no dia em
que me dirigia para falar sobre o grande músico de frevo Maestro Nunes, numa
missa de sétimo dia, e no bar às 9 da manhã Miró já estava bebendo a sua
cerveja. E lhe disse:
Miró, vamos
homenagear o Maestro Nunes, aqui perto, na Igreja de Santa Cruz. Você vem?
E ele, com
um sorriso:
Depois, eu
vou.
E fiquei com
a esperança de que ele fosse mesmo, pelo menos como um intervalo na cerveja.
Esperança frustrada. Depois, em outra oportunidade, num dos bares do Mercado da
Boa Vista, quando ele ficou aos beijos cada vez mais insistentes em cima da
minha filha Luanda. Tive que aguentar a mistura de admiração por Miró e o
desgosto por aquela manifestação teimosa. Mas assim era a alma do poeta, na
alegria e na tristeza. Ele amava, amava e amava demais, mas com maior
frequência tinha de volta o desamor, desamor e desamor. O seu coração era um
disparador de bumerangues.
Autor Urariano Mota
Autor de
“Soledad no Recife”, recriação dos últimos dias de Soledad Barrett, mulher do
Cabo Anselmo, entregue pelo traidor à ditadura. Escreveu ainda “O filho
renegado de Deus”, Prêmio Guavira de Literatura 2014, e “A mais longa duração
da juventude”, romance da geração rebelde do Brasil
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