Em livro, ex-comandante da FAB detalha bastidores da resistência ao golpe e diz que Forças Armadas “perderam confiabilidade” sob Bolsonaro
Ex-comandante
da Aeronáutica, Carlos de Almeida Baptista Junior relata pressões para ruptura
institucional, detalha rompimento com Braga Netto e reflete sobre os impactos
do bolsonarismo nas instituições militares
Conteúdo postado por:Guilherme
LevoratoPublicado em 18 de agosto de 2026 às 06:25♥Apoie o 247
Tenente-brigadeiro do ar Carlos de
Almeida Baptista JuniorCrédito: ABR
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247 – Em entrevista na qual detalha os
bastidores de sua atuação contra as pressões pela decretação de um golpe de
Estado após o pleito presidencial de 2022, o ex-comandante da Aeronáutica,
tenente-brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, afirmou que as Forças
Armadas sofreram expressiva perda de confiabilidade perante a sociedade
brasileira durante a gestão de Jair Bolsonaro (PL), informa Bela Megale, do
jornal O
Globo.
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Testemunha
central nos processos no Supremo Tribunal Federal (STF) que apuraram a
tentativa de ruptura institucional e que resultaram na condenação de
ex-integrantes do primeiro escalão do governo anterior, Baptista Junior está
lançando o livro “Eu disse NÃO: uma trincheira antigolpista”, publicado
pela Autêntica Editora. Na obra, o militar aborda os momentos de maior tensão
vividos no final de 2022, a resistência às investidas ilícitas e o custo
pessoal e institucional de sua postura legalista.
A perda
de confiabilidade e o papel das Forças Armadas
Ao avaliar
os impactos da gestão de Jair Bolsonaro sobre os quadros militares, o
ex-comandante enfatizou que o envolvimento político desgastou a imagem das
instituições perante a opinião pública.
“As Forças
perderam confiabilidade, talvez seja essa palavra. Porque sempre houve uma
parte da sociedade, até pelo nosso processo histórico, que não tinha um bom
alinhamento, uma boa percepção das Forças Armadas, e agora esse leque ampliou”.
Apesar do
cenário adverso, o tenente-brigadeiro manifestou confiança na recuperação da
credibilidade das Forças, desde que mantida uma postura estritamente voltada ao
Estado. “Confio que as Forças Armadas vão recuperar essa confiabilidade
mantendo sua postura de Estado, de que não estão aqui para defender A ou B”,
acrescentou.
Cientista da
própria responsabilidade e da participação excessiva de fardados na
administração pública anterior, Baptista Junior pontuou que “foram militares
demais no primeiro escalão”, ainda que considere positiva a atuação em setores
específicos de estatais e órgãos previdenciários.
Momentos
de tensão e o relatório das urnas
O
ex-comandante da FAB classificou as semanas de novembro de 2022 como o período
de maior gravidade no contexto das tentativas de subversão da ordem
democrática. Segundo ele, a crise se acentuou especialmente nos dias 14, 22 e
24 de novembro, datas em que Bolsonaro alimentou a expectativa de contestar o
resultado das urnas com base em auditorias promovidas pelo Instituto Voto
Legal.
Baptista
Junior ressaltou que a insistência em questionar o sistema eleitoral gerou um
ambiente de extrema incerteza. Para evitar especulações sobre rupturas, o
militar chegou a propor a antecipação da transmissão do comando das Forças
Armadas antes da posse do presidente Lula (PT).
A
iniciativa, contudo, acabou gerando interpretações equivocadas de que se
tratava de uma recusa em prestar continência ao novo mandatário. Após diálogo
com o indicado para o Ministério da Defesa, José Múcio Monteiro, a data da
passagem de comando foi ajustada para transcorrer na normalidade do calendário
institucional.
“A
continência é um ato de saudação à autoridade, não à pessoa. Todos os militares
devem continência ao presidente da República, seja quem for”.
Rompimento
pessoal e ataques promovidos por aliados
Entre os
desdobramentos de sua recusa em apoiar iniciativas ilícitas, o militar relatou
o rompimento definitivo com antigos interlocutores, com destaque para o general
Walter Braga Netto, ex-ministro da Defesa e candidato a vice-presidente na
chapa de Bolsonaro em 2022.
O ponto de
ruptura ocorreu quando tomou conhecimento de orientações para que subordinados
e militantes atacassem a honra de comandantes legalistas e de suas respectivas
famílias.
“Colocar a
família nisso passou do limite, e tenho certeza de que Braga Neto se arrependeu
[…] Ainda me machuca muito ele ter mandado ferrar com a família. Isso é um
ponto de ruptura. Em alguns aspectos, acho que ou é zero, ou é um. Eu não sei
se, depois que virar zero, tem como voltar a ser um”.
A despeito
do desgaste pessoal, do distanciamento de antigos amigos e das pressões
cotidianas sofridas durante o processo, o ex-comandante ressaltou que cumpriu
rigorosamente com o dever constitucional: “O que eu fiz foi cumprir a lei, e
não quero ser herói por causa disso. Ninguém deveria ser herói por cumprir a
lei ao não apoiar o golpe”.
Diálogo
pós-8 de janeiro e lições para o futuro
Baptista
Junior também revelou ter mantido um último contato telefônico com Jair
Bolsonaro cerca de dez dias após os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. O
contato ocorreu após assistir a uma entrevista na qual dirigentes partidários
tentavam atribuir aos militares a responsabilidade pelos erros cometidos no
período.
Na ocasião,
o ex-comandante cobrou uma posição clara do ex-presidente para desmobilizar os
manifestantes e conter a crise jurídica e imagem que recaía sobre as Forças
Armadas. Bolsonaro, no entanto, afirmou que não seria capaz de alterar a
disposição daqueles grupos.
Questionado
sobre a possibilidade de o país enfrentar novos episódios de tentativa de
ruptura institucional no futuro, o tenente-brigadeiro concluiu que a
recorrência desse tipo de cenário torna-se cada vez mais remota, embora
recomende vigilância constante da sociedade em relação às construções do
discurso populista.
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