Morre Laura Cardoso, ícone da dramaturgia brasileira, aos 98 anos
Artista
construiu uma carreira de 82 anos no rádio, no teatro, no cinema e na televisão
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postado por:José
ReinaldoPublicado em 18 de agosto de 2026 às 03:51♥Apoie o 247
Laura CardosoCrédito: Redes
sociais/divulgação
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247 – Uma das trajetórias mais extensas e
reconhecidas da dramaturgia brasileira chegou ao fim nesta terça-feira (18):
Laura Cardoso morreu aos 98 anos, depois de dedicar 82 anos ao rádio, ao
teatro, à televisão e ao cinema. A causa da morte não foi divulgada. As
informações são da Folha de S.Paulo.
O anúncio
foi feito pelo bisneto da atriz, Fernando Faria, no perfil oficial de Laura no
Instagram, durante a madrugada desta terça-feira (18). “Nossa grande estrela se
despediu de nós”, informou a publicação. “Laura Cardoso estará para sempre em
nossos corações. Obrigada por tudo, nossa amada e eterna Laura Cardoso.”
A atriz
deixa uma obra que atravessou diferentes períodos da comunicação e das artes
cênicas no Brasil. Sua carreira começou quando o rádio ainda ocupava o centro
da vida cultural do país, passou pelos primeiros anos da televisão e alcançou
as grandes produções das novelas, do teatro e do cinema nacional.
Da
infância no Bexiga ao início no rádio
Registrada
como Laurinda de Jesus Cardoso, Laura era filha de antigos camponeses
portugueses oriundos da região de Trás-os-Montes. Na infância, viveu em um
cortiço no Bexiga, bairro popular da região central de São Paulo.
O interesse
pela interpretação surgiu inicialmente por meio da leitura. Laura gostava de
ler para os pais e, mais tarde, passou a ser chamada para recitar textos diante
das colegas no colégio de freiras onde estudava. Essas experiências
contribuíram para despertar sua ligação com as artes cênicas.
Aos 16 anos,
iniciou a vida profissional na Rádio Cosmos. Participou de programas de
auditório, atrações humorísticas e radionovelas, formatos que ocupavam espaço
de destaque na programação da época.
Em 1946, já
na Rádio Tupi, conheceu o ator, diretor e roteirista Fernando Balleroni, que
viveu entre 1922 e 1980 e se tornaria seu marido. Os dois seguiram
posteriormente para a Rádio Bandeirantes.
Nesse
período, Laura também integrava um grupo de radioteatro que apresentava
pequenos esquetes em circos localizados na periferia. Algumas dessas atuações
eram realizadas sem pagamento.
O
reconhecimento no rádio cresceu em 1948, quando interpretou a menina Laurinha
no programa “Ciranda, Cirandinha”, da Rádio Cultura. Ao retornar à Tupi,
trabalhou em radionovelas dirigidas por Otávio Gabus Mendes.
Pioneirismo
na televisão brasileira
A estreia de
Laura Cardoso na televisão ocorreu em 1952, no programa “Tribunal do Coração”,
da TV Tupi. Por aproximadamente 15 anos, ela fez parte do elenco permanente das
produções de teleteatro exibidas ao vivo pela emissora.
A atriz
participou de atrações como “TV de Vanguarda”, “TV de Comédia” e “Grande Teatro
Tupi”. Os programas levavam adaptações de obras clássicas da literatura para a
televisão, em uma época marcada pela transmissão ao vivo e pela ausência dos
recursos de gravação adotados posteriormente.
Ao longo
dessa fase, Laura trabalhou sob a direção de profissionais como Cassiano Gabus
Mendes, Vida Alves, Wanda Kosmo e Walter George Durst. Entre 1966 e 1967,
cumpriu uma temporada no Rio de Janeiro, com atuações nas emissoras TV Rio e
Excelsior.
De volta a
São Paulo, passou novamente pelas TVs Bandeirantes e Tupi. Também integrou uma
sequência de novelas da Record, entre elas “As Pupilas do Senhor Reitor”.
Nos últimos
anos de funcionamento da TV Tupi, atuou em produções como “Os Inocentes” e
“Ídolo de Pano”. A experiência acumulada no rádio e nas apresentações ao vivo
ajudou a consolidá-la como uma das intérpretes mais experientes da televisão
brasileira.
Mais de
20 novelas na TV Globo
Laura
Cardoso estreou na TV Globo em 1981, na novela “Brilhante”, escrita por
Gilberto Braga. Ao longo das décadas seguintes, participou de mais de 20
telenovelas da emissora.
Entre seus
trabalhos estão as novas versões de “Mulheres de Areia”, “A Viagem” e “Irmãos
Coragem”, exibidas entre 1993 e 1995. A atriz também integrou o elenco de
“Explode Coração”, primeira novela gravada no complexo cenográfico conhecido
como Projac.
Em 2009,
participou de “Caminho das Índias”. Antes disso, em 2005, retomou
simbolicamente a relação com o rádio ao narrar a minissérie “Hoje É Dia de
Maria”, dirigida por Luiz Fernando Carvalho.
Sua última
novela foi “A Dona do Pedaço”, exibida em 2019. Em 2024, Laura esteve entre os
nomes homenageados pelo programa “Tributo”, da Globo.
Uma
carreira marcada pelo respeito ao texto
Ao longo de
mais de oito décadas de atividade artística, Laura Cardoso defendia a
fidelidade à obra criada pelos autores. “Primordial é respeitar o que o autor
quer, não se pode desrespeitar o texto que foi escrito”, afirmava.
A atriz
também explicava que, depois de compreender a personalidade e o caminho de um
papel, o intérprete precisava sustentar aquela construção “para levar a pancada
ou o beijo”.
Ao refletir
sobre a dimensão menos previsível da atuação, acrescentava: “Sem a bênção dos
deuses do teatro é melhor cair fora, porque não dá em nada.”
Essa relação
rigorosa com os textos esteve presente em trabalhos realizados para diferentes
meios, desde as radionovelas e os teleteatros ao vivo até as produções
cinematográficas e televisivas de maior escala.
Reconhecimento
no teatro e no cinema
A estreia de
Laura Cardoso no teatro adulto ocorreu em 1959, com “Plantão 21”, de Sidney
Kingsley, sob a direção de Antunes Filho. Décadas depois, voltou a trabalhar
com o diretor em “Vereda da Salvação”, na montagem de 1993.
A atuação em
“Vem Buscar-me que Ainda Sou Teu”, encenada em 1991 e dirigida por Gabriel
Vilella, rendeu à atriz diferentes premiações. Até 2016, ela permaneceu nos
palcos com a peça “A Última Sessão”, de Odilon Wagner, na qual interpretava uma
psicanalista.
No cinema,
viveu um papel de destaque em “Terra Estrangeira”, filme de Walter Salles e
Daniela Thomas lançado em 1996. Em 2000, recebeu um prêmio no Festival de
Recife por sua atuação como protagonista de “Através da Janela”, dirigido por
Tata Amaral.
Laura também
venceu a categoria de melhor atriz coadjuvante do Grande Prêmio Cinema Brasil
pelo trabalho em “O Outro Lado da Rua”, produção de 2004 dirigida por Marcos
Bernstein.
Seu último
lançamento cinematográfico ocorreu em 2025, com o curta-metragem “Dona
Rosinha”, de Kk Araújo. No filme, interpretou uma mulher idosa abandonada pela
filha em um ponto de ônibus, encerrando sua passagem pelas telas com mais um
papel centrado na complexidade da experiência humana.
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